Age of plunder

https://i2.wp.com/s3.amazonaws.com/rapgenius/1358802459_joy-division_unknown-pleasures_shes-lost-control-1979.jpg

Ontem de tarde, depois de mais uma sessão fotográfica que consistiu em cinco fotografias – é possível que esteja a exagerar na minha frugalidade fotográfica –, cheguei a casa com uma vontade incontrolável de voltar a um dos grandes LPs da história da música alternativa: Unknown Pleasures, dos Joy Division. Não sei por que me deu para isto – eu não me sentia particularmente deprimido, nem nada que se parecesse –, mas tinha de ouvir Day of the Lords, senão morria. (Depois, por arrasto, vieram New Dawn Fades e Shadowplay, que me souberam muito bem: o mundo não parou nos anos 80, mas passou por eles!) Day of the Lords pode não ser reconhecida entre as melhores dos Joy Division, mas para mim é a melhor: é perfeita. E, sem ela, não havia Bauhaus nem Sisters of Mercy ou Fields of the Nephilim.

Ouvir estas canções hoje é estranho, porque continuam a soar a novas. A única coisa que denuncia a idade de Day of the Lords é a bateria, que não soa tão potente como devia. Seja como for, a produção de Martin Hannett resultou num som que ainda hoje é uma referência.

Depois há o artwork. Eu tenho a felicidade de ter uma edição em vinil de 180g, com uma capa em cartolina de textura rugosa e tudo. Nada de quadradinhos minúsculos vistos através de plástico: é um LP, nos seus gloriosos 30cm de lado. Penso que toda a gente conhece a capa de Unknown Pleasures (já devem, pelo menos, tê-la visto em T-shirts, mas se não a tiverem visto, é a imagem do topo), mas depois há a manga interior, que já não conhecia a luz do dia há muitos anos e ontem me deu para ver. Evidentemente, não pude deixar de reparar na fotografia ali impressa.

2989675_orig

Eu sabia! Aquela fotografia não me era estranha: nunca o foi. Quando a vi no livrinho da Taschen que me fartei de referir há alguns meses, a impressão que me causou não foi apenas o arrepio frio induzido por aquela silhueta negra de uma mão sem corpo: foi uma sensação de dejà vu. Eu já tinha visto aquela fotografia, mas não me lembrava onde. Ontem lembrei-me: a primeira vez que vi aquela fotografia foi, não no tal livrinho, mas na manga interior de Unknown Pleasures. Simplesmente não me lembrava.

A fotografia é uma de Ralph Gibson que incluí entre as melhores de sempre. Continua a sê-lo: posso ser volúvel, mas não tanto que mude de preferências só por causa de um caso de dejà vu. Consultei os créditos, minimalistas como em todos os discos dos Joy Division: encontrei o nome do produtor, do técnico de estúdio e do autor do artwork, Peter Saville – mas em lado nenhum aparece o nome de Ralph Gibson. Lamentável. Simplesmente lamentável.

Esta inclusão não autorizada nem mencionada da fotografia de Ralph Gibson na manga interior de Unknown Pleasures faz parte de um fenómeno mais geral que Jon Savage, num artigo interessantíssimo que escreveu para The Face em 1983, apodou de plunder. Ao longo das poucas décadas de subcultura pop, artistas gráficos, músicos e produtores apoderaram-se sistemática e despudoradamente de obras de outrem. Obras originais foram pilhadas e adoptadas sem decoro, imitou-se descaradamente o que outros fizeram e, em alguns casos, simplesmente roubou-se (é este o significado de plunder) o trabalho de outrem. No caso da fotografia de Ralph Gibson, a história é que foi Steve Morris, baterista dos Joy Division, que a descobriu e surgiu com a ideia de incorporá-la no design de Unknown Pleasures. Morris tinha vinte anos nessa altura, sendo mais ou menos perdoável que desconhecesse de quem era a fotografia, mas o mesmo não se pode dizer de Peter Saville, que fazia do design profissão. Este mesmo Peter Saville, como se mostra no artigo The Age of Plunder, voltou a surripiar ideias alheias para as capas de um álbum e um EP dos New Order – banda que sucedeu aos Joy Division depois do suicídio de Ian Curtis –, mas isto, afinal, inseria-se numa tendência geral.

Quando Jon Savage escreveu o artigo, estava porventura longe de imaginar o que viria a seguir, nos anos 90, quando se generalizou o uso de samples para fazer música. Alguns incluíam informação sobre as obras de onde os samples foram extraídos, mas outros não. Tenho um álbum de uns Coldcut, chamado Let Us Play, no qual Matt Black e Jonathan Moore (que são também os mentores da editora Ninja Tune) se gabam, numa nota escrita, de o disco não ter uma única nota tocada por eles. É uma colagem de notas e frases musicais que outros criaram. Um pouco como as fotografias de Richard Prince

Uma boa parte da arte contemporânea consiste, deste modo, numa espécie de chafurdice em que o «artista» faz pouco mais que pilhar ideias alheias. Isto é um sintoma de mediocridade, no sentido em que hoje não é preciso ser-se capaz de criações originais para ter êxito: basta copiar o que outros fizeram. Impunemente. Como quem consome este tipo de arte não tem grandes conhecimentos, os «artistas» pensam que podem fazer tudo o que lhes apetecer, porque ninguém vai perceber. Até ao dia em que o autor genuíno descobrir e levarem com um processo em cima, o que é muito bem feito mas dificilmente acontece, porque os verdadeiros criadores olham para estes pastiches com alguma sobranceria, não se dignando conceder-lhes mais que umas fracções de segundo de atenção.

Talvez seja exactamente isto que estes usurpadores merecem: se Ralph Gibson tivesse movido uma acção contra a Factory, Peter Saville ou os Joy Division, teria provavelmente sido ridicularizado – o que é outra marca dos tempos actuais.

Fiquei um pouco aborrecido com estas descobertas. Peter Saville é um artista gráfico por quem sempre nutri uma admiração fervorosa: ele fez capas absolutamente soberbas e usa um estilo minimalista, escorreito e elegante. As capas de Closer (Joy Division) e Substance (New Order) são simplesmente maravilhosas na sua simplicidade e elegância. Espanta-me, pois, que se tenha deixado arrastar pela tentação fácil do plunder em lugar de procurar criar algo verdadeiramente original, como sempre provou ser capaz.

M. V. M.

Anúncios

1 thought on “Age of plunder”

  1. Por falar em copiar… faço aqui publicamente a minha meia culpa, por na adolescência (tempo em q a semanada apenas dava para o lanche da escola), ter despudoradamente copiado as discografias do JoyD, Cure, Pixies e Smiths, a partir dos discos de vinil do meus fieis amigos e vizinhos…!

    Mais tarde já em tempos da faculdade, tive oportunidade de comprar algumas dessas versões em CD, mas por essa razão, já estava distante do “prazer tido” nas longas tardes q passava com as grandes capas de “cartão” na mão..!

    Um meia culpa próximo, do q fora em tempos, o criminoso acto de copiar jogos em cassete para o Spectrum ZX, saudoso “bouble bouble”!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s