Os saltadores da Ribeira e eu

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Devo estar a tornar-me repetitivo. Já devo ter escrito sobre isto dezenas de vezes neste blogue (e no anterior, o ISO 100), mas hoje vou escrever outra vez: é sobre os saltos na Ribeira. Aparentemente, são um espectáculo que está na moda, com direito a portfolio (desculpem, sou incapaz de escrever a palavra «portefólio» – ops!, escrevi-a…) na revista dominical do Público e tudo, mas nunca me deixam de interessar. Não posso dizer, sob pena de incorrer em grave desonestidade, que sempre me interessei por aquilo: embora admirasse a coragem daquelas pessoas, não sentia qualquer vontade de me deslocar à Ribeira expressamente para ver os saltos. Para dizer a verdade, só comecei a sentir um interesse real pelos saltos da Ponte Luiz I depois de começar a fotografar, quando congeminei que dariam bons motivos fotográficos. As minhas primeiras tentativas, ainda com a Olympus E-P1, foram quase todas um fracasso, em grande parte por causa daquele zoom horrível que tinha de usar. Ou, pelo menos, pensava que tinha de usar. As coisas melhoraram quando comecei a usar as lentes OM na E-P1, mas só com a Olympus OM-2n fiz fotografias de que posso sentir algum orgulho.

Não é apenas a experiência técnica que me leva regularmente à Ribeira para fotografar os saltos: esta é recompensadora, mas mais importante ainda é o desafio de fazer fotografias originais. O local não providencia tantas perspectivas como se poderia imaginar. Na prática, apenas é possível ter uma perspectiva alta e uma baixa. São poucas as fotografias conseguidas quando se gosta, como acontece comigo, de fotografar com os objectos ao nível dos olhos. Só quando o saltador se atira de cabeça é que, por umas fracções de segundo, se conseguem boas fotografias quando se está no mesmo plano que os saltadores. Fotografar o salto a meio da trajectória implica sempre uma perspectiva que é demasiado alta ou baixa, consoante o ponto de onde se faça a fotografia. Neste caso importa jogar com o enquadramento para fazer com que a imagem funcione graficamente.

No meu caso, privilegio o minimalismo: costumo fotografar contra a luz, obtendo uma silhueta, e apenas com um módico de informação espacial servindo como pista para que o espectador se aperceba do ponto de partida do salto. São fotografias essencialmente gráficas, as minhas: não tenho um interesse específico em retratar a pessoa que está a saltar: o que procuro é a forma que ela representa quando salta e a melhor maneira como contribui para a dinâmica da imagem.

O que não significa, de maneira nenhuma, que aquelas pessoas não me interessem. Eu não sou nenhum bicho-do-buraco, mas também não sou daquelas pessoas expansivas que ao fim de uns segundos estão a tratar o seu interlocutor como se o conhecessem desde a infância. Criar empatia é uma coisa que demora o seu tempo comigo, talvez por querer entender o mais possível como as pessoas funcionam antes de abordá-las. No caso dos putos da Ribeira, porém, tudo é muito diferente: eles são – além de incrivelmente corajosos, porque não é qualquer um que salta para a água de uma altura de cerca de vinte e cinco metros – extremamente abertos, francos e expansivos. Não é nada difícil estabelecer empatia com eles. Com pessoas assim, quaisquer reservas ou desconfianças são desnecessárias. Acresce algo de que comecei a suspeitar há um punhado de anos, depois de ter conversado com uma pessoa da Ribeira: eles (e elas, porque parece ser cada vez maior o número de raparigas que se atiram do tabuleiro inferior da ponte) são todos muito melhores do que o preconceito possa levar-nos a pensar. Podem ser ruidosos, ter aquela pronúncia carregada e gostos, digamos assim, populares, mas sentimo-nos bem no meio daquelas pessoas. Eu não tenho dúvidas que, se aqueles jovens vissem alguém em apuros, seriam os primeiros a acorrer-lhe. São de uma natureza simples – mas nunca simplória, notem bem – e generosa.

Deste modo, não me custa nada fazer aquele tipo de fotografias. Pelo contrário. Os meus únicos receios são o de se me esgotar a imaginação para descobrir ângulos diferentes e acabar por me saturar, e também o de que a publicidade torne os saltos da Ribeira num motivo fotográfico demasiado batido – o que poderá acontecer se os fotógrafos de rua do facebook descobrirem que conseguem fazer este tipo de fotografias. O que, sendo improvável, não é impossível…

M. V. M.

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