Mais uma descoberta: Oscar Marzaroli

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Ainda há pouco escrevi sobre uma fotografia que descobri no interior da capa de um LP. Agora vou fazê-lo outra vez, mas prometo-vos que vai ser um texto muito diferente do anterior.

A minha relação com os discos não é a mesma de há doze anos: por essa altura comprava tudo o que era novidade e aqueles discos cuja falta eram lacunas importantes na minha discografia. Mais tarde os tempos tornaram-se penosos; passavam-se anos sem que eu comprasse um único disco. Mesmo depois de a penúria ter atenuado, porém, as minhas aquisições discográficas nunca mais voltaram a ser o que já foram. Olhava para a minha colecção, composta sobretudo por novidades que ia comprando, e pensava se fazia algum sentido acumular discos que já não tinham qualquer interesse, ou que simplesmente já não me apetece ouvir.

Houve também, durante este período, uma mudança na minha apreciação musical: descobri Anton Bruckner. A minha maneira de ouvir música mudou por completo. De súbito, tudo o que ouvira até então – o que incluiu muitos compositores ditos clássicos – ficou reduzido à dimensão de trivialidades. Não deixei, de maneira nenhuma, de ouvir pop e Jazz – mas agora faço-o com a consciência de que são divertimentos baratos. Divertem, mas o seu valor é muito relativo. A ideia de haver virtuosos no Rock faz-me hoje rir de tanta pretensão. Continuo a ouvir música pop, mas ciente de que são coisas com um valor muito relativo. (O que, apesar de tudo, não me rouba muito prazer.)

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Foi por causa de tudo isto que deixei de ser um consumidor ávido de música. Não que tenha deixado de me comprar discos: o que sou é mais selectivo. Há cerca de três anos, comprei um LP duplo: uma colectânea de uma banda de que gosto quase incondicionalmente, chamada Love and Rockets. Os Love and Rockets são os elementos que ficaram dos Bauhaus quando Peter Murphy saiu em 1983, mas a sua música favorece os tons maiores, embora seja densa e feita de atmosferas mais carregadas do que a dos Bauhaus.

Pois bem (e voltando ao tema pertinente para o Número f/): Sorted!, a colectânea dos Love and Rockets, inclui uma fotografia na contracapa do LP. Uma fotografia de rua, a preto-e-branco, com uma dimensão espacial e uma temática que me são familiares depois de ter visto tantas fotografias de grandes fotógrafos. Nesta fotografia, três rapazitos brincam calçando sapatos de mulher, de salto alto, numa rua de Glasgow. Embora indiscutivelmente original, esta fotografia lembrou-me outras de Robert Doisneau. Uma leitura dos créditos – ao contrário de Unknown Pleasures, é feita menção do autor da fotografia – fez-me saber que o fotógrafo era Oscar Marzaroli, um escocês de descendência italiana. Evidentemente, tratei logo de fazer uma pesquisa sobre Oscar Marzaroli.

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Descobri um fotógrafo interessantíssimo. As suas fotografias alinham pelos padrões da fotografia de rua de Robert Doisneau, mas também de Chargesheimer, Koudelka e mesmo William Klein e Mary Ellen Mark. Não quero dizer, com isto, que Marzaroli não era extremamente original: apenas que se inseria no mesmo estilo que os fotógrafos mencionados, o que é muito diferente. (Ou pelo menos sou eu quem vê essas semelhanças.)

Seja como for, a fotografia de rua de Oscar Marzaroli é uma composta por ruas desoladas, pobres, sujas – mas são fotografias gloriosas na sua beleza e nos conteúdos. São fotografias que mostram a vida na Glasgow dos anos 60, fotografias cheias de consciência social e de enorme humanidade.

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Este é, em definitivo, um fotógrafo que vale a pena conhecer. O facto de o ter descoberto através de um disco dos Love and Rockets pode ter qualquer significado que queiramos atribuir-lhe: um acaso?, ou uma prova de bom gosto e cultura fotográfica de David J, que foi quem se encarregou do trabalho gráfico de Sorted!? Vamos ser generosos e admitir que foi esta última. O Rock pode ser uma arte menor, mas tal não significa que todos os seus cultores sejam gente de gostos banais. Aliás, quem conhecer a música dos Bauhaus sabe que aqueles quatro são tudo menos gente de gostos banais.

M. V. M.

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