iPhone, a oitava maravilha

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Os idólatras do iPhone têm agora mais um motivo para exultar. Já sabíamos que profissionais da fotografia se tornaram em zelotas do smartphone da Apple e que fotojornalistas foram despedidos colectivamente e substituídos por repórteres treinados para usar o iPhone; agora o iPhone também serve para fazer filmes. A Arri e a RED que se cuidem. Zeiss, os vossos dias estão contados. Canon e Panasonic, esqueçam os vossos sonhos de realizar filmes com câmaras como a 5D e a GH4. O iPhone é a câmara de filmar do Século XXI.

O filme em questão, que estreia hoje mesmo nos Estados Unidos, chama-se Tangerine, foi realizado por um tal Sean Baker, integra a selecção do Festival de cinema independente de Sundance e conta a história de dois transsexuais que se envolvem numa querela quando um deles descobre que, enquanto esteve preso, o seu namorado o enganou com o outro protagonista. A história, a fazer fé na sinopse e no trailer, é interessante, muito flavour of the day: o tema é um daqueles fracturantes (como os palerminhas da esquerda-caviar gostam de dizer) e o ciúme e a traição são sempre ingredientes de sucesso. O uso do iPhone ajuda a despertar a curiosidade dos cinéfilos, pelo que não surpreende que exista uma grande expectativa em torno de Tangerine.

Bom, mas o leitor não está interessado num texto de crítica cinematográfica. Nem eu podia fazê-la porque não vi Tangerine. É possível que seja um filme extremamente interessante. Eu prefiro mil vezes o cinema independente aos blockbusters e sou um grande apreciador de realizadores como John Waters, Richard Linklater ou o enorme John Cassavettes. Bem como os europeus Michael Haneke e Lars von Trier, entre outros. Não vou de forma nenhuma excluir este filme da lista dos que me suscitam curiosidade. Simplesmente, como o leitor chegou aqui por causa do frisson de existir um filme realizado com o iPhone, as referências ao cinema independente vão ficar por aqui. Ou não.

Vendo o trailer, percebe-se imediatamente a razão por que Sean Baker optou pelo iPhone: as cores são saturadas, tal como os adeptos do Instagram gostam. (Se soubessem que este gosto pela saturação das cores começou com o Kodachrome e se desenvolveu graças à Lomografia, talvez pensassem duas vezes.) Esta característica dá ao filme uma atmosfera extremamente contemporânea, mas também decididamente lo-res. (Adiante voltarei a este assunto.) as cenas são todas filmadas com perspectiva de grande-angular, como seria porventura de imaginar se tivermos presente que esta é a distância focal da lente do iPhone, o que resulta em alguns planos, mas noutros não. Seja como for, a perspectiva é completamente anti-convencional, o que prima facie me agrada; o problema é que, por muito giro que seja o carácter decididamente lo-res do filme – que corresponde, sem dúvida, à intenção do realizador –, a imagem suscita-me algumas dúvidas.

Filmar um filme com um iPhone, abstraindo do perfeito disparate que por si só isto constitui, expõe as deficiências de um sensor pequeno equipado com uma lente de uma distância focal que raramente é prática: além dos problemas de perspectiva, que muitas vezes implicam que os planos sejam incongruentes, há ainda outros inconvenientes: em certas sequências parece existir arrastamento, as altas luzes estouram para além do aceitável e a imagem nem sempre é discernível nos planos que incluem sombras. Mesmo a saturação das cores é por vezes excessiva, parecendo borratadas e demasiado berrantes.

Depois há a questão da profundidade de campo. É muito simples: a lente grande-angular e o sensor pequeno implicam que todos os planos estejam sempre em foco. Isto não é uma questão de bokeh: no cinema sempre se usou a focagem selectiva – e não foi certamente por causa da beleza dos planos desfocados. A focagem selectiva é usada para concentrar a atenção num determinado motivo – em geral, no rosto de uma personagem durante diálogos. O que eu vi neste trailer foi uma confusão visual generalizada porque todos os planos estão em foco, tornando difícil que o olhar não vagueie pelo enquadramento. Em vez de nos concentrarmos numa personagem, estamos a ser distraídos pelos transeuntes e automóveis que circulam no plano de fundo. Esta confusão visual não é agradável, nem pode ser desculpada pela fuga às convenções: é simplesmente a prova de que o iPhone não é adequado como equipamento cinematográfico.

Em contrapartida, é um belíssimo golpe publicitário. Mesmo que não surjam as credenciais da Apple no genérico, tal não seria necessário porque, para muitos, o interesse do filme vai centrar-se no facto de ter sido realizado com o iPhone. A Apple vai ter o benefício da publicidade sem despender um cêntimo. É também uma boa promoção do filme, já que os produtores e o realizador podem gabar-se de ter feito o filme com um equipamento improvável. Quanto a mim, faço planos de ver o filme – mas gostava de poder avaliá-lo pelo seu interesse intrínseco, não por a minha atenção estar permanentemente a ser desviada da narrativa por ter sido realizado com um certo equipamento. Durante o último filme independente que vi (Boyhood), não gastei um centésimo de segundo a pensar com que material o filmaram.

M. V. M.

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