Ambivalente


Peço desculpa por voltar a escrever sobre películas, assunto que preocupa aproximadamente 0,0000000001% da população mundial, mas fui motivado por uma fotografia que fiz em Maio (podem vê-la aqui) e que me fez aperceber-me de como um particular rolo funciona.

A minha relação com o Ilford HP5 é extremamente ambivalente: nos aspectos principais de contraste e nitidez, as suas diferenças em relação ao FP4 são pouco discerníveis – o que é excelente numa película com uma sensibilidade ASA 400, que é considerada alta pelos padrões peliculares. Nestes particulares, o HP5 é superior ao Tri-X da Kodak – embora aceite que, para muitos, tanta nitidez possa ser excessiva. Seja como for, estas características (que são comuns a todos os Ilford que experimentei) adequam-se bem à minha forma de fotografar.

Nunca pude, porém, estabelecer o HP5 como o meu favorito para velocidades altas. Esta película tem demasiado grão, mas não é bem a quantidade que me preocupa: o Tri-X também tem muito grão. O que me impede de usar o HP5 regularmente é o facto de este grão ser demasiado grosseiro. Voltando à comparação com o Tri-X (que é inevitável, por razões óbvias), o grão do Kodak é abundante, mas mais fino. Usar o Tri-X significa conseguir um grão que contribui para a imagem; o Ilford, por vezes, torna-se destrutivo. Não tanto como o ruído numa má imagem digital, mas quase.

(A este propósito, posso recordar que foi há pouco tempo que acordei para a triste realidade de que o formato 135 é de uma qualidade que deixa muito a desejar. O que leio sobre o HP5 para médio formato – i. e. em rolos 120 – é geralmente muito favorável, porque nestas películas o grão não é um problema sério – ou, pelo menos, tão sério como nos rolos 135).

Contudo, há um número de fotografias em que o grão do Ilford HP5 resulta muito bem: contribui para as texturas e para aquilo a que se convencionou chamar o carácter de uma fotografia analógica: as fotografias feitas com este rolo não deixam dúvidas quanto ao meio empregado: são gloriosamente analógicas. Com ventos e marés favoráveis, até pode acontecer que o grão do HP5 não seja visível de todo e não interfira na apreciação da imagem. Nestas fotografias, o HP5 é simplesmente esplêndido: o seu contraste parece mais o de uma película de baixa velocidade que o de uma ASA 400 e a sua nitidez é simplesmente soberba.

A fotografia para a qual estabeleci a ligação (se a tiverem passado, podem abri-la aqui) é uma excepção. A textura favorece as características de grão e o próprio motivo parece beneficiar da maneira como o HP5 descreve a imagem. Foi um caso de ter o rolo certo para a fotografia certa. Há outras fotografias que beneficiam do HP5, mas há também muitas outras a que este rolo não presta nenhum favor: todas as que tenham rostos, desde logo. Há fotografias em que o grão é tão grosseiro que as pessoas parecem ter sarampo. E, de maneira geral, aquelas em que interessa preservar o pormenor.

Bastará isto para o usar sempre que quiser fotografar com pouca luz? É aqui que começa a minha ambivalência: o Tri-X nunca foi um rolo que me satisfizesse por completo e os rolos de grão tabular que experimentei – Ilford Delta 400 e Kodak T-Max 400 – não me entusiasmaram muito (embora o Delta 400 tenha, no essencial, as qualidades típicas dos Ilford). O HP5 dá-me algo que nenhuma das películas que enumerei é capaz: expressividade. Se a intenção for fazer fotografias deliberadamente granulosas – cheias de «carácter» analógico – sem resvalar para a frivolidade do lo-fi, este é o rolo ideal.

Se isto basta ou não para que o use regularmente é o que ainda me falta decidir. O ideal seria uma película que conjugasse o grão subtil do Tri-X com a nitidez e o contraste do HP5. Hélas, essa película não existe. O Tri-X seria a escolha óbvia se eu tivesse uma Leica ou uma Nikon, com a nitidez fora de série das suas lentes, mas não tenho. Com o meu material, obtenho melhores fotografias usando os Ilford. Aparentemente, a minha busca ainda não terminou…

M. V. M.

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