O melhor dos dois mundos

Ctein tinha razão. O formato 35 mm – ou «135», para sermos mais precisos – impôs-se pelo aspecto prático, não pela qualidade de que é capaz. As películas 135 comuns não fazem melhor do que aquilo que uma Canon 70D ou uma Nikon D7300 são capazes. Só se nos dermos à bizarria de fotografar com rolos de slide é que vemos alguma superioridade da fotografia analógica em relação à digital, porque a qualidade de imagem das câmaras digitais evoluídas é hoje superior à dos Kodak Gold, Portra, Ektar e todos esses rolos de utilização mais comum.

Há um último reduto para a fotografia analógica: o médio formato. As câmaras digitais, com excepção das de médio formato profissionais como as Mamiya Leaf, Phase One e Hasselblad, ainda não conseguiram o tipo de qualidade que as máquinas analógicas de médio formato e os rolos 120 são capazes de atingir. O que torna tudo mais interessante no caso da fotografia analógica é que a qualidade de imagem depende em 80% da película utilizada e 20% das lentes, pelo que qualquer velharia, desde que não tenha infiltrações de luz e seja equipada com lentes de qualidade, é capaz de fazer melhor que a maioria das câmaras digitais.

Até aqui tenho estado a escrever com a fotografia a cores em mente. É nesta que a qualidade das câmaras digitais está a ultrapassar a fotografia analógica. O preto-e-branco levanta outro tipo de considerações que tornam o desempenho da película pancromática incomparavelmente melhor que a de qualquer câmara digital. A superioridade não está nos números – obter um valor de 5 MB com a digitalização de um negativo 135 já é um bom resultado, embora diga mais sobre a qualidade do scanner do que da película –, mas na estética. É impossível a uma câmara digital reproduzir a beleza das altas luzes de um Tri-X ou um Ilford FP4 e só com muita manipulação digital se chega perto dos contrastes que se obtêm imediatamente quando se usa um bom rolo. Só com horas de edição é possível fazer com que uma imagem de uma câmara digital seja minimamente comparável, mas consegue sempre distinguir-se uma imagem de um negativo digitalizado de uma fotografia digital. E, se imprimirmos ambas, as diferenças são ainda mais evidentes – com vantagem para o analógico. Repito que esta não é uma questão de tamanho ou de número de pixéis: é na estética inimitável que os rolos a preto-e-branco prevalecem. Nem as Leica M Monochrom nem as cassetes Phase One Achromatic, aparelhos concebidos de raiz para apenas registar imagens em preto-e-branco, conseguem simular a beleza de uma imagem analógica.

Isto deixa-me a pensar sobre o que quero usar para fotografar. Para o preto-e-branco tenho tudo o que preciso: uma máquina soberba, que no seu tempo era a melhor câmara 135 do mercado, lentes sensacionais e uma preferência indissolúvel pelo melhor rolo a preto-e-branco existente à superfície da Terra, aquele com o qual todos os demais se medem e ficam a perder: o Ilford FP4. Não tenho, pois, qualquer necessidade de mudar: estou imensamente bem servido e satisfeito no que respeita a fotografias a preto-e-branco.

E na cor? Este texto vem na senda do anterior, em que apreciei os resultados da minha experiência mais recente com um rolo a cores. Esta foi satisfatória, mas apenas em termos relativos. É evidente que uma fotografia feita com um rolo a cores montado numa Olympus OM-2n será sempre bastante melhor que uma tirada com um telemóvel, mas não se a compararmos com o que pode ser obtido com uma câmara digital de gama intermédia, como as DSLR que referi anteriormente. Pelo que o melhor dos dois mundos será manter a OM-2n para fotografar a preto-e-branco e adquirir uma máquina de médio formato para fotografar a cores. (Sendo certo que, se fotografar com rolos de médio formato a preto-e-branco, a qualidade poderá atingir níveis intergalácticos.)

Neste caso, as escolhas são inúmeras. Já referi que, atenta a contribuição da película para a qualidade da imagem no médio formato analógico, tudo o que é necessário é que a máquina funcione bem e tenha lentes decentes, pelo que a gama de escolhas vai desde as máquinas de fole como as Zeiss Ikonta e as Agfa Isolette até às precursoras do médio formato actual como as Mamiya 645. Pelo meio existem máquinas tão interessantes como as Rolleiflex, a Yashica Mat 124G, as Pentax 6×7 e 645, a Pentacon Six, as Fujifilm de telémetro, a Mamiya 6 ou a Hasselblad 500 C/M. Desde que haja dinheiro, é só escolher: se estiverem em bom estado, todas fotografam com um nível de qualidade absurdamente elevado, independentemente do ano de fabrico. Falta-me apenas saber: a) se vou ter dinheiro disponível, quer para a máquina, quer para revelar e digitalizar rolos que permitem entre oito e doze exposições; b) se tenho um interesse pela fotografia a cores que me leve a comprar mais um sistema fotográfico e c) se tenho coragem de ser visto na rua com uma TLR ou uma Agfa Isolette. Ainda não tenho resposta para nenhuma destas questões.

M. V. M.

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