Por que não há críticos de fotografia?

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/06/d2/ba/06d2ba1958c54577ec510e9248cf93e7.jpg
Fotografia por Oscar Marzaroli

Quando abrimos um bom jornal ou portal de notícias, encontramos uma secção de «cultura»; esta inclui, muito frequentemente, crítica de arte. O teatro, o cinema e o ballet – não necessariamente por esta ordem – têm críticos que, se hoje não são tão influentes como já foram, continuam a ser importantes na formulação da decisão, pelo público, de assistir ou não a um espectáculo.

O mesmo pode ser dito da crítica de música. Mesmo se hoje já não existe nenhum Eduard Hanslick capaz de promover um compositor e adiar ou estorvar o reconhecimento devido a outro, a crítica de música continua a existir e a ser lida pelos mais interessados.

É porventura na literatura que a crítica permanece mais activa, no sentido em que obras literárias são analisadas sob uma perspectiva subjectiva, de formulação de juízos de valor acerca das obras analisadas. Mas, com tanta produção literária – a literatura é hoje uma indústria e o livro é um bem de consumo altamente massificado –, torna-se difícil ao crítico aperceber-se do aparecimento de verdadeiros valores. Estes emergem frequentemente pela acção de lobbies de distintas naturezas, como o dos editores e os políticos e sociais, que promovem determinados escritores por serem vendáveis ou por outras motivações.

Nas artes visuais as coisas são ligeiramente diferentes. A pintura, aparentemente, só cai debaixo do olhar dos críticos quando há exposições – e mesmo assim estas têm de assumir uma dimensão de evento nacional para suscitar recensões. Depois há um decréscimo de interesse crítico à medida que se avança pela lista das artes visuais: a escultura só recebe atenção se houver uma exposição e se esta for inaugurada por um Primeiro-Ministro ou Presidente da República; o desenho é uma forma de arte visual praticamente extinta (infelizmente), só merecendo atenção quando se trata de desenhos de pintores, arquitectos ou personalidades proeminentes; e, depois, há o caso da fotografia, que veremos mais adiante.

Apesar de tudo, as coisas não mudaram muito. A crítica continua a existir; o que não se pode, por ser humanamente impossível, é pedir aos críticos que acompanhem toda a produção artística. A arte merecedora de elogio crítico continua a existir; o que está é soterrada sob uma massa descomunal de produções medíocres, o que torna difícil aferir o seu verdadeiro valor. Esta proliferação significa, além da obnubilação da qualidade, que existe uma miríade de criações que, de tão pobres, não merecem qualquer juízo crítico. Tudo o que se pode fazer quanto a esta torrente de criações pseudoartísticas é invectivá-la no seu conjunto.

Quanto à fotografia, a questão pode ser posta em termos muito simples: não existem críticos de fotografia. Existe, decerto, muita gente a opinar sobre fotografia, mas esta não é vista como uma forma de arte pelos críticos tradicionais (o Jonathan Jones não pertence a esta categoria). Por vezes alguns jornais dão conta de exposições de fotografia (desde que as considerem importantes) e até são capazes de publicar um juízo de valor – invariavelmente laudatório – sobre as obras expostas, mas ainda estou para ler uma crítica a uma fotografia de um autor contemporâneo (esperar que essa crítica fosse desfavorável seria, porventura, pedir demasiado).

Evidentemente, essa crítica de uma fotografia contemporânea não vai acontecer. Há muito que os críticos deixaram de catalogar a fotografia entre as artes e, se a massificação da literatura a que aludi acima, com a dificuldade em seleccionar o que é verdadeiramente bom que implica, é verdadeira, na fotografia é-o dez mil vezes mais. Encontrar uma boa fotografia entre os biliões que as pessoas publicam obsessivamente todos os dias é quase impossível.

A ausência de críticos tem um efeito duplo: como não há ninguém que se predisponha a descobrir talentos – quem se dedica a isto são instituições como a Estação Imagem e o Centro Português de Fotografia –, os aplausos vão sempre para os mesmos. Estes mesmos, como as duas ou três pessoas que escrevem sobre fotografia não sabem senão elogiá-los de forma absolutamente acrítica, tornam-se relaxados e inexigentes por saberem, de antemão, que qualquer coisa que façam recebe automaticamente o estatuto de obra-prima. O que significa, por outras palavras, que a fotografia, enquanto forma de expressão artística, está a estagnar.

É isto que a ausência de críticos faz: impede o surgimento dos novos e torna os velhos preguiçosos, sem nada de novo para dar. Isto explica muita coisa…

M. V. M

Anúncios

1 thought on “Por que não há críticos de fotografia?”

  1. Interessante o ponto de vista, e até a observação de não existir criticos de fotografia. Confesso que a primeira ideia que me veio á cabeça foi:É por que não passaram pelas minhas aulas de cinema! Depois contínuei a leitura para por fim quase que concordar. e Porquê quase? Acho que quem sabe de fotografia sabe também o quanto é dificil e caro permanecer como profissional na area. Em resumo, conhece bem todos lados da vida, e para quem já viu muito, dizer mal de A ou B, ou julgar quem quer que seja, esvazia a vontade de dizer, anunciar ou sequer de falar. Por isso, sim é verdade, não existem criticos de fotografia.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s