O progresso e eu (2)

Eu não assumi uma posição radical e militante quando optei por fotografar com uma máquina analógica. Nunca disse que tudo o que era digital era mau e que só o analógico tem qualidades. O que eu não posso é aceitar que todo o progresso trazido pela fotografia digital é benéfico. Antes de mais, trouxe uma democratização que está a redundar no que hoje vemos: se esperamos que os nossos amigos nos mostrem fotografias dos lugares que visitaram nas férias, o mais provável é que fiquemos perplexos com as milhares de fotografias em que vemos as caras deles com os tais lugares que visitaram ao fundo, quase imperceptíveis. Além dos Cartier-Bressons pequeninos que pululam no facebook e de fotografias pessimamente executadas porque o digital criou a ilusão que fotografar é fácil.

Depois há aqueles progressos que, na verdade, não foram criados em benefício da fotografia, mas do volume de vendas. A focagem automática, que versei há pouco, é um bom exemplo: não foi implementada para melhorar a fotografia, mas para tornar as câmaras acessíveis a pessoas que, por falta de destreza, se abstinham de comprá-las por entenderem que a focagem manual não estava ao seu alcance. E há, evidentemente, os progressos completamente inúteis, como as câmaras que fotografam em 360º, as Lytro e muitos outros que apenas servem para explorar novos mercados (embora por regra sem grande sucesso, diga-se).

Devemos acolher tudo isto acriticamente só porque é progresso e este é inexorável? A meu ver, não. Esta minha posição não significa, de maneira nenhuma, que advogue um regresso ao passado – mas entendo que devemos olhar o passado, compará-lo com o presente e decidir quais progressos melhoraram significativamente as nossas vidas. Vivemos melhor por causa dos computadores? Sim, definitivamente. Fotografamos melhor por causa das câmaras digitais? A resposta é um não relutante. Muitos continuam a fotografar bem, e a democratização deu meios de se exprimir a quem não os podia ter, mas o digital pôs câmaras nas mãos de quem não sabe fotografar e banalizou a fotografia, o que não posso considerar bom. (Chamem-me o que quiserem.)

Uma coisa é certa: a fotografia digital veio para ficar. Tudo o que podemos fazer é usá-lo da melhor maneira possível em benefício da arte fotográfica. Ainda falta um pouco para o digital ser perfeito, mas o certo é que nos livrou da tirania da revelação e da limitação do número de fotografias. Contudo, ao fazê-lo, criou o hábito de fotografar sem pensar – o que não é bom nem reverte a favor da qualidade das fotografias. De novo, há que aprender com o passado e compará-lo com o presente para retirar lições que serão úteis para o futuro. Aceitar acriticamente tudo o que é novo, só por sê-lo, é um disparate – mas um disparate que convém a uma indústria cada vez mais insaciável.

Este é um texto que já vai muito longo, mas apenas aflora as questões que levanta. Há muito mais a dizer sobre a minha relação com as tecnologias e o progresso científico, mas não quero ser maçador. Não quero que os leitores fiquem com a impressão de que sou um old fart. Os mais atentos sabem-no porque amiúde lêem aqui sobre inovações e nem sempre as trato com desprezo. Leram aqui sobre progressos verdadeiros como a tecnologia do sensor Foveon, que considero uma das ideias mais brilhantes surgidas na fotografia, e provavelmente os leitores mais antigos já perderam a conta ao número de textos sobre os programas de edição de imagem (a qual é um dos grandes benefícios da fotografia digital, desde que se evitem os excessos).

Há uma coisa, porém, que não vou deixar que os leitores esqueçam: os princípios ópticos da fotografia não nasceram com a fotografia digital. Por mais que as câmaras evoluam, serão sempre aparelhos que registam luz. As regras da exposição não mudaram. A fotografia tem um passado e o domínio digital é tributário dele; não o derroga nem pode apagá-lo. Um dia inventarão um meio de registar imagens sem recurso à captação de luz, mas esse dia parece-me ainda longe. Enquanto não chega, as câmaras continuarão a fotografar de acordo com a relação entre a abertura, o tempo de exposição e a sensibilidade à luz da superfície onde as imagens vão ser gravadas. Isto é comum a ambos os domínios, mas o digital fez com que muitos esquecessem os pilares do conhecimento fotográfico. O que é mau.

M. V. M.

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