Guia gastronómico para o fotógrafo esfomeado (e guloso)

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A maneira como fotografo implica, por regra, caminhadas longas. Não tanto como as dos astrofotógrafos e dos amantes da fotografia de vida selvagem, mas mesmo assim extensas. As minhas jornadas fotográficas são uma espécie de caçada urbana, o que implica estar pronto para começá-la na Praça da Galiza e terminá-la na Trindade, ou na Rua Santa Catarina (e fazer o percurso de volta).

Como acontece com qualquer pessoa, é frequente que me dê a fome durante estes percursos. Por vezes esqueço-a, ou pelo menos ignoro-a; outras vezes, porém, sinto-me como se as paredes do estômago estivessem coladas: a fome torna-se impossível de ignorar. É o corpo a pedir alimento. Nessas alturas há que ouvir o corpo e dar-lhe o que ele quer – mas também já me aconteceu comer sem fome, por simples gulodice. Vou, porque sei que a fome ou a gulodice são comuns a muita gente, contar-vos as minhas experiências gastronómicas mais interessantes. Não me refiro aqui a refeições inteiras, mas a doçarias com que aplaco a fome entre refeições, a meio da manhã ou à hora do lanche.

Quando fotografo na zona da Boavista (o que acontece com cada vez menor frequência, porque penso que já fotografei tudo o que havia para fotografar na Casa da Música e respectiva estação do metro), é frequente parar no Boémia Caffé, logo no início da Avenida de França (a partir da Rotunda da Boavista). É lá que fazem e vendem os melhores croissants que já provei. São tão bons que a confeitaria apregoa terem sido eleitos os melhores croissants do Porto pela Time Out. São relativamente pequenos, o que tem a vantagem de podermos comer um sem ficarmos enfartados, e são vendidos com diversos recheios e coberturas, mas eu aconselharia os croissants simples. O seu sabor não tem nada de particularmente delicado ou gourmet, mas também não tem o sabor a farinha que existe em muitos outros croissants. Pelo contrário: o que estes croissants têm de especial é serem simplesmente deliciosos. A sua textura tem a conta, peso e medida certos, tal como o açúcar e a gordura: não são demasiado doces, mas são muito suculentos. Comer só um pode deixar-nos uma sensação de incompletude e frustração. Como são relativamente pequenos, é possível comer dois sem ter um ataque de azia. Mas atenção, porque estes croissants são relativamente caros para o seu tamanho: €0,80 a unidade.

Como sabem, tenho uma predilecção especial por fotografias de surf (embora também sinta que o interesse fotográfico deste tema está a esgotar-se). Numa das minhas incursões mais recentes pelo contínuo composto pela Praia Internacional e Praia de Matosinhos, descobri uma barraquinha, estacionada no passeio da Rotunda da Anémona, a que os antigos chamavam «Praça da Cidade do Salvador», que vende bolas de Berlim. Sou um pouco ambíguo quanto a estes doces porque eu gosto de guloseimas, mas não de me empanturrar. E as bolas de Berlim têm um volume e peso que favorecem este tipo de saciedade que leva facilmente à indigestão. De resto, as bolas de Berlim que se vendem em pastelarias regulares tendem a ter uma massa que é demasiado seca ou demasiado pesada, com demasiado óleo da fritura, e o creme é, em regra, daquele industrial com pouco paladar e demasiado doce. As Bolas da Anémona – é assim que se chamam, ou pelo menos é desta maneira que estão anunciadas na referida barraquinha – não são nada disto: a massa tem a consistência ideal, o creme é saboroso sem ser demasiado doce e as bolas vêm polvilhadas com açúcar branco em grão, o que tem a vantagem de, além de saber melhor, não nos deixar completamente cobertos de açúcar em pó. (Já agora, posso acrescentar que o creme não tem a tendência de transbordar para todos os lados e deixar-nos lambuzados, como as bolas de Berlim ordinárias.) São caras – €1,20 cada exemplar –, mas o prezado leitor vai, provavelmente, sentir a tentação de comprar uma dúzia e levá-la para casa depois de provar a primeira.

Por fim: há dias descobri que a Ateneia, confeitaria ilustre da Praça da Liberdade, se tornou numa confeitaria gourmet. Ele é macarons, éclairs à moda dos da Leitaria da Quinta do Paço (mas do tamanho de um dedo) e outros doces minúsculos e caríssimos. Quando entrei, estava com fome e apetecia-me comer qualquer coisa substancial, que me deixasse satisfeito; os únicos doces que correspondiam a esta descrição eram os pastéis de nata e uma espécie de queques de chocolate – não faço a mais pequena ideia de como lhes chamam – do tamanho e formato de uma nata. Pedi um destes últimos. Paguei um preço gourmet – €1,50 é muito dinheiro –, mas fiquei com a sensação de ter comido um dos melhores doces existentes à superfície do planeta, daqueles que se pode dizer que não vale a pena viver se não se puder provar ao menos uma vez. Quando se trincam, escorre um recheio de chocolate derretido, que podia ser um pouco mais amargo mas é delicioso na mesma. O único problema é que tem de ser comido à mesa ou ao balcão: comê-lo como o fiz, en route para o próximo destino fotográfico, significa que uma porção do chocolate líquido vai perder-se, a menos que nos escondamos para lamber o guardanapo longe dos olhares reprovadores dos transeuntes.

Há outros sítios merecedores de uma visita – a Leitaria da Quinta do Paço continua a merecer a sua boa reputação e o salame de chocolate da confeitaria Suave, na Rua de Cedofeita, é digno de uma experimentação –, mas os três que mencionei são simplesmente obrigatórios para o portuense guloso. Quer fotografe ou não.

M. V. M.

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2 thoughts on “Guia gastronómico para o fotógrafo esfomeado (e guloso)”

  1. Deu para abrir o apetite e aumentar a vontade de sair de câmara em punho para uma aventura fotográfica.

    As Bolas de “Berlim” são de facto excelentes, a Leitaria da Quinta do Paço é um local interessante embora ainda não descobri o salame… por fim a Ateneia… não conheço, mas ainda antes do fim do dia vou investigar.

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