Por que se vendem menos câmaras?

DSLR-vs-Mirrorless-Sales
Anda na internet um debate curioso acerca das razões que levam ao declínio das vendas de câmaras fotográficas. Esta discussão, contudo, parte frequentemente de pressupostos errados por se centrar em questões que não são as mais importantes. Muitos insistem em que o problema é o de as câmaras não proporcionarem prazer aos potenciais compradores, parecendo tomarem por implícito que o prazer de fotografar depende da câmara. O que, mesmo pelos critérios dos tarados do equipamento, é um absurdo.

Alguns defendem que as câmaras são demasiado complicadas, mas quanto a mim não estão a pôr a questão em termos correctos. Não conheço nenhuma câmara fabricada nos últimos dez anos que não tenha um modo de exposição completamente automático. Além de que fazer uma câmara simples, que baste enquadrar o motivo e premir o botão do disparo, implicaria a concepção de um processador que adivinhasse os gostos e preferências do utilizador, o que só poderia existir nos sonhos de Arthur C. Clarke e Isaac Asimov. Ou seja, a tal câmara simples seria, na verdade, um paradoxo de complexidade que seria vendida por preços absurdos.

Claro que as vendas de câmaras estão a diminuir, mas não é por as câmaras serem demasiado complicadas. O problema é completamente outro. Hoje em dia as pessoas tiram fotos em tamanhos pequenos para partilhar imediatamente no facebook ou no Instagram. Os smartphones fazem isto, as câmaras não. A «qualidade de imagem», que os fabricantes apregoam como o principal atributo das câmaras, não é uma prioridade para as multidões. Os fotógrafos profissionais e amadores, para quem a qualidade de imagem é fundamental, são uma minoria que está a tornar-se cada vez mais irrelevante à custa da busca incessante de resultados instantâneos. A câmara não assegura estes últimos, nem de resto é prática: para a maioria, é mais um objecto a transportar. Mais peso no bolso ou no saco (quando não requer um saco próprio). As multidões simplesmente não precisam de câmaras fotográficas: os smartphones substituem-nas com vantagem. As questões relativas à qualidade de imagem, como o ruído, o arrastamento, as aberrações cromáticas, etc., não são importantes quando se visualizam imagens no ecrã de um smartphone.

Em poucas palavras, a maioria das pessoas está-se nas tintas para os padrões de qualidade da imagem que as câmaras fotográficas asseguram. Apesar de tudo, isto não é tão mau quanto parece: significa que as pessoas vão directas ao cerne da questão quando vêem uma foto, em vez de se preocuparem com questões como a «qualidade de imagem». Elas só se preocupam com a mensagem incorporada na fotografia. O problema é que a mensagem é geralmente frívola, quando não é simplesmente idiota. (Sim, estou a referir-me às selfies.)
Há, evidentemente, um lado assustador em que a maioria das pessoas não pensa ou não quer pensar: tudo o que publicam nas redes sociais como o facebook torna-se destas últimas. Estamos constantemente a ampliar a sua base de dados e a ajudá-las a obter lucros fabulosos em troca de nada – ou melhor, em troca de uma ilusão de socialização que, na verdade, desvia as pessoas dos relacionamentos reais e da vida real. Apenas uma minoria usa as redes sociais tendo isto em mente. Estamos a dar as nossas fotografias – uma vez «partilhadas», elas passam a pertencer a todos, não é? – e a contribuir generosamente para a causa nobre de ajudar Mr. Zuckerberg a tornar-se no homem mais rico do planeta. Quanto aos efeitos disto sobre a fotografia, é muito simples: ela está a desaparecer enquanto forma de arte, soterrada sob os biliões de fotografias completamente parvas que as pessoas «partilham» sem nexo todos os dias. Pior ainda, as pessoas tomam por «arte» que nada mais é que pastiches grotescos. Isto tem um efeito desastroso sobre a fotografia. Todos pensam que podem fazer arte a partir de uma bosta se usarem o HDR.

As respostas da indústria fotográfica a estas evidências têm sido, no mínimo, patéticas. Os fabricantes fazem câmaras que tentam emular as funcionalidades do iPhone, completamente alheios ao facto de que as pessoas não precisam da qualidade acrescida e que ter essa câmara e um iPhone é, para elas, uma duplicação desnecessária que vai ser resolvida em detrimento da câmara. Os fabricantes foram simplesmente demasiado longe: venderam milhões de câmaras quando toda a gente precisava delas e as suas empresas tornaram-se gigantescas; agora que a realidade mudou, há um rude awakening doloroso que vão ter de atravessar, sob pena de desaparecerem. Continuará sempre a haver procura de câmaras, mas por uma clientela mais restrita. Não adianta tentar vender DSLR’s com «conectividade»: as pessoas que usam essa funcionalidade não precisam de uma câmara fotográfica.

Com toda esta turbulência, não admira que alguns permaneçam fiéis à fotografia analógica…

M. V. M.

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