Adenda a uma imagem

51c8tb45dpmvu913mwycf7o79

Recebi hoje um comentário do leitor Brito ao texto Uma Imagem, que publiquei aqui ontem e teve por tema a crise dos refugiados; nesse comentário, o leitor interroga-se sobre o facto de a Europa estar a ser «condenada» enquanto os países árabes não acolhem refugiados. Respondi ao comentário, embora já na altura me tivesse apercebido que o argumento – o qual, devo dizer desde já, me parece extremamente falacioso – é mais uma daquelas demonstrações de esperteza saloia «viral» de que os frequentadores assíduos do facebook tanto gostam. Apesar de este texto de hoje ser maioritariamente uma reprodução da resposta a esse comentário do leitor, parece-me que os argumentos que empreguei carecem de um pouco mais de desenvolvimento, justificando um texto próprio.

Antes de tudo, não concordo quando se diz que o mundo parece empenhado em condenar a Europa. Não é a Europa que está a ser «condenada», mas apenas uma parte dela. Na verdade, a Europa está a ser uma vítima desta crise. Especialmente os países de mais fácil acesso aos refugiados, que são, neste momento, a Grécia e a Itália. A Europa está a ser confrontada com um problema interno extremamente grave, que urge resolver antes que assuma consequências imprevisíveis: a distribuição dos refugiados. Estes estão maioritariamente na Grécia e na Itália, causando problemas muito sérios de sobrelotação das instalações e meios afectos ao acolhimento dos refugiados e agravando a situação económica desses dois países, que já de si é grave – especialmente a da Grécia. Na UE existe um dever geral de solidariedade, entre os Estados-Membros e entre as instituições europeias e estes, pelo que se impõe ajudar esses países a superar esta crise. Isto só pode ser feito distribuindo os refugiados pelos diversos Estados-Membros. É uma medida pragmática, mas também é devida pelo respeito que cada ser humano deve merecer.

O que se ouve não é uma condenação da Europa: é, outrossim, uma crítica a que existam na Europa certos comportamentos restritivos ou impeditivos da passagem ou fixação dos refugiados. Uma parte da Europa – a que essa figura tenebrosa chamada Donald Rumsfeld chamou a nova Europa, por contraposição à «Velha Europa» que se opôs à invasão do Iraque – invadiu ou contribuiu para invadir países árabes e africanos, ou ingeriu política e militarmente neles; refiro-me à invasão do Iraque, mas também ao fomento que foi dado às «revoluções do facebook» que tiveram lugar na Tunísia, na Líbia, na Síria e no Egipto, sempre com resultados sangrentos e desencadeando uma reacção das forças obscurantistas que se agregaram na Irmandade Muçulmana e, de forma mais extrema, no Estado Islâmico. Assim, essa nova Europa, que inclui o Reino Unido e a Hungria, contribuiu para criar as situações que levam os refugiados a abandonar os seus países. Parece-me, deste modo, cínico e imoral que países europeus recusem auxílio e levantem barreiras à entrada dos refugiados. Os países envolvidos nessa invasão e no fomento da violência subversiva não fazem mais que a sua obrigação moral quando auxiliam os refugiados.

Mas há quem contraponha a isto o facto de os países árabes não acolherem refugiados. Isto, além de ser uma falsidade – os países árabes vizinhos da Síria, como a Jordânia, alojam milhões de refugiados – é uma estultícia: os refugiados querem fugir de tudo o que é fanatismo islâmico, pelo que é ridículo sugerir que deveriam meter-se na boca do lobo. A Europa não tem de olhar para o que outros países árabes fazem ou deixam de fazer. Alguma razão haverá para que certos países não sejam procurados pelos refugiados, e essa razão não deve andar muito longe do que referi mais acima: nenhum refugiado sírio pode sentir-se seguro num país como a Arábia Saudita – o Estado Islâmico tem inspiração wahabita, tal como a estirpe que domina aquele país –, nem nos outros países árabes a que só se referem por causa do seu elevado rendimento per capita.

