Uma imagem: sequência

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Há coisas mais importantes que a fotografia. Penso que toda a gente está de acordo com esta afirmação. Contudo, se me disserem que o meu blogue é sobre fotografia e devia cingir-me a esta temática, eventualmente reservando as minhas opiniões sobre outros assuntos para um blogue diferente, poderei sentir-me tentado a dar-lhes razão.

Simplesmente, os meus textos dos últimos dois dias foram suscitados por uma imagem. Mesmo se os classifiquei na categoria Fora do Tema, foi uma fotografia que os motivou. Ora, imagens como esta são muito poderosas e podem levar a que se discorra horas a fio sem conseguir exprimir todas as ideias por ela suscitadas. A imagem do menino turco contém em si todo o horror daquilo que nós, na Europa, vemos como uma «crise dos refugiados» (por vezes sem pensarmos nos fenómenos causais que levam as pessoas a pedir refúgio). Não é assim descabido de todo discorrer sobre esta imagem num blogue de fotografia.

Até aqui versei coisas como o racismo (desculpem a crueza, mas certos comportamentos vão muito mais longe que a xenofobia, que é a mera aversão ao estrangeiro), mas também sobre as atitudes, a meu ver positivas, que foram tomadas pelos povos da Europa, e também por dirigentes como Angela Merkel e Donald Tusk; contudo, em relação à Chanceler alemã, o meu lado cínico leva-me a duvidar da sua bondade. Não seria a primeira vez que a Alemanha transformaria um conjunto particular de circunstâncias históricas a favor do seu poderio: a queda do Muro de Berlim em 1989, mesmo se a manutenção do statu quo ante não tinha nada de desejável, foi apresentada como a reunificação por que ambos os povos sonhavam, mas resultou sobretudo na conquista de território e de mão-de-obra barata pelas empresas da então República Federal da Alemanha. Que motivos tenho eu para duvidar que agora a Alemanha pretende, com a sua aparente generosidade, oferecer mais mão-de-obra livre de encargos sociais às suas empresas?

De resto, parece-me haver muito de hipocrisia e reserva mental nas atitudes de alguns países. Excluamos o caso da Hungria, que é neste momento governada por crápulas da pior espécie dos quais só se pode esperar o pior, e pensemos apenas nos países cuja posição perante a crise é, na aparência, favorável à integração dos refugiados. Muitos deles tomam atitudes que tresandam a hipocrisia. Em Portugal diz-se qualquer coisa como «sim senhor, venham eles, mas primeiro queremos saber o que o resto da Europa vai fazer» – querendo o nosso Primeiro-Ministro dizer com isto que não tomará qualquer atitude perante a crise dos refugiados, do mesmo passo que parece instigar aquilo que muitos denunciam como sendo mera caridade. No Reino Unido, o mesmo Cameron que insiste em despender milhões no policiamento das fronteiras e em barreiras de arame farpado afirma que aceitará acolher um punhado de imigrantes (mas é importante dizer que o reino Unido tem uma política extremamente liberal para com refugiados, o que poderá vir a ser alterado com esta maioria absoluta dos Tories). Hollande, com todos os problemas que a França tem por ter amontoado os seus refugiados em ghettos, não deve querer sequer ouvir falar de mais refugiados, mas conformar-se-á em receber uns poucos.

Concluo que ninguém quer verdadeiramente estes refugiados, a não ser os particulares que se prontificaram a acolhê-los. Que até não serão todos, porque muitos associarão a sua proveniência com o Islamismo e este, por encadeamento de preconceitos, com o terrorismo. Aliás, não me parece inocente a pseudonotícia que li ontem segundo a qual o Estado Islâmico está a infiltrar agentes entre os refugiados que chegam à Europa. Parece que, por cada pessoa boa e generosa, há outra mal intencionada e mesquinha.

Quanto aos governantes, fico com a sensação que se sentem como se caminhassem numa corda-bamba, não querendo desagradar aos preconceituosos (que são uma multidão enorme, como se prova pelas votações obtidas por partidos como a Frente Nacional francesa) nem parecer desumanos aos olhos das pessoas de bem, o que os leva à assunção de posições ambíguas. Estes exercícios de funambulismo a que se entregam são meramente calculistas: os dirigentes não querem que a questão dos refugiados os faça perder votos ou popularidade. Perante esta evidência, não me surpreende que a voz mais sincera e entusiástica que se ouve seja a do Presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk. Simplesmente, parece-me que existe uma assintonia entre as palavras de Tusk e a vontade real dos membros do Conselho Europeu.

O que não é novidade nenhuma: há muitos anos que a Europa não se entende nem funciona como uma união. Em lugar de zelarem pelo interesse comum, os Estados-Membros olham cada vez mais pelos seus próprios interesses, fazendo letra morta das obrigações a que se vincularam por via dos tratados europeus. Isto está a manifestar-se de modo particularmente doloroso com este problema dos refugiados. A atitude de muitos países europeus é a mesma que teriam se fossem chamados a resolver um problema de resíduos radioactivos: ninguém os quer no seu território, mas sabem que alguém vai ter de ficar com eles. O problema é que os refugiados são pessoas, não são resíduos.

M. V. M.

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