O progresso e eu (1)

O Ricardo Porto, leitor fiel do Número f/ e retratista de rua de excelência, comentou o meu texto Precisamos mesmo da focagem automática? (2), acrescentado uma tecnologia recente que, por esquecimento, não incluí nessa entrada: a selecção do ponto de focagem tocando no ecrã da câmara. Devia ter mencionado esta função e tive-a em mente, mas no momento de escrever o texto, a ideia varreu-se da minha mente. O que foi uma pena, porque de facto esta tecnologia evita a perda de tempo que é carregar no botão que permite aceder aos pontos de focagem e deslocar o cursor para seleccionar a parte do enquadramento onde se quer que a câmara foque. Parece-me mais praticável quando se usa o tripé, mas é, como todas as grandes ideias, de uma simplicidade genial.

O que me motivou a escrever este texto não foi a selecção do ponto de focagem via touchscreen, mas a parte do comentário em que o Ricardo Porto assumiu que eu iria reagir à sua achega com a ira de um geronte confrontado com os costumes das novas gerações. Nada disso. A tecnologia touchscreen é de tal maneira prática e funcional que seria estúpido negar a sua utilidade – e muito mais estúpido seria fazê-lo apenas por ser uma tecnologia contemporânea.

Este texto serve para alguns esclarecimentos acerca da maneira como encaro as tecnologias actuais e, de uma forma geral, como vejo o presente e o futuro, em particular no que concerne à fotografia. Alguns poderão pensar que, pelo facto de eu usar uma máquina fotográfica de película e escrever sobre fotografia analógica, sou uma pessoa refractária ao progresso e que vivo no passado, completamente alheio (e avesso) ao desenvolvimento tecnológico (o que me faria «saltar da cadeira» sempre que alguém mencionasse tecnologias novas). Isto não é verdade. Se uso uma máquina fotográfica analógica é porque sinto muito mais prazer em fotografar com ela do que com a minha câmara digital. Poderia pensar de maneira diferente se tivesse uma câmara digital menos limitada, mas pela experiência que tenho esta câmara hipotética teria de ser extremamente sofisticada para que me agradasse – e, mesmo verificado este pressuposto, restaria sempre a questão da falta de envolvimento com o acto fotográfico que sinto quando uso câmaras digitais. De todas as câmaras digitais que experimentei, só uma me satisfez plenamente – e é a Nikon Df, uma das câmaras mais odiadas e ridicularizadas pela comunidade fotográfica.

Não sou – ou recuso-me a pensar em mim mesmo como sendo-o – uma pessoa antiquada ou desactualizada. O que eu tenho é um espírito crítico que me leva a ser extremamente selectivo quanto à bondade e utilidade das novas tecnologias. Muitas destas contribuem para o bem-estar da humanidade, pelo que seria absurdo renegá-las. É com a forma como o desenvolvimento tecnológico é conduzido que me preocupo: muito deste é orientado pela necessidade, real ou aparente, de melhorar a qualidade de vida das pessoas, mas uma parte substancial dele redunda em falsos progressos que em nada contribuem para que as pessoas vivam melhor.

Tomemos o exemplo do computador e da internet: ambos mudaram as nossas vidas. Agora somos dispensados de tarefas que antes nos faziam perder tempo – ir ao banco, às repartições públicas, às conservatórias, aos tribunais, etc. Graças a eles temos o mundo literalmente num ecrã, ao nosso alcance. Como fonte de conhecimento, são instrumentos indispensáveis. Têm inconvenientes? Com certeza. A mudança que estão a operar é de tal ordem que não surpreende que muitos se sintam um pouco perdidos – mas, se os pesarmos os inconvenientes e as vantagens, são estas últimas que ganham. Há coisas, no acesso generalizado ao mundo que a internet faculta, que me chocam: ando pelo facebook e pelas caixas de comentários de alguns websites e surpreendo-me por ver a quantidade incomensurável de pessoas estúpidas que existe neste mundo. Leio coisas que, de tão estúpidas, me fazem sentir como se tivesse vivido numa redoma durante este tempo todo. E é uma pan-estupidez, porque está disseminada por todos os países e todos os lugares, como uma pandemia. Mas mesmo isto não é inteiramente mau: pelo menos faz-me conhecer a espécie humana um pouco melhor. (Continua)

M. V. M.

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