Uma imagem

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Quando se avança na idade, pensa-se frequentemente que já se viu tudo e nada é capaz de impressionar. Sim, há uma dose de cinismo que cresce na exacta proporção em que se envelhece. O cinismo, evidentemente, nunca é bom, mas estar pronto para reagir racionalmente a um sem número de situações é.

Simplesmente, nem toda esta distância emocional que se cria com a idade é suficiente para nos pôr ao abrigo das emoções. Ontem, as televisões pareceram imensamente compenetradas do dever pesaroso de mostrar imagens a que só alguém de uma frieza repugnante poderia ficar indiferente. Refiro-me à criança síria de três anos cujo corpo deu à costa numa praia turca. Devíamos ter sido poupados a ver aquela alegoria do horror: a quem tem ainda que seja apenas um fundo de humanidade, aquelas imagens foram supérfluas e a sua exibição de mau gosto; aos empedernidos e aos indiferentes, não os farão mudar.

A Europa está hoje a debater-se com o seu problema mais grave desde a II Guerra Mundial. E nem sempre está a agir de acordo com o estatuto que deveria ter no mundo. A Europa nunca foi um baluarte da civilidade – se analisarmos bem as coisas, quase todos os crimes da humanidade tiveram origem nela –, mas o acervo de valores de que justamente se pode orgulhar está a ser comprometido. Nesta Europa unida existe ainda demasiado ódio, demasiada rejeição, demasiada inaceitação de quem não é como nós ou não pensa como nós nem comunga connosco os hábitos e as crenças. Alguns mantêm a convicção da sua superioridade, nascida da contingência dessa contingência que é a cor da pele. Sobretudo, há uma não aceitação da responsabilidade que me ofende. Durante séculos, explorámos aqueles povos em nome da superioridade da fé; mais tarde, dividimo-los, separámo-los por fronteiras artificiais e controlámos os seus destinos – primeiro directamente, depois através de títeres a nosso mando e das companhias multinacionais conluiadas com os poderes do ocidente. Instigámos a guerra, o ódio, a separação dos povos; agora, quando esses mesmos povos se voltam para nós pedindo que os protejamos dos horrores que ajudamos a criar e da miséria que fomentámos, alguns europeus reagem com violência, mostrando que a barbárie pode ter sido postergada mas não morreu. Neonazis manifestam-se; um escroque chamado Viktor Orban não tem problemas em afirmar que os refugiados atacam os «valores cristãos da Europa»; David Cameron e François Hollande, o palhaço que os franceses escolheram para presidente da pátria do Estado de Direito, estudam diariamente maneiras de reprimir os que se limitam a pedir que os deixem viver uma vida condigna.

No meio de tudo há atitudes que me surpreendem e comovem. Os povos da Europa propõem-se acolher os refugiados de braços abertos; Angela Merkel, essa mesma que aprendemos a odiar, tornou-se a campeã, nesta Europa, do acolhimento dos refugiados; e o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, homem formado no neoliberalismo puro e duro dos Estados Unidos, manifesta publicamente o seu repúdio pelas palavras do escroque húngaro.

A Europa está dividida; não sabe o que fazer. Podia olhar para os Estados Unidos da primeira metade do Século XX e a maneira como lá foram acolhidos os imigrantes italianos, irlandeses ou polacos e os refugiados políticos da Europa, e como foi dada a todos estes a oportunidade de contribuir para o crescimento de uma superpotência. Em lugar de aprender com este exemplo, alguns continuam arreigados a ideias medievas de superioridade racial e religiosa. Angela Merkel e Donald Tusk, felizmente, viram que esta tragédia pode, apesar de tudo, resultar num benefício para a Europa.

Nem todos os refugiados verdadeiramente o são: alguns não vêm fugidos de perseguições políticas ou religiosas nem fogem de guerras. Mas devemos, mesmo assim, recusar-lhes a oportunidade de uma vida melhor? Muitos dos nossos, acossados pelo desemprego, vêem estes refugiados como uma ameaça: vão reduzir-lhes ainda mais a possibilidade de encontrar trabalho e exaurir os fundos da segurança social que lhes permitem sobreviver. Estas ideias são falsas, mas são o palheiro que o fósforo do populismo procura para deixar de novo a Europa em chamas.

É isto que queremos para a Europa?

M. V. M.

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2 thoughts on “Uma imagem”

  1. Ococrre-me o seguinte:
    “Número de refugiados recebidos pela Arábia Saudita, Kuwait, Qatar e Emirados Arábes Unidos: 0”
    Quando o mundo parece empenhado em condenar a Europa pela catástrofe com que foi confrontada, onde está a solidariedade entre irmãos muçulmanos?
    O dever e obrigação moral recai apenas e só sobre a Europa?

  2. Caro Brito, não me parece que o mundo esteja empenhado em condenar a Europa. Nem faria sentido fazê-lo, porque a Europa é um sujeito passivo nesta crise – no sentido em que é ela que está a ser demandada pelos refugiados.
    O que é criticável é que existam na Europa certos comportamentos restritivos ou impeditivos da passagem ou fixação dos refugiados. Quando parte da Europa contribuiu para invadir ou ingerir política e militarmente em países árabes e africanos, criando as situações que levam os refugiados a abandonar os seus países, parece-me cínico e imoral recusar auxílio. Não podemos ignorar que a invasão do Iraque, na qual muitos países europeus estiveram envolvidos, foi a principal causadora do surgimento de movimentos como o Estado Islâmico. Os países envolvidos nessa invasão não fazem mais que o seu dever quando auxiliam os refugiados. “Quem faz a m**** limpa-a”, como se diz em vernáculo.
    A Europa não tem de olhar para o que outros países árabes fazem ou deixam de fazer. Alguma razão haverá para que esses países não sejam procurados pelos refugiados. Pretende-se, com esse argumento, que a Europa reenvie os refugiados para a Arábia Saudita, o Kuwait, o Qatar e os Emirados Arábes Unidos? Ou, quando eles chegarem à Macedónia e à Hungria, devem dizer-lhes para se dirigirem para esses países? Convenhamos que seria absurdo.
    Acima de tudo, a Europa tem um problema interno muito grave, que é a distribuição dos refugiados. Estes estão maioritariamente na Grécia e na Itália, causando problemas muito sérios de sobrelotação das instalações e meios afectos ao acolhimento dos refugiados e agravando uma situação económica que já de si é grave. Na UE existe um dever geral de solidariedade, pelo que se impõe ajudar esses países a superar esta crise.
    De resto, esse argumento – o Brito não é a primeira pessoa a usá-lo – é o quê, ao certo? Uma forma de legitimar os comportamentos da Hungria, do Reino Unido, da França e da Áustria? A aplicação prática do princípio “Not In My Backyard”, que é como quem diz fingir que não é nada connosco?
    Não estamos a falar de gado, nem de insectos, mas sim de pessoas. Devemos dizer que este não é um problema nosso? Felizmente, as pessoas que se propuseram acolher os refugiados, em Portugal como em muitos outros países europeus, não pensam assim. Aquela gente chega-nos fugida do terror do Estado Islâmico, da fome e dos conflitos regionais que afectam o Médio Oriente e algumas regiões de África. Ajudá-las é um princípio básico de humanidade, mas também um dever estatuído pelos tratados e convenções internacionais – entre os quais a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia.
    M. V. M.

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