Como passei o fim-de-semana

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O meu fim-de-semana fotográfico foi estranho. No Sábado decidi ir para a praia de manhã, mas com a máquina fotográfica. Fiz duas fotografias. Estava completamente desinspirado e resolvi parar antes de começar a fazer fotografias só por fazer. Os rolos que uso são demasiado caros para isso.

Felizmente o Domingo foi diferente. A disposição era muito melhor e a vontade de fotografar também. Caminhei até à Ribeira para fotografar saltos da Ponte – não vou desistir até fazer a fotografia de saltos perfeita – mas a meio-caminho deparei com um grupo de jovens que se divertia a saltar para a água a partir da plataforma que serve de heliporto à Douro Azul e de cais às secções de remo e canoagem do Portus Cale. Fui ter com um dos mais velhos e perguntei-lhe se eles se importavam que fotografasse. (Eu devo dizer que tenho notado, em muitas pessoas com quem me cruzo, uma grande falta de predisposição para se deixarem fotografar, pelo que, quando faço fotografias de pessoas, ajo com todo o cuidado possível.)

A reacção do jovem foi absolutamente surpreendente (pelo menos para mim): em menos de um minuto, todos eles estavam dispostos a deixar-me fotografar os seus saltos. Alguns deram-me indicações sobre quais consideravam os melhores lugares para fotografar. Depois de algumas fotografias, propuseram-se dar um salto em conjunto. Estavam, claramente, a dar espectáculo… para mim!

É curioso ver como funcionam as relações humanas. Uma simples frase, dita com a dose necessária de simpatia e sinceridade, abriu-me todas as portas. Se tivesse tentado fotografar furtivamente, ou sem pedir consentimento, a reacção dos jovens teria decerto sido muito diferente.

Uma lição que retiro daqui – para além da verificação do facto óbvio que o povo do Porto é sensacional, o que não é novidade nenhuma – é que vale sempre a pena interagir com quem queremos fotografar. Ter uma recusa não é nenhum trauma: devemos saber respeitar a vontade das outras pessoas. E, apesar de ainda querer fotografar pessoas em poses espontâneas, procurando agir com a maior discrição possível, cada vez me parece mais condenável fotografar furtivamente. Ser um stalker é uma tristeza. Não só é uma tristeza como tem o efeito contrário do pretendido, porque é um comportamento de tal maneira suspeito que atrai imediatamente a atenção das pessoas pela sua estranheza.

Há outra conclusão a que estou progressivamente a chegar. Já não me interessa fazer fotografias que não tenham pessoas. Estou cada vez mais arreigado à convicção de que o propósito das minhas fotografias deve ser retratar a vida em todos os seus aspectos. Cada vez me parece fazer menos sentido fotografar objectos – pelo menos sem a presença de pessoas. Claro que surgirá sempre uma ou outra fotografia em que não figure ninguém no enquadramento, mas essas fotografias desertas de gente parecem-me sempre inanimadas e desoladas.

Isto está, evidentemente, a comprometer um tipo de fotografia a que me dediquei apaixonadamente até há muito pouco tempo: a fotografia de automóveis. Já não faz sentido. Há cerca de um mês, passei pela Praça Parada Leitão e descobri uma parada (desculpem, não é para ser um trocadilho…) de automóveis clássicos italianos. Entre eles havia um Lancia Stratos e um De Tomaso Pantera GTS. Não fiz uma única fotografia: simplesmente pareceu-me um tema desinteressante e completamente fora das minhas intenções fotográficas. No meu julgamento, teria desperdiçado fotogramas se tivesse fotografado aqueles automóveis. O que não significa que tenha deixado de considerá-los espectaculares, mas uma coisa é um objecto ser espectacular e outra é ser merecedor de ser fotografado: são qualidades muito distintas.

E hoje, depois da sessão memorável com os jovens de Massarelos, passei pelo parque de estacionamento da Alfândega. Estavam lá alguns automóveis belíssimos, entre eles dois Chevrolet Corvette (um era o modelo de 1958, o outro era da terceira geração) absolutamente espectaculares. Não os fotografei. Nem os Corvette, nem nenhum dos outros. Simplesmente não é o género de fotografia que quero fazer, nem quero fotografar só porque sim. Estou a atravessar uma fase em que sinto necessidade de encher as fotografias de algum sentido, e este só me parece atingível se as fotografias incluírem a vida das pessoas.

M. V. M.

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