Como fazer fotografia de rua sem fazer figura de parvo

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O tema do relacionamento entre as pessoas e a forma como deve ser usado na fotografia de rua, que abordei mais ou menos ao de leve no texto de ontem, merece mais algum desenvolvimento. Uma vez que eu sou um pouco tímido – ou talvez pessimista, ou descrente nas qualidades dos outros –, é-me por vezes difícil abordar estranhos e pedir-lhes para fotografá-los. Quando o faço, obtenho por vezes reacções negativas, mas nada que seja particularmente violento ou traumático: às vezes recebo, como resposta, um simples abanar da cabeça no sentido horizontal. Por regra, a conversa termina aí mesmo; quando recebo estas recusas, não insisto; despeço-me com uma fórmula, que pode ser «tudo bem» ou outra qualquer – dependendo da pessoa que me tinha proposto fotografar. Poderia contornar estas recusas fotografando furtivamente ou sendo descarado e fotografando sem sequer dirigir uma palavra à pessoa fotografada, mas não faço nem uma nem outra.

Não fotografo furtivamente porque qualquer tentativa de fazê-lo é inútil; pode até redundar no enxovalho e no ridículo. Por um conjunto de circunstâncias que não vale a pena estar a aprofundar (mas que poderão, eventualmente, ser o sintoma de uma sensação generalizada de medo), as pessoas que andam na rua estão mais atentas do que nunca e apercebem-se facilmente de todo e qualquer movimento que lhes pareça estranho. Fotografar furtivamente implica movimentos dessa natureza. Sinceramente, um sujeito com uma câmara parcialmente escondido atrás de um poste de iluminação ou de um muro pode pensar que está a ser discreto e a passar despercebido, mas não está. O seu comportamento é de tal maneira anómalo que qualquer pessoa minimamente atenta se apercebe da sua presença.

O excelente Carlos Machado, formador no Workshop de Técnicas Fotográficas do Instituto Português de Fotografia que frequentei em 2011, disse, numa das sessões, algo que ficou gravado na minha memória: «Eu, quando fotografo, gosto de dizer ao que venho». Embora essas palavras me tenham parecido contraditórias com os propósitos da dita «fotografia de rua», hoje parecem-me particularmente acertadas. Agora, quando tenho interesse em fotografar pessoas, prefiro mostrar-me com a câmara, sem qualquer tentativa de ser candid. Se vejo que a pessoa em questão se sente desconfortável, não a fotografo ou abordo-a. Fotografar furtivamente é abjecto: diminui o fotógrafo e fá-lo passar por um idiota – ou um tarado, na pior das hipóteses.

O descaramento, entendendo-se como tal fotografar alguém sem pedir consentimento e mesmo contra a vontade da pessoa, também não me parece uma prática boa de seguir. Demonstra, antes de mais, sobranceria. E também desprezo pelas pessoas, ignorando grosseiramente o direito que estas têm à sua privacidade. É muito fácil, a quem procede assim, esgrimir argumentos jurídicos: «eu tenho o direito de fotografar em lugares públicos», ou «o que pode ser visto pode ser fotografado». Ops – quem pensa assim não é jurista, pois se o fosse saberia que este não é um direito absoluto e que, mesmo que o fosse, existe uma barreira a que os juristas chamam abuso do direito. Nem tudo o que é legal é necessariamente legítimo, e a própria lei contém em si um limite – a honra, reputação ou simples decoro da pessoa fotografada.

Simplesmente, se é certo que é permitido fotografar pessoas em lugares públicos sem o seu consentimento, também o é que há questões que ultrapassam largamente a esfera do jurídico. Tenho conhecimento de histórias de fotógrafos de rua que se viram em apuros por fotografarem pessoas sem o seu consentimento. Mesmo que os primeiros tenham o direito de fazê-lo, deveriam compreender que nem toda a gente aprecia ser fotografada. Mais vale conversar um pouco, ou mesmo desistir da fotografia se a pessoa não quer mesmo ser fotografada. Ela merece essa consideração. Usar o argumento do direito é muito interessante, mas não pode, de forma alguma, colidir com o respeito que é devido aos outros.

Estabelecer um bom relacionamento interpessoal tem várias vantagens: permite conhecer melhor as pessoas e obter destas uma atitude colaborativa. É certo que as pessoas têm uma tendência instintiva para posar quando se deixam fotografar, o que explica que alguns fotógrafos de rua prefiram ser furtivos para obter fotografias espontâneas, mas é possível evitar esta propensão para posar para a câmara. Bastam duas ou três palavras. Há dias fiz a fotografia que ilustra este texto, na qual um grupo de cinco jovens sentava nos degraus da Praça D. João I num momento de convívio e descontracção. O enquadramento era tão interessante, com duas raparigas sentadas no chão frente a frente enquadrando dois dos rapazes que sentavam nos degraus, que não resisti. Perguntei-lhes se podia fotografá-los, e eles acederam. Todos olharam para a câmara, mas eu persuadi-os a comportarem-se espontaneamente, ignorando a minha presença. Isto fez com que a fotografia resultasse espontânea e natural.

Como vêem por este texto e pelo de ontem, não se perde nada em chegar à fala com as pessoas que se quer fotografar. Isto, notem bem, está a ser escrito pelo M. V. M., que foi agraciado à nascença com uma timidez inexplicável. Felizmente, o meu interesse pelas pessoas faz-me superá-la. É muito pior ser apanhado numa atitude esquisita, ao tentar ser furtivo, do que receber uma recusa. E, quando as pessoas consentem, a experiência fotográfica pode ser extremamente recompensadora.

M. V. M.

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