Quase lá

As minhas patéticas tentativas de fazer retratos podem finalmente estar a produzir alguns efeitos positivos. Como os leitores mais fiéis sabem, o M. V. M. tem um historial de fracassos retratísticos quase tão extenso como a lista dos devedores da Autoridade Tributária e Aduaneira, mas desta vez parece que fiquei mais perto de fazer um retrato minimamente apresentável.

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O retratado pode não ser especialmente interessante: é um dos saltadores da Ponte Luiz I, sem nada de particularmente distinto ou cativante. Contudo, para além de um porte razoavelmente atlético, como convém às proezas estivais que pratica, tem uma característica que me determinou a retratá-lo: é um gajo porreiro. Foi fácil estabelecer com ele a empatia necessária à feitura de um retrato. Claro que preferia que fosse um retrato de uma chavala bonita, mas por qualquer motivo não tenho visto raparigas a saltar da Ponte. Há meses fiz um retrato de uma delas, mas não correu assim tão bem (resta-me a consolação de tê-la retratado antes da reportagem que o Público apresentou na edição de 23 de Agosto, em que ela é uma das retratadas, mas não é possível comparar a qualidade de ambos os retratos).

O retrato que mostro, posto que bastante melhor que o da jovem Marisa Sousa, ainda não me satisfaz por completo. Não só a pessoa retratada é do género errado (digo-o a brincar, mas o facto é que os rostos femininos são mais agradáveis de retratar) como não há muita informação no plano de fundo. Como o retrato foi feito com a teleobjectiva de 135 milímetros, a profundidade de campo é muito estreita. Pode agradar aos fanáticos do bokeh, mas eu teria preferido que o retrato situasse melhor a pessoa nas circunstâncias em que foi feito, estabelecendo uma identificação com os saltos. Contudo, penso que a iluminação, que costuma ser o meu maior problema, não está muito má – preferia que a sombra projectada pela cabeça fosse menor, mas pelo menos o rosto não está obscurecido – e, quanto ao resto, é um retrato perfeitamente convencional: os olhos estão exactamente na linha superior da grelha dos dois terços e está na orientação típica dos retratos, i. e. na vertical. O que não é tão bom como se poderia pensar. (Já agora, o que se vê no topo não é o escurecimento dos cantos a que se chama vinhetagem: é o arco da Ponte Luiz I.)

Apesar de tudo, este retrato parece-me encorajador. Não me qualifica como o sucessor de Herbert List, mas afinal pode não ser assim tão evidente que deva desistir de todo de fazer retratos, como os meus fracassos anteriores quase me levaram a fazer. Talvez valha a pena insistir.

Vou, deste modo, apelar aos leitores que respondam a esta questão simples: deve o M. V. M. desistir dos retratos e deixá-los para quem sabe? Ou deve, animado pelo resultado que se mostra, persistir neste género de fotografia? As respostas – todas elas, independentemente do seu sentido – são muito bem-vindas.

M. V. M.

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3 thoughts on “Quase lá”

  1. Sei que a resposta à sua pergunta chega com um ano e tal de atraso, mas gosto do retrato e acho que deveria persistir nessa área tão difícil que é a fotografia de rostos. Não sei se continuou, ou não, porque descobri o seu blogue há pouco tempo e apenas tenho seguido os posts mais recentes. De qualquer modo, tem em mim um leitor fiel das suas tão interessantes reflexões fotográficas.
    Sobre o tema dos miúdos da Ribeira, veja, por favor, o salto da Tatiana, uma miúda que em 2010 tinha onze anitos.

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