De resto, o que se pretende com esse argumento de que os países árabes não recolhem refugiados? Que a Europa reenvie os refugiados para a Arábia Saudita, o Kuwait, o Qatar e os Emirados Arábes Unidos? Ou que, quando os refugiados chegarem à Macedónia, à Hungria e a Calais, devem dizer-lhes para se dirigirem para esses países? Convenhamos que seria absurdo. Esse argumento é o quê, ao certo? Uma forma de legitimar os comportamentos da Hungria, do Reino Unido, da França e da Áustria? A aplicação prática do princípio Not In My Backyard, que é como quem diz fingir que não é nada connosco e endossar o problema para outrem?

David Cameron, Primeiro-Ministro do Reino Unido, referiu-se aos refugiados como uma praga. Embora o verbo to plague seja usado em acepções que pouco têm que ver com pragas, o certo é que os refugiados não são insectos, mas sim pessoas. Devemos dizer que este não é um problema nosso e que são os países árabes que devem resolvê-lo? Meus caros leitores, afirmações como esta que o Brito transmitiu no seu comentário nascem de um sentimento bárbaro que tem um nome: chama-se RACISMO. É um raciocínio primário, estulto e desumano: os refugiados são árabes, logo os árabes que se ocupem deles. Isto assemelha-se perigosamente à reacção de alguns perante o crescimento das comunidades africanas em Portugal, que consiste no uso pródigo da expressão «eles que vão para a terra deles». Isto não é mais que racismo. Felizmente, as pessoas que se propuseram acolher os refugiados, em Portugal como em muitos outros países europeus, não pensam assim. Aquela gente chega-nos fugida do terror do Estado Islâmico, da fome e dos conflitos regionais que afectam o Médio Oriente e algumas regiões de África. Ajudá-las é um princípio básico de humanidade, mas também um dever estatuído pelos tratados e convenções internacionais – entre os quais a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia.

M. V. M.

Anúncios

5 thoughts on “Adenda a uma imagem”

  1. Talvez erro meu, na forma como utilizei o termo “condenar”, o sentido era apenas o de entendo q o esforço de acolher os refugiados, deve ser de forma equitativa, quer pelo países europeus, quer por outros países do médio oriente…!
    Não nutro qualquer sentimento de xenofobia, ou entenda q devam ser repatriados, não vejo também que essas interpretações estejam implícitas no q escrevi!
    Saudações

    1. Nem foi assim que entendi. Apenas me parece uma questão lateral que não ajuda a resolver o problema. Este é um problema da Europa e é à Europa que compete resolvê-lo. Há-de haver alguma razão para que os refugiados procurem a Europa e não outros países árabes. Leu a parte do “meterem-se na boca do lobo”?
      Cumprimentos,
      M. V. M.

  2. A “questão lateral”, parece-me ser a da análise das consequências, neste caso, a dos “refugiados”,
    deixando de fora o origem do problema “sírio” e, da forma como se têm intervido no médio oriente…
    Naturalmente, pela visão q nos é imposta pelos “media ocidentais”, na forma de dogmas, ás opções tomadas pelos EUA e seus “alinhados”.
    Pois criar uma análise, tendo apenas em conta a “espuma dos dias”, poderá levar á uma abordagem redutora do problema.
    É comum na “historia”, a necessidade de ver os factos á distancia para que se tornem conhecidos outros outros elementos e, podendo dai formular uma opinião isenta. Razão pela qual, me abstenho de partilhar mais considerações.
    Cps,

  3. Têm toda a razão, pois não fundamentei esse comentário e, estou-me a “abster” de publicar a visão que tenho sobre esse assunto, no contexto geopolítico, a par da sua a evolução exponencial dos últimos anos…!
    De resto, comungo com muito do que referiu, mas base também em muito do que tenho lido nos “média orientais”, tenho reequacionado com base numa perspetiva diferente, formulando um opinião que evito publicar…!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s