O Kodak Gold 200

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No texto de ontem manifestei o meu pessimismo quanto à fotografia a cores. Escrevi isto: «Este pode muito bem ter sido o último que comprei: a cor não faz parte da minha maneira de fotografar. Procurar motivos que conciliem a minha fotografia com a cor é praticamente impossível. Os tipos de fotografia para os quais a cor contribui, como paisagens ou retratos, não me interessam.»

Claro que isto foi escrito antes de ver os resultados da revelação e digitalização do Kodak Gold 200. Hoje não me sinto tão cínico quanto à fotografia a cores com película (o que, todavia, não oblitera o facto de sentir muito mais predisposição para fotografar a preto-e-branco). Por que mudei a minha opinião? Que aconteceu para que eu atenuasse a minha descrença na cor? Vou estragar o suspense do texto e dizer, logo no segundo parágrafo, o que conclui da minha experiência: o Kodak Gold 200 é um rolo espectacular!

Comparando-o com os outros rolos a cores que experimentei, o Kodak Gold 200 não é o melhor em termos de qualidade de imagem absoluta: essa distinção continua a ir para o Kodak Portra 160. Contudo, há alguns aspectos em que o Gold 200 é bastante melhor (já lá vamos). O Gold 200 é infinitamente melhor que o Ektar 100 – um dos poucos rolos que me suscitou um ataque de coprolalia aqui no Número f/ –, é superior ao Fuji Superia 200 e é melhor que o Ferrania Solaris, mas é com este último que a comparação se torna interessante. O Gold 200 é um Ferrania Solaris em versão adulta; é um rolo de cores vivas, saturadas e vibrantes, como o congénere lígure, mas sem os exageros que tornavam algumas cores berrantes. É um rolo em que a alegria da cor se manifesta, mas não tão efusivamente. Digamos que é mais bem comportado. E, sobretudo, é mais maduro: não tem tanto grão nem tem os artefactos que encontrei nos Ferrania (embora ressalvando a possibilidade de esses se deverem ao facto de a película estar expirada, o que não posso confirmar ou infirmar porque os rolos que usei não tinham marcação do prazo de validade). Seja como for, o Kodak Gold 200 é um Ferrania Solaris um pouco mais discreto, mas não menos entusiástico. E sem os defeitos cruciais deste último.

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A característica que mais me agradou no Kodak Gold foi a sua aptidão para preservar a veracidade dos tons em exposições nocturnas e ao fotografar na sombra. O Portra 160 não serve para estes tipos de fotografia, tendo mesmo um desempenho pior que o miserável Ektar 100. O Kodak Gold, porém, é excelente: há decerto um pouco de verdes a mais, mas esta matiz não é tão destrutiva como o ciano que invade as exposições feitas naquelas condições com o Portra 160: com este último as cores são feias, antiquadas e imprecisas.

Esta aptidão para fotografar com luz escassa torna o Kodak Gold 200 num rolo imensamente interessante, mas as suas qualidades não terminam aí. Debaixo de luz solar também se porta bem. Muito bem até. Aqui as matizes invasoras são o amarelo e o ciano, mas a sua presença é discreta e facilmente corrigível – caso seja necessário, o que nem sempre se verifica. As cores são, no essencial, correctamente descritas – posto que com uma saturação agradável e suficientemente discreta para não ser berrante. Não existem no Gold 200 as aberrações que destroem por completo qualquer pretensão de veracidade do Ektar 100, as quais por vezes se manifestam também com o Portra 160 sob luz intensa. (Já que menciono este aspecto, convém dizer que o Kodak Gold parece beneficiar de uma ligeira subexposição: A sua descrição das altas luzes é por vezes demasiado entusiástica.)

O Kodak Gold partilha com o Ferrania Solaris uma outra característica que me surpreendeu: a descrição dos brancos. No Ferrania, estes são simplesmente imaculados. São brancos puríssimos, sem qualquer matiz. O Gold 200 é praticamente idêntico na sua ausência de matizes, mas os brancos são um pouco menos brilhantes.

Mais. Eu não faço retratos, mas fotografo frequentemente pessoas. (Não, não é a mesma coisa.) A descrição dos tons de pele do Kodak Gold 200 é absolutamente fantástica. Decerto, peles claras podem surgir mais brancas do que realmente são, mas antes isto que ver tonalidades ciano a conferir um tom esverdeado a uma pele morena. Este rolo, paradoxalmente, é melhor para retratos que o Portra – o qual, como o nome indica, foi estudado para beneficiar tons de pele em retratos.

Quer isto dizer que é o rolo perfeito? Não. O grão é abundante – embora não tão escandaloso como no Ferrania – e parece-me que o Portra 160 tem maior nitidez e contraste. Contudo, nenhum destes defeitos parece afectar demasiado as imagens produzidas por um rolo que parece ter tudo no ponto certo: é alegre sem ser berrante, é preciso sem ser clínico e não aparenta ter defeitos redibitórios. É, como referi, um Ferrania Solaris sem os problemas e exageros. Como não ando atrás da perfeição, mas antes do prazer de fazer fotografias agradáveis, o Kodak Gold 200 é agora o meu rolo a cores favorito.

M. V. M.

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