Coisas que não se vêem todos os dias

Eu tenho uma característica que me vem da infância e, aparentemente, ainda não perdi: quando ando pelas ruas e vejo um objecto que me interessa, sou capaz de parar e observá-lo demoradamente. Nem toda a gente entende isto, mas felizmente algumas pessoas percebem que o faço por um fascínio quase infantil. (Eu li algures que nós nunca crescemos verdadeiramente: apenas aprendemos a comportar-nos em público.)

Alguns automóveis e motas fazem-me frequentemente parar e observá-los atentamente. Na semana passada foi uma mota: era uma Ducati Scrambler. Penso que esta é a mota mais bonita actualmente em produção, talvez a par com a Triumph Bonneville. Enquanto, porém, a mota britânica é uma mota clássica com alguns refinamentos que a actualizaram, a Ducati é uma mota que só é retro nas linhas (que se inspiram na Scrambler original, a qual era uma mota monocilíndrica feita para o mercado americano): tem um motor de válvulas desmodrómicas (isto quer dizer, grosso modo, que a subida e descida das válvulas é accionada por uma alavanca e não através de uma mola, como nos motores convencionais) e a ciclística é perfeitamente actual, com suspensão traseira unilever tal como a Ducati Monster, um quadro de geometria moderna e travões de discos perfurados em ambas as rodas. Dizer que a mota é linda é um simplismo: a nova Scrambler é bela e sensual, como uma mulher fogosa na flor da idade (desculpem, eu sei que a analogia é pirosa e sexista, mas se virem uma mota destas poderão concluir que até estou a ser contido na minha apreciação…).

Quando vi a Ducati Scrambler estava com um amigo que estranhou o facto de eu ter parado para contemplar a mota. Pois é – não tenho dúvidas que este pode parecer um comportamento estranho. Se devo controlá-lo? Parece-me que não. Sobretudo, não quero controlá-lo. Quero ver coisas que me fascinem, caso contrário caio numa espécie de cinismo visual. O que é estranho é que isto não é exactamente desejo, inveja ou ciúme: eu não tenho interesse em ter uma mota – são as linhas, o design, que me fascinam. É um prazer puramente estético e visual.

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Hoje de manhã aconteceu outra vez. Não com uma mota, mas com um automóvel que, à semelhança da Ducati, nunca tinha visto a não ser em imagens na internet: era um Tesla Model S. Este automóvel é tudo menos retro, mas não deixa de ser absolutamente fascinante. As suas proporções são perfeitas, as linhas são harmoniosas (ressalvando alguns pormenores nos quais se nota que os americanos ainda não atingiram o nível de cuidado dos europeus) e o automóvel transpira agressividade por todos os poros. (Eu sei que os automóveis não têm poros!) O Tesla Model S podia ser um superdesportivo – o modelo que vi era o P85D, que acelera de 0 a 100 Km/h em 3”1 –, mas não: é um saloon de 2 volumes e cinco portas, com capacidade para sete pessoas. Apesar de ter sensivelmente as dimensões de um Audi A7!

A minha apreciação deste carro não é bem a mesma que a da Ducati Scrambler. Ao ver o Tesla senti verdadeiramente pena de ser um remediado que não pode senão sonhar com um automóvel como este. Não apenas pela estética exterior, mas também pelo interior: este automóvel é um portento de luxo e sofisticação. Os interiores, além de incrivelmente espaçosos, são verdadeiramente sumptuosos – não de um luxo clássico, mas um decididamente contemporâneo e evoluído (ou futurista, se quiserem): por exemplo, este automóvel praticamente não tem botões para comandar a climatização, o rádio e outras funções de vida a bordo: tudo é comandado tocando um ecrã enorme que ocupa praticamente a totalidade da consola central.

Não me lembro se mencionei que o Tesla Model S tem, além da beleza, rapidez e luxo, uma outra característica que o distingue de todos os automóveis da sua categoria – é eléctrico. Ter um automóvel destes poderia tornar-se num pesadelo, porque os postos de recarga que existem perto de minha casa estão permanentemente ocupados por automóveis de motor de combustão interna pertencentes a atrasados mentais que vêem naqueles postos lugares de estacionamento vagos. (Isto é tão estúpido que nem sequer consigo conceber a existência de pessoas assim.)

Se eu queria um Tesla Model S? Absolutamente! É caro – mas não tanto como um Audi A7 que, além de ser ostensivo e pomposo, consome combustíveis fósseis. Pelo que o custo de utilização de um Tesla deve ser menor em 90% que o do Audi. O que faz do Tesla um bom negócio. E ajuda a salvar o planeta.

Só depois de ver estes dois veículos é que pensei se valeria a pena fotografá-los. A minha conclusão foi um resoluto talvez. O meu interesse em fotografar automóveis e motas tem-se esbatido nos últimos tempos. Julgo que deixei de gostar deste subgénero de fotografia. São fotografias que não dizem nada sobre a vida e as pessoas. De resto, há coisas que são mais agradáveis de ver do que de fotografar. Quem disse que tudo o que nos agrada visualmente é para ser fotografado?

M. V. M.

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