Os saltadores da Ribeira e eu: o negócio

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Eu sei, eu sei: este já é o quarto texto sobre este assunto. Por esta altura o leitor estará a perguntar a si mesmo, com ar de enfado e exalando um suspiro: «de que é que o M. V. M. se esqueceu desta vez?»

Devo dizer que o leitor tem alguma razão para reagir assim. Afinal de contas, este não é um tema tão fascinante como pode parecer. Aquilo dos saltos para a água pode parecer muito heróico visto de fora, mas não é. Poderá ser da primeira vez que se salta, mas depois de aprendida a técnica – sim, existe uma técnica, mesmo quando se salta de pés –, aquilo já não tem dificuldade nenhuma. Embora eu nunca tenha saltado, há inúmeros testemunhos dos próprios saltadores que mostram que é assim. Na verdade, os miúdos fazem aquilo por negócio. Não tenho dúvidas que saltar deve providenciar uma sensação extática, mas a motivação deles não é o prazer.

Deixem-me explicar: hoje voltei à Ribeira para fazer mais algumas fotografias de saltadores. Desta vez, por qualquer razão, estavam todos do lado de Vila Nova de Gaia. Como é mais ou menos habitual, os saltadores demoraram uma eternidade até dar o primeiro salto. Demorei a perceber por que demoravam sempre tanto tempo a saltar, mas hoje finalmente cheguei lá.

Quando estava com a máquina pronta a disparar, um adolescente chegou à minha beira e dirigiu-se-me num inglês tosco. Tinha na mão um chapéu cheio de moedas e pediu-me um euro. Depois, perante a minha reticência, explicou-me que ninguém ia saltar enquanto não lhe pagasse a moeda. Foi então que percebi, não apenas a demora nos saltos – que no meu caso é irritante, porque obriga-me a estar pronto para disparar, em posições por vezes difíceis, durante uma eternidade –, mas também a comunicação permanente que existe entre os saltadores quando já estão no beiral da ponte e algumas pessoas que estão nas margens do rio. Estas últimas andam a solicitar moedas de um euro aos turistas e dão indicação para saltar uma vez recebida a quantia.

Devo dizer que fiquei desiludido. Não pelo ardil em si, mas por verificar que aqueles saltos são, afinal, profundamente venais. É decerto uma maneira pueril de ganhar dinheiro, neste sentido sendo inocente e não censurável, mas a forma como está organizada deixa-me a pensar: será que, quando forem adultos, também vão viver de esquemas? Isto preocupa-me por diversas razões. Uma dela é que muitos dos mais velhos – e há alguns que andam perto ou já entraram nos trinta – têm pinta de traficantes, e a vida de traficante é o esquema por excelência. Para aqueles miúdos, esse estilo de vida pode ser muito tentador – especialmente se se habituarem ao dinheiro fácil que os turistas papalvos tão prodigamente largam. Não há, afinal, nada de heróico naqueles saltos: é apenas um negócio feito para espremer os bolsos aos biliões de turistas que se acotovelam nas margens do rio para ver os saltos.

Portanto, essa coisa dos saltos é uma manifestação de folclore portuense para turista ver – e pagar. Sem moeda não há saltos. Mas não deixa de ser um tema fotográfico fascinante. Sendo a fotografia uma ilusão, fica apenas a espectacularidade dos saltos. O lado venal não se vê nas imagens.

M. V. M.

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