A mãe de todos os conselhos

Ainda bem que não sou um opinion maker da fotografia. Deste modo sou poupado a comentários e e-mails de novatos perguntando-me que câmara deviam comprar.

Comprar uma câmara devia ser um acto exclusivamente individual. Num mundo ideal, o novato adquiriria a câmara que melhor conviesse às suas aspirações e à sua maneira de fotografar, mas mesmo não sendo assim que as coisas se passam, dar conselhos nesta matéria é absurdo: o conselheiro tenderá sempre a recomendar câmaras que conhece ou de que gosta. É por esta razão que fico contente por não ter ninguém a fazer-me essa pergunta: se recomendasse uma câmara a uma pessoa que pedira o meu conselho e aquela não o satisfizesse, carregaria uma culpa eterna sobre os ombros.

Isto não quer dizer que essa pessoa (inexistente) ficasse sem uma resposta. Não recomendaria a câmara x ou y, mas, mesmo correndo o risco de parecer um lunático, aconselharia um iter para o novato verdadeiramente interessado em fotografia:

1. Compra uma máquina SLR de película. Estas câmaras são baratas e duram uma eternidade, há bons rolos a dar com um pau – e muitos deles a preços surpreendentes – e há certamente um laboratório nas imediações para revelar e digitalizar os teus negativos.

Por que faço uma recomendação tão estranha, nestes tempos em que o digital equivale a 98% do mercado? Porque a película ensinará ao aspirante a fotógrafo tudo que há para saber sobre fotografia; sobre a técnica, com certeza, porque estando privado do hábito detestável de ver as fotografias no ecrã logo depois de tirá-las (o chimping), o aprendiz terá de desenvolver as suas competências e aprender a confiar nos seus conhecimentos, mas o conteúdo das fotografias também vai ser beneficiado, já que o aspirante vai tornar-se mais selectivo ao aprender que cada fotografia tem um custo. É importante contrariar a tendência, que vem com o uso de câmaras digitais, de fotografar tudo o aparece à frente dos olhos: não há nada a aprender com isto. A película vai fazer o novato perceber que cada fotografia tem (deve ter) um valor intrínseco.

2. Uma vez dominada a máquina de película, podes concluir que te apaixonaste pelos rolos ou que as limitações deste meio estão a impedir-te de progredir. No primeiro caso, compra uma máquina de película de médio formato. Se, contudo, descobriste que o uso de película estava a limitar a tua progressão, compra uma câmara mirrorless da Sony, Panasonic ou Olympus. Com esta aquisição poderás usar facilmente uma infinidade de lentes em segunda mão, mas de excelente qualidade e preço baixo, que podes usar através de adaptadores (os quais também não são caros). E, evidentemente, já tens as lentes da máquina de película para usar, pelo que não vais ter de gastar muitas centenas de euros com lentes «digitais». Claro que a experiência anterior com uma SLR te familiarizou com a focagem manual, pelo que vai correr tudo bem – mesmo que vás sentir muito frequentemente a falta de um bom ecrã de focagem, porque essas coisas do MF Assist e do Focus Peaking não têm, nem de perto nem de longe, a precisão dos microprismas de um ecrã de focagem.

3. Claro que nada disto se aplica se só queres tirar umas fotos casuais e partilhá-las, caso em que ficas mais bem servido se fotografares com o teu smartphone. No entanto, se seguires este meu conselho, tal significa que tens um interesse verdadeiramente sério em tornares-te num fotógrafo. Tens de estar preparado para algo que pode parecer absurdo, dada a profusão de fotografias digitais e de meios para a usar que existem hoje: é que a fotografia não é fácil; há uma curva de aprendizagem muito acentuada que é necessário vencer antes de obter resultados minimamente aceitáveis.

Isto é o que eu devia ter feito em lugar de ter começado com uma câmara digital. Hoje olho para as minhas primeiras imagens – as minhas primeiras 20.000 imagens! – com um sentimento de vergonha. Eles foram um completo desperdício de tempo. Tivesse eu começado com a OM, e teria poupado muito tempo e muitos vexames.

4. Tira um curso de fotografia, ou pelo menos participa num workshop. Por muitos ensinamentos que possas retirar da internet, e por muitos bons conselhos que recebas, nada substitui uma aprendizagem verdadeira e própria, com alguém que sabe muito mais que tu e num estabelecimento credível. Eu participei num workshop do Instituto Português de Fotografia; foi caro, mas os ensinamentos que recolhi foram inestimáveis. Foi a única coisa em que acertei…

M. V. M.

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