O mundo não parou nos anos 80

Jamie Smith, a. k. a. Jamie XX

A minha geração tem um problema: imagina que é impossível fazer melhor (seja o que for) do que se fez no seu tempo. É como se o mundo tivesse atingido a perfeição no tempo em que éramos jovens e, a partir do momento em que assentamos, aquele caminhe para o declínio e a perdição. Provavelmente todas as gerações funcionam desta maneira, mas a minha tem algo de especial: é a geração X, a que vestia gabardinas porque Ian Curtis usava essa indumentária e cresceu a ouvir música urbano-depressiva. Uma geração perdida, sem objectivos e com uma descrença visceral em si mesma e no mundo.

Isto vem a propósito de música, pelo que este texto é mais um daqueles fora do tema que muitos leitores não me perdoam. Pois bem: a minha geração entende que nunca se fez música como a dos anos 80, aquela década em que éramos jovens, e nunca se fará nada igual. Por outras palavras, a música – a pop, claro – atingiu a perfeição nos anos 80 e esgotou-se nessa década. O que explica a popularidade da M80 e o facto de os filhos desta geração usarem os tiques da música dos anos 80 no que produzem. (Os Arcade Fire, por exemplo, são trintões que desenvolveram os seus gostos musicais a ouvir a colecção de vinis dos New Order dos seus pais e tios.)

Eu sou completamente avesso a esta maneira de pensar. A música evoluiu, a despeito de a minha geração ter ficado presa à sua subcultura. Nos anos 90 tivemos os Massive Attack, Kruder und Dorfmeister, os Underworld e os Slowdive; na primeira década deste século vieram os Yeah Yeah Yeahs e os Strokes; e nesta década que agora vai a meio temos muitos jovens a fazer música excelente, mesmo que muitas vezes se baseiem em fórmulas do passado.

A década de 80 foi tudo menos perfeita. Eu não tenho paciência, por exemplo, para música sem graves, com as linhas de baixo sistematicamente tocadas nas cordas mais agudas ou por sintetizadores metronómicos e monótonos na sua adesão a fórmulas consagradas pelos Visage, Kraftwerk e Tubeway Army. Houve, evidentemente, muita música decente naquela década, mas também muito lixo: as pessoas que gostam de Let’s Dance, de David Bowie, ou de Red Red Wine, dos UB40, deviam ser presas dentro de uma bilha de barro e colocadas no alto de um poste ao qual alguém ateasse chamas. Os anos 80 produziram, além de cortes de cabelo e indumentárias que hoje só fazem rir de tão datados, música que é uma autêntica trampa.

Seria muito importante que a minha geração deixasse, de uma vez por todas, de pensar que é impossível fazer melhor do que se fazia nos seus dias de esplendor na relva. É possível, evidentemente. Não só é possível como a qualidade de muita da pop que vai saindo é surpreendente. Canções como Gold Lion, dos já mencionados Yeah Yeah Yeahs, têm lugar entre as melhores de sempre da pop e não deixam nada a desejar – nem mesmo para os críticos mais exigentes. Trata-se, acima de tudo, de uma questão de crença no futuro: a minha Geração X não a tem, mas, paradoxalmente, educou os seus filhos para que a vissem como um exemplo (o que, felizmente, não tem repercussões tão graves como a formulação de um modelo teorético com base neste pressuposto poderia levar a concluir).

A pessoa que mais influenciou as minhas escolhas na música pop foi um homem da rádio chamado António Sérgio, que morreu há seis anos. Foi com ele que aprendi a separar a música de qualidade do lixo comercial. António Sérgio era, como o seu congénere britânico John Peel, um homem que acompanhava a evolução, apadrinhava grupos novos e divulgava a música que as novas gerações iam fazendo. É por causa dele que hoje ouço a Vodafone FM e me mantenho a par do que se faz na música popular. Se eu tivesse uma mentalidade mais conforme à da minha Geração X, por esta altura viveria de uma dieta constituída por The The, Depeche Mode e outros fantasmas do passado. Não alienei o espírito crítico: há muito joio e pouco trigo na colheita musical destes anos 2010, mas entre o que se pode aproveitar há coisas de verdadeira grandeza.

Como esta:

Não há nada, nesta canção, que mereça qualquer reparo, ou que possa considerar inferior, seja no que for, às canções que se faziam quando eu tinha vinte anos. Pelo contrário: o mundo não ficou parado depois de eu ter deixado de ir a concertos e discotecas. Ainda bem.

M. V. M.

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4 thoughts on “O mundo não parou nos anos 80”

  1. ;)

    Com Jamie XX, mais um pouco e fazia referencias a “The xx (Crystalised), ou ex/tinta radio X-FM ou mesmo a ultima Radio Voxx, tb conhecida pela radio da Melinha, a quem o Portuense Miguel Bacelar dava “boz”…!
    NA minha opinião, foram as rádios nacionais q desbravaram caminho para o atual Vodafone FM…!

  2. É bem verdade, Brito, mas não era esse o tema do texto. Fui um ouvinte fervoroso, quer da XFM, quer da Voxx (gostava especialmente dos nomes dos programas desta última: «Refogado e Hortelã», «Frankie Goes to Alaúde» e «Os Pedreiros Levantam-se às Sete»), mas foi com o Som da Frente, nas tardes da Rádio Comercial, que aprendi a discernir a verdadeira qualidade dentro da música alternativa.

  3. A propósito do António Sérgio, acompanhava-o em tertúlia com o Álvaro Costa e o Miguel Quintão nos “Bons Rapazes” da Antena3.
    Tirando isso ficam algumas, gravações que andam “por aqui” da “A Hora do Lobo” em cassete, algures no meio das disquetes…!

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