Precisamos mesmo da focagem automática? (1)

8312527798Este é um tema que não é muito actual – sê-lo-ia se estivesse a discuti-lo há quarenta anos –, mas parece que foi trazido para o debate de novo, graças a produtos que desafiam o pensamento estabelecido. Podemos pensar que hoje não faz sentido escrever o que se segue, mas vou fazê-lo na mesma.

A questão que proponho é, como se aperceberam pelo título, saber se a focagem automática é verdadeiramente melhor do que a focagem manual; se há vantagens reais em deixar que seja a câmara a determinar a focagem, em lugar de ser o utilizador a fazê-lo. Quando afirmei que este é um tema desactualizado, fi-lo porque hoje em dia é senso comum que a câmara foca sozinha. Todos os aparelhos que registam imagens de grande divulgação focam automaticamente, sejam smartphones ou câmaras. A focagem automática é para muitos algo de adquirido; muitos nem sequer imaginam que é possível focar manualmente.

Contudo, existem produtos que desafiam este senso comum. Há câmaras actuais que só focam manualmente, como as Leica M. E há pelo menos dois fabricantes de lentes de alta qualidade, a Zeiss e a Cosina-Voigtländer, que fabricam lentes de focagem manual para câmaras digitais. Existe também uma miríade de pequenos fabricantes de lentes manuais como a Rokinon, SLR Magic e vários outros, que fazem lentes sem qualquer comunicação electrónica com a câmara, com as quais o utilizador terá de ter a maçada de rodar o anel de focagem.

Será que a focagem automática é inerentemente melhor, ou garante melhores resultados? Não. A focagem automática foi inventada com o único propósito de tornar as câmaras mais práticas. Nem todas as máquinas fotográficas tinham meios que permitissem assegurar uma focagem nítida, pelo que o número de erros de focagem nas fotografias que a maioria das pessoas tirava era considerável. Isto era o suficiente para que um vasto público se mantivesse afastado da fotografia, porque o uso de técnicas como a focagem à zona era só para quem tinha muita experiência e um conhecimento razoavelmente aprofundado da fotografia. A focagem manual, desde que a câmara tivesse um bom telémetro ou um bom ecrã de focagem, garantia que as fotografias ficariam com toda a nitidez necessária, mas estas não eram câmaras para toda a gente. Daí, também, que se fizessem câmaras sem qualquer dispositivo de focagem, sendo as lentes focadas para o infinito (o que, na prática, significava que as fotografias tinham de ser tiradas a cerca de três metros do motivo, o que não era ideal).

A focagem automática resolveu muitos destes problemas. Com ela a focagem – e os problemas de nitidez a ela inerentes – deixou de ser uma preocupação. As pessoas podiam agora comprar câmaras com a segurança de que não falhariam fotografias por estas terem ficado desfocadas. Embora as coisas não se passem exactamente assim – a focagem automática pode falhar clamorosamente quando a luz é escassa ou o contraste é reduzido –, muitos entendem que a focagem automática é uma garantia de maior rapidez e precisão.

É um engano. A focagem automática não é – ou nem sempre é – mais rápida que a manual. Pelo menos se quisermos fazer as coisas como deve ser. Bem vêem, para focar correctamente quando a profundidade de campo é estreita (o que acontece sempre que se usam teleobjectivas ou se está perto do motivo) é necessário seleccionar um ponto de focagem. As câmaras, por defeito, focam num ponto no meio do enquadramento; para evitar que a câmara foque numa área que não é a que queremos manter em foco, é necessário seleccionar o ponto de focagem. O que tem dois inconvenientes: o primeiro é que esta é uma operação fastidiosa, normalmente implicando carregar num botão e usar o cursor para mover a selecção para o ponto desejado. Rodar um anel de focagem pode ser bem mais simples e rápido. O outro inconveniente é que estes pontos estão concentrados no centro do enquadramento, não abrangendo áreas próximas dos cantos. E por vezes há necessidade de focar em áreas longe do centro da imagem.

Claro que focar manualmente é difícil, a menos que a câmara tenha um ecrã de focagem, mas pela minha experiência é possível obter a nitidez necessária mesmo em áreas do enquadramento que não são cobertas pelo anel de microprismas. Deste modo, a rapidez é um falso argumento. (Continua)

M. V. M.

Anúncios

2 thoughts on “Precisamos mesmo da focagem automática? (1)”

  1. Em trabalhos de reportagem em q produzem umas 2000 fotos por dia, com aberturas entre os f/1.2 e f/2 a focagem manual não vejo como opção viável…
    Curiosamente e em contraponto, vejo quem utiliza DSRL para filmar com o mesmo intervalo de aberturas, que durante um dia inteiro, faz focagem manual em 90GB de vídeo…
    Em resumo, com o mesmo equipamento vejo dois cenários, em q a focagem em fotografia é mais rápida com sistema de focagem automático, e em outro (do vídeo) em que não é opção viável.
    Como nestes cenários, haverá outros em que se compreende e justifica, a necessidade ou não do sistema de focagem automático…!

  2. Excelente artigo sobre a antiga e, muitas vezes “saudosa” técnica da focagem manual, prática que, realmente com o passar do tempo, tende a ser esquecida. A prática da focagem manual é, no meu modesto entender, uma forma de compreender verdadeiramente a aplicação de algumas técnicas usadas na arte fotográfica, nomeadamente a Profundidade de Campo e a focagem em altas ou baixas luzes, por exemplo. Parabéns pelo seu artigo e pelo Númerof/ em geral!! Serei um seguidor digno de lhe enviar grandes saudações fotográficas!!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s