Os saltadores da Ribeira e eu: adenda sobre a técnica

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Ainda a propósito do texto de ontem, acerca dos saltos para o rio Douro a partir da Ponte Luiz I (ou «D. Luís», se preferirem), para completar um pouco um assunto que apenas referi de passagem – a técnica. Ou melhor, a maneira como fotografo os saltos.

Escrevi ontem que as minhas primeiras tentativas foram um fracasso. É verdade, mas não apenas por causa do zoom «horrível» que usava (o 40-150-f/4-5.6 da Olympus), mas também por dois outros factores: a minha inexperiência e a própria câmara. Os fracassos foram determinados por uma conjugação dos três. A inexperiência, antes de mais. Fiz a minha primeira fotografia na Ribeira em Agosto de 2012. Por essa altura a minha experiência na fotografia resumia-se a dois anos, tempo em parte desperdiçado pelo uso de uma compacta durante nove meses (pensando bem, talvez devesse deixar de contar o tempo em que tive a compacta no cômputo da experiência acumulada). As primeiras fotografias não podiam ter corrido bem, mas correram ainda pior por causa do equipamento que usei. A lente, antes de mais: é lenta – com a distância focal que usei, a abertura máxima era apenas f/4.5. Além de tender a focar mal e de a sua qualidade de imagem ser mediana. A sua aquisição foi um exemplo típico de erro de principiante.

Claro que uma lente é fundamental para a qualidade da imagem, embora nestes dias em que as câmaras são pequenos computadores a sua influência seja menor do que quando as máquinas fotográficas eram caixas estanques à luz que serviam para alojar o rolo e o obturador. A câmara que usei nas minhas primeiras tentativas foi determinante para aquele fracasso.

É muito simples: as mirrorless são câmaras frívolas. Não se prestam a tipos de fotografia que implicam a captura de objectos (ou, neste caso, pessoas) em movimento. Especialmente se este último for rápido, como é o caso dos saltos. O sistema de focagem é errático, o uso do disparo contínuo só piora as coisas e não ter visor não ajuda nada. Tentar manter a visualização de um objecto em movimento com uma câmara sem visor é, no essencial, uma perda de tempo. Não se pode ser intuitivo: tem de se fazer um esforço mental intenso para calcular a trajectória do objecto (ou pessoa, neste caso) de maneira a poder mantê-lo enquadrado no ecrã. Isto é fastidioso, desconcertante e frustrante. Claro que cada câmara é feita para determinadas funções, e é mais que certo que a E-P1 nunca foi anunciada como ideal para desportos e objectos em movimento rápido, pelo que não me sinto ludibriado, mas o sistema de focagem automática por detecção de contraste, a lente medíocre e a ausência de um visor tornaram este tipo de fotografia mais difícil. O meu foi um caso típico de quem não tem cão caça com gato: as fotografias podem não ter sido as melhores, mas foram feitas com a única câmara que tinha nessa altura.

Em 2013 as coisas mudaram substancialmente. Apesar de ter feito algumas fotografias com a E-P1 equipada com as lentes OM com algum sucesso, a OM-2n deixou-me fazer as fotografias que queria e como as queria. Desapareceram os problemas de focagem – focar manualmente é preferível a deixar um sistema de detecção de contraste funcionar – e as dificuldades em acompanhar o movimento. Com um bom visor óptico, a visualização é igual à da lente; se usarmos uma lente standard, o que a câmara vê corresponde fielmente ao que vemos a olho nu, apenas com os limites do visor a cingir o campo de visão. Especialmente se o visor tiver boa claridade, o que nem sempre é o caso com as DSLR de acesso e gama média.

Isto faz toda a diferença. Através de um bom visor, tudo se passa como se o tempo tivesse desacelerado. É extremamente fácil ter a percepção do que se está a passar e acompanhar o movimento, o que é decisivo para fazer fotografias como estas em que se tem de estar atento às movimentações dos saltadores. Torna-se fácil antecipar o momento em que se deve disparar e, de uma maneira geral, tudo é mais preciso. Aquilo que parecia um tipo de fotografia extremamente difícil e exigente torna-se assim bastante mais simples. Não que seja assim tão fácil: é necessário ter um bom sentido de oportunidade, mas este, além de ser facilitado pelo visor, é algo que se adquire com a prática.

Eu não sou um tarado do equipamento. Simplesmente, este não deixa de ser importante. Há tipos de fotografia para os quais uma câmara modesta é suficiente, mas há outros para os quais é necessária a presença de algumas características técnicas especiais, sob pena de não se conseguir mais que falhanços. É tão simples como isto: não se pode pescar um espadarte com um galho, um cordel e um prego retorcido a fazer de cana de pesca, nem caçar um elefante com um revólver. (Não que eu seja a favor das caçadas!) Por isso, quando lerem lugares-comuns como «o equipamento não é importante, o que conta é o fotógrafo», ou «a melhor câmara é a que tens contigo», desconfiem. O mais provável é ser alguém a tentar convencer-se a si mesmo que o seu smartphone é uma máquina fotográfica bestial.

M. V. M.

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