Photobombers

Img - 012B

Certamente já aconteceu a todos: estamos a fotografar um determinado motivo e, de repente, vindo de lado nenhum, alguém aparece no enquadramento, arruinando a fotografia. Ou alguém decide que o melhor lugar do mundo para se estar é diante do campo de visão da câmara e não sai dali nem que caia uma tempestade, como a senhora agente de segurança privada da imagem que ilustra este texto. Claro que ficamos danados quando isto acontece: já me sucedeu que, estando sozinho a fotografar uma cena e tendo aparecido um ciclista no momento em que premi o botão do disparo, tenha exclamado um palavrão bem sonoro (o qual, por motivos óbvios, me escuso de reproduzir aqui).

Há, evidentemente, casos em que o photobomber não tem culpa nenhuma: simplesmente não viu que estava alguém a fotografar. Mas há também casos de gente que vê alguém a fotografar e se põe – às vezes propositadamente – no campo de visão. São cada vez mais raras as pessoas que, apercebendo-se que alguém está a fotografar, param ou se desviam. A cortesia é, em definitivo, um valor cada vez mais raro.

Os photobombers podem arruinar por completo uma fotografia, mas também há casos em que apenas ocupam uma pequena porção da imagem. A questão é saber o que fazer com a fotografia nestes últimos casos. Se a fotografia não tiver qualidades que façam com que mereça ser conservada, é preferível esquecê-la, mas pode dar-se o caso de ser suficientemente boa e querermos preservá-la, apesar da presença indesejada da pessoa.

A solução mais simples, neste caso, é cortar a porção da imagem em que aparece o photobomber, se possível. O corte, ou crop, costuma ser anátema junto de muitos fotógrafos, especialmente depois do advento da fotografia digital. Há uma perda de qualidade, medida em tamanho e número de megabytes, que leva muitos a levantar objecções ao corte da imagem, mas parece-me que este argumento só tem relevo no caso de se pretender imprimir em tamanhos muito grandes. Se fizermos um corte numa fotografia de 8 megabytes, o resultado final poderá descer para 5 ou 6 MB, mas este valor é mais que suficiente para que a imagem não perca qualidade mesmo quando ampliada a 100%.

Ou pode recorrer-se à edição de imagem e remover o photobomber. Este procedimento também suscita a oposição dos puristas: há quem entenda que a remoção de objectos colide com a integridade da imagem, pensamento que decorre de uma concepção da fotografia como documento fiel do que os olhos viram. Esta é uma concepção da fotografia que me parece completamente ultrapassada. Mostrar um objecto tal como os olhos o vêem é, antes de mais, fisicamente impossível: o nosso campo de visão é diferente do da lente. De resto, essa concepção implica prescindir de qualquer intuito criativo. A fotografia é sempre uma ilusão: é, na melhor das hipóteses, «a ilusão de uma descrição literal de como a câmara viu uma porção do tempo e do espaço» (Garry Winogrand). O que a câmara viu jamais poderá ser visto de novo, pelo menos da mesma forma. Portanto, uma fotografia não é a descrição fidedigna de coisa nenhuma.

Aprendi, com o tempo e a experiência, que a edição de imagem, mesmo quando usada para remover objectos, não é nenhum anátema. Pelo contrário, pode salvar uma fotografia que de outra maneira teria de ser destruída ou ignorada. Alguns vislumbram uma questão ética no recurso à edição de imagem para remover objectos; eu não. Esse problema apenas existirá no caso de o fotógrafo pretender mentir quando recorre à edição para alterar uma realidade que pretende ilustrar com a sua fotografia, fazendo-a passar por uma representação fidedigna de um facto. Quando a fotografia não tem essa pretensão de ilustrar fielmente a realidade, não vejo que objecção poderá ser oposta a remover um elemento indesejável do enquadramento. E, no caso de a fotografia ser uma composição livre, também não me repugna a adição de elementos – desde, de novo, que não se pretenda falsear a realidade.

A alternativa é deixar a fotografia como está porque foi assim que as coisas aconteceram, mas isto pode ser negador da estética da fotografia. Se eu estiver a fotografar uma pessoa bonita e uma criatura gorda e mal vestida aparecer no enquadramento, por que havia de querer mantê-la na imagem, se tenho os meios para fazê-la desaparecer?

M. V. M.

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3 thoughts on “Photobombers”

  1. Exacto.

    Eu não o sei fazer, mas não teria problema nenhum em editar uma foto, incluindo retirar alguém que ia a passar ou assim, desde que a foto continuasse fiel àquilo que na altura eu “vi”.

    Aliás tenho duas fotos que hei de editar, só não sei com que ferramenta (se souberes, já agora pf diz) que têm o seguinte problema:

    – era para ser um retrato de uma pessoa do lado esquerdo e uma parede +/- limpa do lado direito;
    – tirei a primeira, a pessoa não ficou com uma expressao interessante;
    – tirei a segunda, a pessoa ficou muito bem, mas ia um transeunte a passar que “estragou” a parte direita da fotografia (onde era suposto estar a tal parede nua).
    – A retratada estava com pressa pelo que não deu para uma terceira foto.

    O retrato tal como eu o “vi” corresponde à parte direita da primeira foto “colada” com a parte esquerda da segunda foto. As duas fotos foram tiradas uma a seguir à outra, com a câmara numa posição quase idêntica.

    Preciso de uma ferramenta simples para o fazer; tive a ver no Lightroom 5 e não dá…

    Ricardo

  2. Há uma foto famosa tirada nos Estados Unidos nos anos 60 ou 70 numa marcha qualquer em que a retratada ia a ser puxada pela polícia ou assim, uma cena dramática, mas que ficou estragada porque havia um pau em segundo plano que “atravessava” a cabeça da pessoa. Na altura o fotógrafo editou isso sem problema.

  3. Ricardo: assim de repente só estou a ver o Photoshop CS ou o GIMP para remover o photobomber. A ferramenta de clonagem do CS, o “clone stamp”, costuma fazer maravilhas.
    Há dias vi uma sessão fotográfica nas Virtudes, junto ao mural pintado pelo Hazul. A modelo era uma louraça espampanante, mas a “assistente” do fotógrafo era mais interessante… fotografei-a, mas quando vi a digitalização reparei que tinha ficado visível uma perna da louraça, que estava atrás da “assistente”! Usei a tal ferramenta e consegui, depois de muito trabalho, amputar a perna. Vê aqui: https://www.flickr.com/photos/manuelvilardemacedo/20383602605/in/dateposted-public/

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