Os drones

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Devo ficar preocupado? Apesar de viver num país pobre – ou, pelo menos, um onde a prioridade dos habitantes vai para coisas essenciais, à míngua de dinheiro –, onde estes objectos ainda não abundam, existe uma ameaça potencial à privacidade das pessoas que se está a generalizar: os drones.

Estes aparelhos comandados remotamente têm como característica o facto de poderem ser equipados com câmaras, sejam elas de fotografia, de vídeo ou de ambas. Não me refiro, evidentemente, aos drones usados para fins militares – cujo uso considero justificável, a despeito de eu ser o mais anti-belicista possível –, mas aos de uso particular, que podem ser adquiridos por qualquer pessoa: os quadcopters, hexacopters ou semelhantes. Estes aparelhos têm a particularidade de ser impossível imaginar-lhes um fim que seja minimamente útil ou benéfico para a convivência social: servem apenas o interesse egoístico dos seus proprietários, que pode ser o mais nocivo que sejamos capazes de imaginar.

Na verdade, os drones parecem ter sido concebidos com o único propósito de exacerbar as tendências voyeuristas de alguns. Há cerca de dois anos, a comunidade de basbaques conhecida por gearheads ficou maravilhada por um vídeo, feito com um drone equipado com uma Panasonic GH4, no qual se mostrava pessoas fazendo amor ao ar livre. Como seria porventura de prever, alguns ficaram deliciados com este vídeo; foram poucos os que denunciaram o lado repugnante dessas filmagens: a devassa de momentos íntimos. Muitos mais foram aqueles que ficaram embeiçados pelo desempenho da câmara, o que significa que há quem apenas se preocupe com frivolidades e deixe que aquilo que é verdadeiramente importante lhe passe ao lado. A comunidade fotográfica tem muita gente assim.

Os drones tornaram-se recentemente notícia por um norte-americano de nome William Meredith ter abatido um com uma caçadeira. O drone, de acordo com Meredith, pairava sobre a sua propriedade, onde ele vive com as suas filhas pequenas. Foi uma destas que o alertou para o voo do drone. Meredith alegou que disparou quando o drone entrou na sua propriedade; o dono do drone clamou que estava apenas a divertir-se com os amigos e a tentar filmar a casa de um deles.

Estranhamente, num país onde a propriedade privada parece ser um valor sacralizado, William Meredith foi preso. Por qualquer motivo que ignoro, Meredith tornou-se no vilão e o dono do drone na vítima inocente. Poderíamos pensar que, sendo uma devassa da vida privada e uma violação dos limites da propriedade, o dono do drone merecesse a reprovação geral, mas em vez disso foi aquele que empreendeu acção directa para proteger os seus valores quem mereceu a censura social.

Podemos, evidentemente, discutir se usar uma arma para destruir o drone foi uma medida proporcionada – mas de que outra maneira podia Meredith ter agido para repelir a ameaça aos seus direitos?; podemos também interrogar-nos se, sendo a conduta do proprietário do drone lícita – o que ainda está por provar –, a destruição do drone foi legítima, e se a ponderação dos interesses em conflito justifica a acção de Meredith. A meu ver, sim. O direito à privacidade e reserva da vida privada é infinitamente superior ao da mera diversão – mesmo se não quisermos ou pudermos atribuir intenções dúbias ao proprietário do quadcopter – e sobreleva ao direito de propriedade de quem viola aqueles valores. Pôr a questão de outra maneira é perverter toda a vida social e os valores civilizacionais.

Os drones, além de poderem tornar-se um incómodo generalizado, são também instrumentos que podem ser usados para devassar a vida das pessoas. Curiosamente, estas últimas parecem tão embotadas pela ausência de privacidade que consideram normal esta devassa e reprovam quem, bem ou mal, procura preservar a sua privacidade. Ainda mais estranho, porém, é que o direito milite ao lado dos primeiros e contra estes últimos.

O mundo é estranho.

M. V. M.

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