Da inutilidade dos conselhos

Fotografia por Jürgen Klauke
Fotografia por Jürgen Klauke

Por vezes, quando ando pela internet, leio artigos com conselhos a quem pretende lançar-se na fotografia. Evidentemente, estes artigos são completamente inúteis, ou pelo menos ficam longe de atingir os destinatários: quem se inicia na fotografia dificilmente os lê, porque ainda não entrou no mundo arcano da fotografia e não se interessa pelos websites onde se formulam estes conselhos. Quem lê estes artigos, em regra, são pessoas já experimentadas a quem os conselhos não dirão nada – embora por vezes as possa fazer pensar um pouco. De qualquer modo, os conselhos oferecidos na internet conseguem ser díspares ao ponto de se tornarem antagónicos.

Há anos, com o entusiasmo de fotografar com uma câmara decente, deu-me para formular alguns conselhos. Mesmo se o fiz sempre sob a reserva de ser inexperiente e de relatar o que me parecia ser mais válido da minha experiência iniciática, foi uma tolice. Os conselhos são sempre pessoais: são um ensaio de adivinhação sobre o que pessoas abstractas precisam de ouvir. Como tal, o seu destinatário é rigorosamente ninguém. As pessoas que receberão os conselhos só existem na imaginação do conselheiro: são emanações da mente deste último.

Dar conselhos é partilhar uma experiência eminentemente pessoal. Esta experiência é, por regra, a que a própria pessoa acumulou a fazer as coisas à sua maneira, sendo deste modo intransmissível. Como não há duas pessoas iguais, as possibilidades de o conselho ser útil a alguém são diminutas – mas as probabilidades de o conselheiro ser tomado por presunçoso são enormes. Com efeito, podemos sempre perguntar quem o conselheiro julga que é para se permitir dar conselhos.

Um conselho que nunca daria é: «tirem muitas fotografias». Este conselho, que só é possível por causa da fotografia digital e da sua capacidade de armazenamento, é um disparate completo. Tirar muitas fotografias é o oposto de ser selectivo e exigente. Não há nada a aprender com isto. Se eu fosse a dar um conselho, seria exactamente o oposto: «fotografa esparsamente». O iniciado deve aprender que cada fotografia é única e irrepetível e ganhar consciência de que, por este facto, é a representação de um instante precioso e fugaz. Já vi gente a fazer fotografia de rua com o disparo contínuo: isto é transformar uma caçada numa pesca por arrasto. Não se está a capturar um momento decisivo, mas a escolher qual dos momentos (não decisivos) nos parece mais interessante. Seria uma tolice aconselhar um futuro pintor a pintar muitos quadros do mesmo motivo e depois escolher o melhor, não seria? Então por que há-de alguém dar semelhante conselho a quem fotografa?

Outro conselho que me parece asinino é: «fotografa o que te apetecer». O único efeito de fotografar assim é fazer fotografias estúpidas. Quem se inicia na fotografia tem de começar por aprender a fazer um juízo de valor, não sobre as qualidades de um motivo, mas sobre o seu interesse fotográfico. Um pôr-do-sol pode ser uma visão extremamente bela, mas quantos biliões de fotografias de pores-do-sol foram já feitas? Quem fotografa com intenção criativa deve ser selectivo e exigente; deve começar por entender que nem tudo o que lhe apetece fotografar merece sê-lo. (É por isto que advogo que se comece com uma máquina fotográfica analógica: assim sente-se que cada exposição tem um custo real e não pode ser desperdiçada com fotografias desinteressantes.)

No fundo, a minha oposição a estes dois conselhos pode fundar-se numa só palavra: originalidade. O único conselho que vale a pena ser dado a quem se inicia na fotografia é: «sê original». Ou, por outras palavras, que este iniciado seja ele mesmo quando fotografa. Não me parece que seja possível dar um conselho melhor que este. Aliás, penso que é o único conselho que pode ser dado. Quem quer fotografar com propósito (o que exclui as fotografias das próprias pernas na praia para fazer inveja aos amigos do facebook) deve procurar um caminho e uma forma de expressão a que possa chamar seus. Fazer fotografias iguais a outras que já foram feitas para agradar a toda a gente tem, invariavelmente, o resultado de não agradar a ninguém (pelo menos a ninguém que tenha um bocadinho de discernimento). No fundo, dizer isto não é muito original em si mesmo: assim de repente vem-me à ideia aquela frase do diálogo entre a personagem Mason Evans Jr. e o seu professor de fotografia no excelente Boyhood:

What can you bring to photography that others can’t?

Enquanto não souber a resposta a isto, não adianta ao futuro fotógrafo tirar muitas fotografias ou fotografar o que lhe apetecer. Estará apenas a perder tempo. Nem lhe adianta ler conselhos na internet: só lhe vai aumentar a confusão. O aspirante a fotógrafo só deve ter uma ambição: ter uma linguagem fotográfica que seja só dele.

M. V. M.

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2 thoughts on “Da inutilidade dos conselhos”

  1. Caro M.V.M.,
    já não lhe sei contar como descobri este seu blog… mas foi recentemente !

    Já criei pdf de várias das suas crónicas e tenho um lembrete na agenda para vir diariamente ‘ver as novidades’. Escusado será dizer depois da frase anterior que me identifico com as suas opiniões.

    Já divulguei o seu blog num, ainda pequeno, grupo que criei no facebook ( ESCREVER COM LUZ ) para continuar as partilhas com aquel@s que durante o ano lectivo de 2014-2015 quiseram participar em conversas sobre A FOTOGRAFIA que dinamizei, respondendo ao desafio da http://redeacademicauevora.weebly.com/workshops-ranaue-realizados.html

    Vou iniciar em Setembro novo grupo, noutro contexto ( Associação Círculos de Transformação ) e pretendo levá-lo comigo, virtualmente falando.

    Esta será a crónica com que o vou apresentar.

    Grata pela sua atenção, deixo o link para os meus devaneios em Fotografia

    http://pelosolhosdemadness.blogspot.pt/

    Cordiais cumprimentos,
    maria josé

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