Corrigindo a geometria na edição de imagem

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Por vezes gosto de procurar a geometria absoluta, o que é inacreditavelmente difícil em fotografia. Quando olhamos para um objecto, só vemos as linhas paralelas ou perpendiculares na sua dimensão correcta se estivermos num ponto muito preciso. Imaginemos uma casa: para que as linhas verticais e horizontais fiquem direitas, é necessário que o ponto de vista se situe a meio da fachada – e, mesmo que isto seja possível, existirá sempre a dimensão de profundidade, que faz convergir as linhas para o centro da imagem. Se não fosse assim, nunca teríamos a percepção de tridimensionalidade do objecto numa imagem.

É necessário ter em conta que o nosso cérebro tem o hábito de nos enganar quando vemos certas linhas. Estas podem parecer-nos direitas quando o nosso ponto de vista está ligeiramente acima ou abaixo do meio do objecto e, confiando nesta percepção, fotografamo-las convencidos que as linhas estão realmente direitas. Depois temos uma desilusão enorme quando vemos as fotografias porque, ao contrário do nosso cérebro, a lente não compensa os desvios de perspectiva: se o ponto de vista é baixo, as linhas verticais convergem para o alto; se o ponto de vista estiver à esquerda do centro do objecto, as linhas horizontais vão convergir para a direita.

A perspectiva correcta, com as linhas horizontais e verticais perfeitamente paralelas e perpendiculares, pode ser obtida desde que se tenha bom olho para a geometria, o ponto de vista coincida com o meio do objecto e, preferencialmente, se use um tripé. Contudo, mesmo com todos estes cuidados é difícil obter uma geometria perfeita. Especialmente se usarmos lentes grande-angulares, como é quase obrigatório quando se fotografam interiores. Por vezes, mais vale desistir da pretensão de simetria, como fez Ralph Gibson com a célebre fotografia da mão alcançando a maçaneta de uma porta, na qual jogou deliberadamente com a distorção geométrica da porta. Ou então deixar que as linhas ascendentes contribuam para a sensação de altura. O que também pode ser usado com fins expressivos. O que não gosto, definitivamente, é de linhas convergindo para baixo, que inevitavelmente se produzem quando o ponto de vista é alto.

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Por Ralph Gibson

Pode dar-se, porém, que não renunciemos a essa geometria em que as linhas surgem perfeitamente direitas. Na improbabilidade de usar lentes de controlo de perspectiva (tilt-and-shift), que são absurdamente caras e só se justificam para fins profissionais. E sendo impossível obter uma geometria perfeita por o objecto ser demasiado alto ou ser difícil, por qualquer motivo, encontrar um ponto de vista favorável, só resta usar a edição de imagem.

Importa dizer que o nível, a perspectiva horizontal e a vertical são interdependentes: uma fotografia desnivelada nunca poderá ser ajustada na vertical e na horizontal. Por mais trabalho que se tenha, nunca vai ficar bem. O mesmo se uma das outras perspectivas estiver incorrecta. Todas têm de ser corrigidas para obter uma geometria absoluta. Daí que seja mais fácil acertar com a perspectiva antes de carregar no botão do obturador: a correcção na edição de imagem pode ser extremamente fastidiosa. Contudo, como existe a ilusão a que aludi acima, com o cérebro a assumir como paralelas ou perpendiculares linhas que não o são, muitas vezes o recurso à edição para corrigir a perspectiva é inevitável.

As ferramentas de correcção da perspectiva são razoavelmente eficazes, quando não excelentes. O Lightroom e o Photoshop CS corrigem o nível, a perspectiva horizontal e a vertical e fazem um trabalho aceitável. O DxO Optics, porém, leva as coisas um pouco mais longe e, além destas correcções da perspectiva, corrige as próprias distorções típicas da lente, como a distorção anamórfica das grande-angulares.

Há um preço a pagar por estas correcções, uma vez que a imagem vai ficar mais pequena. E, se não tivermos cuidado, o trabalho de correcção da perspectiva vai notar-se nas margens. O Lightroom tem a característica irritante de apresentar as imagens cortadas de maneira a notar-se que foram corrigidas, com triângulos brancos a ladear a imagem, tendo de ser o utilizador a fazer o corte da imagem. Além disto, ambos os programas da Adobe esticam as imagens, não fazendo um verdadeiro controlo das dimensões. Neste aspecto não existe nada que se compare às ferramentas de correcção da perspectiva da DxO (é uma pena que este programa, por qualquer motivo que desconheço por completo, não reconheça imagens digitalizadas a preto-e-branco): além de, tal como o Photoshop CS, fazer o corte automaticamente, o DxO corrige as dimensões. As imagens não ficam comprimidas nem esticadas.

Isto pode parecer publicidade descarada, mas não é. Estas são as conclusões que retirei do uso de cada um dos programas. Apesar de o Lightroom e o CS apresentarem resultados decentes, o utilizador destes programas pode instalar, como plug-in, o DxO Viewpoint. Ou, em alternativa, o PT Lens, que é um plug-in barato que faz o seu trabalho com bastante competência, embora não seja tão completo.

M. V. M.

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