Vertical

https://i1.wp.com/i3.kym-cdn.com/photos/images/original/000/924/163/fac.gif

Uma das coisas mais irritantes que a fotografia móvel – entendendo-se como tal a que é obtida por meio de telemóveis ou smartphones – trouxe foi o abuso da orientação vertical. Hoje em dia, aparentemente, as pessoas fazem tudo como lhes apetece e, mesmo que não sejamos uns zelotas das regras (defender o bem fundado das regras da fotografia é a melhor maneira de se ser insultado na internet), não conseguimos deixar de pensar que algumas coisas não fazem sentido nenhum.

Não adianta dizer a quem tira fotografias e vídeos na vertical que essa não é a forma correcta de colher imagens: seremos acusados de ser gente com mentes estreitas. Ops – «estreitas» é exactamente o adjectivo de que estava à procura para estas imagens. A estreiteza da perspectiva torna o visionamento das imagens – sejam elas paradas ou dinâmicas – extremamente desconfortável e contranatura.

O desconforto tem que ver com um facto muito básico, mas que por qualquer motivo é impossível fazer entrar na cabeça de quem fotografa ou filma assim: é que nós vemos na horizontal. O facto de os nossos olhos estarem alinhados num eixo horizontal poderia ser um indício de que a nossa visão se expande num plano igualmente horizontal, pelo que seria natural que os vídeos fossem filmados na horizontal, mas nada disto é capaz de contrariar o argumento importante e decisivo de que se pode fotografar ou filmar só com uma mão se usarmos o telemóvel na vertical.

Nós, os humanos (o que exclui os tarados dos gadgets), vemos na horizontal. A nossa visão estende-se num ângulo de (aproximadamente) 120º na horizontal e 75º na vertical. Não parece uma diferença substancial, mas é suficiente para que a nossa visão tenha uma relação de aspecto de 2:1,6. O que está muito próximo do formato 3:2 e explica por que sentimos uma afinidade tão grande por este formato: ele emula a natureza. Tendo o ser humano uma visão binocular, ele vê horizontalmente.

O formato vertical é de tal maneira limitado em largura que, na prática, apenas tem as funções de mostrar retratos (em que a estreiteza do campo de visão serve o propósito de isolar a pessoa retratada) ou descrever a dimensão de altura, como quando se fotografa um edifício alto. Tudo o que exceda estes casos parece pouco natural – excepto, claro, para a pessoa que fotografou ou filmou na vertical.

Se ao menos essas pessoas adaptassem a perspectiva para que o posicionamento vertical funcionasse, ainda podia considerar que estávamos perante uma verdadeira revolução na maneira de fotografar e filmar. Mas não – elas fotografam e filmam da mesma maneira a que nós, os antiquados, com as nossas mentes estreitas, estamos habituados, com a única diferença de segurarem a câmara na vertical. Já vi vídeos de Fórmula 1 no You Tube filmados na vertical. Tanto quanto me lembro (já não vejo um grande prémio há quase três semanas), os Fórmula 1 progridem no sentido horizontal. É porque quem filma ou fotografa na vertical o faz com motivos que se vêem horizontalmente que considero esta maneira de segurar a câmara um disparate completo. Admito que seja mais cómodo, mas não faz qualquer sentido.

A progressão da fotografia e do vídeo no sentido do posicionamento vertical faz-me pensar que, se isto continua, um dia teremos televisões e ecrãs de cinema verticais. Talvez dentro de umas décadas estejamos tão habituados ao formato vertical que percamos por completo a visão periférica. (Quando isto acontecer, quero ver quem é que vão dizer que tem vistas estreitas…)

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s