Eu, daltónico

Estou a fazer mais uma experiência com uma película, o que, por si só, não é grande novidade – eu faço muitas experiências com rolos, mesmo que seja só para voltar aos meus favoritos – mas desta vez é um rolo a cores: o Kodak Gold 200. Porquê esta película? Porque é, a fazer fé nas fotografias que vejo na internet, o mais parecido com o Ferrania Solaris, de que gostei particularmente por me obrigar a fazer fotografias alegres. Mas os rolos que estão à venda estão todos provavelmente expirados e a Film Ferrania tarda em retomar a produção de película.

Bastaram-me algumas exposições para perceber que me tornei completamente alheio à fotografia a cores. Isto pode parecer a coisa mais estranha que leram neste blogue, mas é extremamente difícil fotografar a cores. Eu explico: a evolução da minha fotografia determinou uma preferência por linhas fortes e estruturantes. Nas minhas fotografias, tendo a privilegiar elementos gráficos simples como linhas rectas e ângulos pronunciados. Também aprecio texturas, embora em menor grau. E contrastes. Contrastes fortes e pronunciados, em grande parte pela influência que recolhi de Ray K. Metzker, fotógrafo que me surgiu como uma verdadeira revelação.

A fotografia a cores não me dá nada disto. Ou melhor, pode dar, mas tudo se torna mais difícil. A presença de cor, mesmo subtil, domina por completo a imagem: o olhar abstrai das formas e texturas, das linhas e dos contrastes, para se concentrar nas cores. A cor passa, deste modo, a ser o elemento principal da imagem. O que pode ser bom em algumas fotografias, mas não nas demais. E, no meu caso, essas demais são uma maioria avassaladora.

Fazer com que as fotografias a cores funcionem da mesma maneira que as a preto-e-branco é incrivelmente difícil: as linhas perdem força, os contrastes (com excepção dos contrastes de cores, evidentemente) esbatem-se, as texturas perdem vivacidade. O preto-e-branco e a cor são linguagens antagónicas: os estilos que uma favorece não podem ser replicados pela outra. Por exemplo, a fotografia de rua e a de arquitectura perdem muito se forem feitas a cores. A linguagem gráfica que uso nas minhas fotografias não resulta com cores.

Isto obriga-me a uma busca de motivos que é ainda mais fastidiosa do que o habitual. Quando fotografo a cores, sou obrigado a procurar motivos nos quais a cor seja um elemento predominante, de maneira a fazer fotografias que só façam sentido se o elemento cor for determinante na composição. Isto, para mim, é de uma dificuldade extrema: há muito que abandonei temas nos quais a cor caracteriza a imagem e me dediquei à exploração de formas e linhas graficamente simples, que só resultam se a fotografia for a preto-e-branco.

Por tudo isto, está a ser um verdadeiro tédio esgotar este rolo. É muito mais trabalhoso (e muito menos divertido) fazer um tipo de fotografias a que já não estou habituado. Não gosto de fotografar paisagens, retratos ou flores e, sobretudo, não gosto de fotografar só para ver como é que a imagem vai ficar: quando faço experiências, não gosto de fazer fotografias de teste. O que, evidentemente, só torna as coisas mais difíceis do que já são.

Vendo bem, foi uma péssima ideia usar um rolo a cores. Eu não sou um tipo da cor: sou mais do preto-e-branco. No que concerne à fotografia, sou daltónico. Colourblind – mas não no mesmo sentido que o falecido Colorblind James, autor da canção mais genuinamente humorística e divertida que conheço. Esta:

M. V. M.

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