Citando Koudelka

«Acho maravilhoso que todos possam tirar fotografias, tal como acho maravilhoso toda a gente poder escrever. Mas há muito poucos escritores e há muito poucos fotógrafos. Todos têm uma câmara, todos podem carregar no botão. Todos têm um lápis, todos podem assinar. Mas isto não significa que haja muitos grandes escritores e não significa que haja muitos grandes fotógrafos».

Esta frase, proferida numa entrevista por um dos meus fotógrafos preferidos – Josef Koudelka – poderia parecer pretensiosa se fosse da minha autoria, mas subscrevo-a por inteiro. Não é qualquer um que se pode intitular “fotógrafo”. Ser fotógrafo é muito mais que ter uma câmara e disparar. Vou mais longe: é muito mais que dominar as técnicas fotográficas.

A frase de Koudelka é tanto mais verdadeira quanto mais generalizado é o acesso à fotografia. A internet abriu a fotografia ao conhecimento generalizado, o que teve por efeito que multidões procurassem imitar as fotografias que lhes eram apresentadas como obras-primas (mesmo que na realidade não o fossem). Este fenómeno, aliado à democratização da fotografia e à oferta generalizada de câmaras que caracterizam a era da fotografia digital, teve como consequência inevitável a proliferação de entusiastas que, por as suas fotografias se assemelharem no estilo às obras-primas (sejam-no ou não) a que podem aceder livremente graças à internet, se consideram fotógrafos.

Ser fotógrafo, porém, não é nada disso. Ser fotógrafo não é trilhar caminhos seguros e fazer o que outros fazem: é ter uma voz, ter algo de novo a dizer. É mostrar as sensações que se sente diante de um determinado motivo e transmiti-las numa imagem. Por outras palavras, é ser capaz de se exprimir visualmente o que se sente. O resto é fazer fotografias sem sentido: não vale a pena.

Os anglófonos têm a sorte de ter uma língua extremamente sintética e pragmática. Em inglês, distingue-se entre photograph e snapshot. Um sucedâneo que pode ser usado na nossa língua é distinguir entre fazer e tirar fotografias. As primeiras descrevem fotografias feitas com intenção estética, enquanto as outras aludem a fotografias casuais, a fotografias de momentos que cada um considera importantes nas suas vidas ou que simplesmente pretendem ilustrar um lugar, um objecto, uma pessoa ou pessoas que significam algo. Como tal, não têm outra pretensão que não seja documentar algo. O que não tem nada de errado.

Fazer fotografias é outra questão. Nem toda a gente tem a sensibilidade necessária para tanto. A muitos faltam até as noções básicas de composição e enquadramento, embora alguns aleguem que estão a fazer uso da liberdade formal – o que não passa de uma desculpa para justificar o desconhecimento. A outros falta a sensibilidade; e a muitos outros falta a própria noção de interesse fotográfico, confundindo a sensação visual que um objecto lhes causa com o seu interesse. Alguns têm talento, mas perdem-se ao procurar caminhos batidos, imaginando que seguir fórmulas garantidas é o caminho a seguir para ser reconhecido.

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Não é. Fotógrafos como Koudelka não ganharam a sua reputação imitando o que outros fizeram antes deles. Procuraram o seu caminho e uma expressão pessoal, ao invés de seguirem fórmulas de sucesso. Reputação e sucesso raramente andam de mãos dadas: um fotógrafo pode ser imensamente popular e ser visto com desprezo pelos conhecedores, enquanto fotógrafos de quem o público não ouve falar podem ter havidos em extrema consideração. O que é importante é o que o fotógrafo tem a dizer, não a sensação epidérmica que as suas fotografias produzem. As fotografias que Koudelka fez aquando da invasão de Praga são um exemplo disto: nelas não é a sensação visual que perdura: algumas são fotografias de cenários de caos e destruição, mas são belíssimas por aquilo que exprimem. A fotografia do jovem discutindo com soldados invasores, à qual dediquei um texto por considerá-la uma das quinze melhores fotografias de sempre, tem a sua beleza no que exprime: a revolta de um sonho brutalmente interrompido, a impotência dos ideais da juventude perante a força bruta, a impossibilidade de impor a razão à violência das armas. Tudo isto numa imagem feita com mestria, mas na qual prevalece o conteúdo e não a forma.

Eu não me autointitulo “fotógrafo”. Sou demasiado pequeno e irrelevante para fazê-lo. Gostava que, ao menos nisto, pudesse ser exemplo para alguém. Dizer-se que se é fotógrafo implica ser-se medido com os verdadeiros fotógrafos, com gente como Koudelka. Sentir-me-ia pomposo e ridículo se o fizesse.

M. V. M.

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