Glosa a um artigo sobre fotografia de rua

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Por Umbo

O meu texto de ontem foi motivado pelo que li num excelente artigo de Michael Ernest Sweet publicado no The Huffington Post de Terça-feira. Sweet aludia à falta de crítica no contexto da fotografia de rua, que é hoje uma denominação ambígua para uma multiplicidade de (sobretudo) más fotografias.

O problema de M. E. Sweet com a fotografia de rua actual está na quantidade de fotografias medíocres, banais e desprovidas de qualquer sentido que todos os dias são despejadas na internet, em particular nas «redes de partilha». Há, simplesmente, demasiada gente a fazer fotografias nas ruas porque é acessível e não requer talento nem aptidões técnicas: basta ter uma câmara e ir para a rua. «Nas belas artes, é necessário saber desenhar, o que requer muita aptidão e prática. Se estes requisitos forem ignorados e se desenhar mal, a maior parte das pessoas pára de desenhar. Do mesmo modo, no mundo da literatura, quem não for capaz de escrever bem pára de escrever. Curiosamente, não é nada disto que se passa na fotografia de rua. Gente que praticamente não tem aptidões fotográficas, experiência ou visão continua a produzir e a distribuir a sua “fotografia de rua”» – afirma Sweet no seu artigo.

Uma das razões por que isto acontece é o facto de ninguém ser capaz de dizer a essas pessoas o que estão a fazer mal. É neste sentido que a crítica poderia intervir, tornando as pessoas conscientes dos seus erros. O mais provável, porém, é que essas pessoas estejam de tal maneira iludidas pela quantidade de likes que recebem no facebook que acabem por assumir uma posição agressiva contra os críticos, porque é assim que o mundo funciona nestes tempos de amizades virtuais e de reconhecimento instantâneo (embora profundamente falso) que a internet nos trouxe. Em consequência, ninguém se atreve a fazer críticas; quem tolamente o intentasse seria apodado de troll (um troll, para quem não sabe, é alguém que tece comentários agressivos na internet, com o único fim de provocar reacções negativas) e receberia uma enxurrada de respostas adversas. Do «artista de rua», em primeiro lugar, porque este tende a ver as suas fotografias como fantásticas e brilhantes e não aceita que alguém tenha o descaro de pensar de maneira diferente, mas também de outras pessoas que, por serem desprovidas de sentido crítico, vêem num comentário que seja menos que elogioso um ataque pessoal. Como estas pessoas se sentem protegidas pelo anonimato, as discussões tendem a degenerar em insultos soezes.

A maior parte – e, quando escrevo «a maior parte», deve entender-se a esmagadora maioria – das fotografias ditas de rua (só porque são feitas na rua) que se publicam na internet são uma nulidade do ponto de vista estético e não têm qualquer sentido ou mensagem. São, no geral, fotografias de estranhos em situações que pretendem ser comuns, mas são banais: gente sentada em bancos de jardim, pessoas passando em frente a cartazes e grafitos dando origem a sobreposições que o «artista» deve achar engraçadíssimas, transeuntes conversando, pessoas de costas para a câmara, etc. Tudo inexpressivo e mal executado, porque há quem pense que fazer fotografia de rua é fotografar pessoas na rua a preto-e-branco. O que tenha sido a verdadeira fotografia de rua escapa-lhes de todo em todo.

O autor do artigo não a desenvolve, mas lança uma dúvida pertinente: hoje faz algum sentido fazer fotografia de rua? O facto de haver tantas fotografias feitas nas ruas apenas significa que este é o género mais acessível: não precisa de estúdio, iluminação ou tripés. Além de ser sancionado por alguns grandes fotógrafos da história. Contudo, fazer fotografia de rua nos dias de hoje levanta algumas questões. A primeira é que, depois de tantas fotografias de excelência por Kertész, Atget, Doisneau, Cartier-Bresson, Koudelka, Umbo (pesquisem este nome: vão gostar), diCorcia, Chargesheimer ou Marzaroli, já não há muito mais que possa ser acrescentado a este género. Todas as fotografias de rua – ou, se preferirem, feitas na rua – são, de algum modo, revisitações do que foi feito por aqueles mestres. Quer na estética, quer no conteúdo e, sobretudo, nos cenários. Hoje a vida nas ruas da cidade é muito diferente da dos anos 50 do Século passado e, convenhamos, menos interessante: numa altura em que não se vê ninguém na rua que não esteja a falar ao telemóvel ou a folhear o smartphone, há muito pouco para ver nas ruas com real valor fotográfico. O que caracterizava a boa fotografia de rua era a tipicidade de cenários que hoje praticamente não existem. O que resulta da fotografia nas ruas é invariavelmente cliché e nada tem de informativo. Hoje não se vêem as pequenas histórias que faziam a essência da fotografia de rua tal como os grandes a faziam – e, mesmo nas raras situações em que se pode visualizar algo de interessante através do visor, o que daí sai é invariavelmente batido.

A fotografia de rua pode ter muitos praticantes, mas isto é apenas por ser mais uma fórmula de sucesso: fotografa-se uma velhota de costas a caminhar num passeio, converte-se a imagem para preto-e-branco, et voilà: uma fotografia de que até Cartier-Bresson se orgulharia (como provavelmente pensa, estupidamente, o seu autor). Porque não existe, no que se vê na internet, outro propósito que não seja o de agradar aos amigos imaginários e conquistar muitos likes. Não há qualquer intencionalidade fotográfica, não há qualquer cuidado composicional nem há nada que se queira manifestar através do significado de uma imagem – nem podia haver, porque são imagens sem qualquer significado. Estas fotografias são o niilismo fotográfico no seu apogeu.

M. V. M.

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