Precisamos mesmo da focagem automática? (2)

A precisão é outro falso argumento a favor da focagem automática. As pessoas das novas gerações deixaram-se convencer, por qualquer motivo, que todas as fotografias feitas antes da invenção da focagem automática eram falhas em nitidez. Isto é mentira, mas é uma daquelas mentiras que, de tão difundidas e não confirmadas, passam por verdades. A focagem manual pode ser muito mais precisa do que a automática e, de resto, é a única alternativa quando esta última falha, seja por não haver luz suficiente ou por o motivo não ter contraste. Acresce, a este propósito, que, mesmo quando seleccionamos com cuidado o ponto de focagem, a câmara pode não focar nele, mas noutro mais à frente ou mais atrás. Este é um problema que não tem solução: todas a câmaras podem eventualmente fazê-lo. Já me aconteceu, aliás, ao fazer uma fotografia com a E-P1 equipada com uma teleobjectiva e com a focagem automática, seleccionar o ponto de focagem e a fotografia sair nítida em todos os planos, menos naquele ao qual sobrepus o quadrado da selecção da focagem. Isto era exactamente o inverso do que queria. Foi frustrante (ou, pelo menos, desconcertante).

Em contrapartida, com a OM-2, que não tem qualquer possibilidade de focar automaticamente, não só raramente falho uma fotografia por estar desfocada como consigo focar exactamente no objecto que quero manter nítido. É certo que a máquina tem um ecrã de focagem que faz com que o mais difícil seja falhar a focagem, mas também é certo que demoro menos a acertar com a focagem do que a seleccionar o ponto de focagem na E-P1 e consigo focar com precisão mesmo que o objecto que quero manter em foco esteja fora do alcance do anel de microprismas do ecrã de focagem. A minha câmara digital não pode, de maneira nenhuma, ser erigida como exemplo dos benefícios da focagem automática, mas as suas falhas são confrangedoras. Quando não há luz suficiente ou o contraste é escasso, é um espectáculo lamentável ver o elemento frontal da lente deslocar-se para trás e para diante e desistir da focagem.

Felizmente nem todas as câmaras focam automaticamente por detecção de contrastes. As boas câmaras focam por detecção de fase, o que limita o número de possíveis falhanços. Mesmo este sistema, porém, também está sujeito a erros e a funcionar deficientemente. Acresce que, apesar de geralmente superior ao sistema de detecção de contraste das compactas e mirrorless, a detecção de fase é menos precisa, o que por vezes compromete a nitidez da imagem. De resto, como o sistema funciona através de dois sensores que têm de ser implementados num sistema óptico complexo, não pode ser implementado nas câmaras de telémetro nem nas compactas ou nas chamadas mirrorless. Nestas últimas têm sido feitas experiências com um sistema de detecção de fase que funciona a partir da leitura da luz no sensor, através da implementação de microlentes diante dos fotodiodos (chamam-lhe in-sensor phase detection autofocus e podem ler aqui como funciona), mas como este sistema implica que os fotodiodos por detrás das microlentes sejam parcialmente bloqueados, apenas recebendo metade da luz, a câmara reverte para a detecção de contraste – que é menos eficiente em circunstâncias de escassez de luz – quando se fotografa com iluminação deficiente. Ou seja, é uma falsa solução que, ao pretender recolher os benefícios da focagem por detecção de fase, priva o sistema de focagem automática daquela que é justamente a maior vantagem da detecção de fase – a capacidade de focar sob luz escassa.

A focagem automática não foi implementada para ser mais rápida ou precisa: ela visou tornar as câmaras acessíveis a pessoas que se sentiam demasiado intimidadas para as comprar por não terem aptidão para focar manualmente. Constitui, apesar de tudo, um benefício, sobretudo se levarmos em linha de conta a característica que a fotografia digital tem de possibilitar a tomada de um número muito considerável de fotografias em cada sessão. Quando se está a cobrir um evento desportivo, um casamento ou a fotografar a vida selvagem (sobretudo quando se recorre ao disparo contínuo), há pouco tempo para focar manualmente; é útil, nestes casos, saber que a câmara vai substituir-se ao fotógrafo na tarefa de determinar a focagem. Simplesmente, os sistemas de focagem não se substituem ao cérebro humano: eles podem, como vimos, focar no local errado, porque a câmara não tem a inteligência necessária para saber onde o fotógrafo quer o máximo de nitidez, e mesmo falhar a focagem de todo. As deficiências dos sistemas de focagem automática são daquelas coisas que não têm solução, tornando-se necessário aprender a viver com elas. Quando a focagem automática falha, é importante saber focar manualmente, o que é porventura um conceito estranho para quem começou a fotografar após a generalização da focagem automática.

M. V. M.

Anúncios

3 thoughts on “Precisamos mesmo da focagem automática? (2)”

  1. Manel, penso que há uma situação intermédia que para mim tem o melhor das duas. Vais saltar da cadeira, mas cá vai :)… Trata-se das câmaras que têm um visor touch e onde o utilizador pode seleccionar com o dedo o ponto de focagem, a seguir recompor e fotografar. Permite escolher manualmente onde queres focar, mas não tens a seguir de focar à mão.
    Eu acho uma abordagem interessante e um PAF (passo à frente) nesta área.
    Ricardo

    1. Olá Ricardo.
      Não, não saltei da cadeira. Pelo contrário: tinha pensado escrever sobre isso nestes dois textos, mas esqueci-me. Varreu-se-me. Seleccionar o ponto de focagem num ecrã touchscreen é uma inovação brilhante. Apesar de nunca ter experimentado nenhuma câmara com touchscreen (a não ser smartphones, o que não conta), é certamente muito mais simples tocar num ecrã do que carregar num botão para seleccionar a função de escolha do ponto de focagem e levar o quadradinho à área da imagem que se quer movendo-o com o cursor. O único inconveniente que estou a ver é ter de se tirar o olho do visor, mas mesmo assim é certamente mais rápido do que carregar em botõezinhos (que também podem obrigar a olhar para o painel traseiro da câmara, se esta não for familiar).
      Aliás, sou um grande adepto da tecnologia touchscreen. Por exemplo, o automóvel que eu compraria se me saísse o Euromilhões é o Tesla Model S, que não tem botões na consola: todas as funções, com excepção dos que são accionadas pelas patilhas atrás do volante, são comandadas através de um ecrã gigantesco que ocupa a quase totalidade da consola central.
      O touchscreen é o que eu chamo um progresso útil.
      M. V. M.

  2. Pelo menos na minha camara (mas acho que é +/- comum) é possível olhar pelo visor enquanto se apalpa, digamos, o écran touch, o que faz aparecer no visor oponto de focagem que se está a seleccionar com o dedo. Não sei se me fiz explicar. Parece-me tambem que o verbo apalpar não é muito usado em explicações de tecnologia touchscreen. :P

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s