O meu Dia Mundial da Fotografia

Apesar de eu sentir um desprezo olímpico por celebrações de dias mundiais, esta manhã não tinha nada melhor para fazer e fui fotografar. Não costumo fazê-lo à semana, mas tinha tempo livre e aproveitei.

Má ideia. Não foi nada divertido. Em primeiro lugar por causa dos turistas, por quem começo a sentir uma aversão quase patológica: aquela gente que enxameia constantemente as nossas ruas faz-me sentir um estranho na minha própria terra. Pode haver um pouquinho de exagero nestas minhas palavras, mas os turistas retiram-me todo o prazer de andar pela cidade. Eles estão em todo o lado, como um exército de zombies num filme de terror de série B da Troma.

A principal causa de a minha celebração do Dia Mundial da Fotografia ter sido frustrante não foi bem os turistas. Eu ando há quase um mês a tentar expor um rolo a cores. Este pode muito bem ter sido o último que comprei: a cor não faz parte da minha maneira de fotografar. Procurar motivos que conciliem a minha fotografia com a cor é praticamente impossível. Os tipos de fotografia para os quais a cor contribui, como paisagens ou retratos, não me interessam. Não fazem parte do meu léxico. Foi mentalmente extenuante procurar temas em que a cor funcionasse a favor das fotografias. No fim da manhã dei por mim a fazer fotografias a contra-relógio, só para acabar de expor o rolo e voltar ao preto-e-branco.

Não retirei grande prazer de fotografar com este rolo a cores. Curiosamente, não foi nada disto que aconteceu quando experimentei (por duas vezes) o Ferrania Solaris. Talvez por as minhas experiências anteriores com rolos a cores da Kodak não terem sido particularmente brilhantes, mas sobretudo por o Ferrania ser tão barato e me levar a fazer fotografias descontraídas e alegres. Com este Kodak não senti essa alegria que me levou a procurar motivos divertidos.

(A celebração mais interessante da fotografia aconteceu na véspera deste Dia Mundial. Ontem recebi a visita da minha sobrinha de três anos, que desenvolveu um enorme fascínio, vá lá entender-se porquê, pelo meu tripé. Depois de me ter obrigado a armá-lo – ela, com o seu comportamento imitativo, pôs-se a espreitar sobre a cabeça do tripé num visor inexistente! –, exigiu que eu montasse a máquina fotográfica. Depois disto, foi buscar uma cadeira e sentou-se atrás da câmara e do tripé espreitando o visor. Ficou assim durante vários minutos, em parte porque a câmara estava apontada ao Sousa, o meu gato. É bem possível que lhe venha a incutir o gosto pela fotografia a sério, embora a Maria pareça ter ficado um pouco confusa por descobrir que não se formou nenhuma imagem na parte traseira da câmara.)

As minhas celebrações do Dia Mundial da Fotografia ficaram completas quando, depois de entregar o Kodak Gold na Câmaras & Companhia para revelar e digitalizar, resolvi comprar nem mais nem menos que uma caneca. Eu sou daquelas pessoas que não concebem tomar o café com leite da manhã numa caneca diferente da que adoptaram, e no meu caso a única caneca com que o pequeno-almoço me sabe bem partiu-se em circunstâncias misteriosas no Domingo passado. Substituí-a por uma caneca da autoria do estúdio catalão 4Photos, com um desenho de uma SLR que, a julgar pela representação dos comandos do temporizador e da soltura da película, é uma Olympus OM. Assim posso celebrar a fotografia todos os dias, logo de manhã, ao pequeno-almoço. Pelo menos enquanto a caneca não partir.

Já devem ter percebido que não me esforcei muito para celebrar o Dia Mundial da Fotografia. De facto, não posso dizer que tenha sido uma comemoração de arromba, mas isto das efemérides é coisa que me diz muito pouco. (Aliás, se dependesse de mim, o Dia Mundial da Fotografia seria comemorado a 30 de Dezembro, porque foi nessa data que nasceu o meu predilecto W. Eugene Smith.) O meu Dia Mundial da Fotografia é quando vejo que fiz uma fotografia que me deixou plenamente satisfeito  o que, mesmo sendo um evento raro, não depende de nenhuma data especial. Juntar-me a um grupo e fazer milhares de fotografias sem sentido não é celebração nenhuma: é uma perda de tempo e um desperdício de fotogramas. De resto, nestes dias de selfies e de fotografias de pratos de comida no facebook, o que é que celebramos ao certo? A morte iminente da fotografia como forma de expressão artística?

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s