Ser original

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«Vor der Prozession», de Chargesheimer

A fotografia que escolhi para este texto é de Karl-Heinz Hargesheimer, fotógrafo alemão que se apresentava sob o pseudónimo Chargesheimer. Não a escolhi por acaso: olhando-a, muitos poderão pensar que já viram milhares de fotografias iguais, ou muito parecidas. Aconteceu comigo quando a vi pela primeira vez: pareceu-me uma fotografia igual a tantas outras.

Esta impressão tem a sua razão de ser, embora seja erróneo pensar assim. Com a vulgarização da fotografia de rua e a quantidade de pretendentes a novos Cartier-Bressons que pululam nas redes sociais, é muito natural que existam milhares de fotografias muito idênticas. Simplesmente, se é verdade que esta Vor der Prozession desperta sensações de familiaridade, podendo mesmo ser tida como vulgar, ela não pode ser vista com essa simplicidade: é que Vor der Prozession foi feita em 1958. Nesse tempo ainda não existiam câmaras digitais nem facebook nem cento e oitenta e sete milhões de aspirantes a fotógrafos de rua.

Hoje há milhares de pessoas capazes de qualquer coisa em troca de reconhecimento – ainda que este seja fátuo e absolutamente irrelevante, medido pela quantidade de likes. Fazem-no da pior maneira possível, copiando o que outros fizeram muitos anos antes e adoptando estilos e temas batidos, que sabem de antemão que irão suscitar reacções positivas. Já escrevi inúmeras vezes sobre isto, mas nunca (penso eu) do ponto de vista da criação original.

Esta profusão de fotografias que a era digital permitiu – e que a internet potencia – tem um efeito em que muito poucos pensam: rebaixa as fotografias originais. Ao contribuir para a banalização da criação fotográfica, faz com que se percam de vista as fotografias que serviram de inspiração aos pretendentes a fotógrafos de rua. O público que vê as fotografias publicadas na internet não conhece a obra dos mestres e não faz ideia de quem são Chargesheimer, William Klein ou Phillip-Lorca diCorcia. A imitação é tomada por obra-prima e as criações genuínas são soterradas neste imenso lamaçal de mediocridade.

Depois disto, não surpreende que as fotografias que inspiraram os génios do facebook sejam menosprezadas e vistas como vulgares – quando têm um valor que não pode sequer ser seriamente comparado ao das imitações a que deram origem. No caso da fotografia de Chargesheimer que me deu o pretexto para escrever estas linhas, ela não tem nada de vulgar – mas só uma pessoa informada a vê na sua dimensão real, caso em que poderá perceber que é uma fotografia altamente invulgar, quanto mais não seja por descrever uma cena de rua passada num tempo e lugar (Alemanha) cujas noções de decoro tornavam altamente improvável que se pudesse ver uma mulher na rua envergando um roupão e calçando chinelos. Contudo, esta fotografia deve, hoje em dia, ser vista por uma minoria ínfima de pessoas – das quais apenas uma pequena parte a saberá apreciar: a maioria tenderá a pensar que é uma fotografia banal.

Se alguém tem aspirações a tornar-se um fotógrafo de mérito, devia procurar sê-lo através de criações originais, em lugar de seguir o trilho fácil da imitação. Este último rebaixa a fotografia ao banalizar os seus motivos e, sinceramente, não faz nenhuns favores a quem por ele envereda. O pior, porém, é que é horrível que se olhe hoje para uma fotografia excelente e não se lhe dê o devido valor por haver milhões de fotografias muito parecidas.

O único significado desta profusão é que todos correram atrás de um estilo, porventura convencidos que isto lhes traria benefícios. Pode trazer um reconhecimento momentâneo junto de um público que não é tão vasto como parece, mas há algo que a imitação nunca trará: prestígio. Se Chargesheimer, Cartier-Bresson, Robert Doisneau e tantos outros o conseguiram, não foi decerto por terem decidido fazer fotografias iguais a outras que viram antes para agradar a muita gente. O seu sucesso consistiu na procura de formas de expressão novas e na busca de um estilo pessoal. Não posso esperar que os aspirantes a fotógrafos de rua da internet compreendam isto. Eles vão continuar a abastardar a fotografia como sempre o fizeram, sem sequer se darem conta do que estão a fazer. Limitam-se a seguir o caminho mais fácil e contentam-se com isso. Temos pena.

M. V. M.

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