O Grande Disparate

SPAIN. Valencia. 1933.

É um disparate que li uma vez na internet e poderia não tê-lo levado muito a sério no caso de ser um exemplo isolado. Um comentarista afirmou num website de fotografia que, se Henri Cartier-Bresson fosse vivo, fotografaria com um iPhone. Cada um é livre de dizer os disparates que entender e, como disse, não teria pensado muito do assunto se esta fosse uma opinião isolada, mas algum tempo mais tarde encontrei outro comentário (num outro site) igual em tudo, apenas acrescentando uma GoPro ao material hipoteticamente usado por este HC-B ressuscitado.

Isto é o que acontece quando a ignorância é suprida por um conhecimento deficiente, como tantas vezes acontece na internet. Será que aquelas pessoas têm consciência da enormidade do seu disparate? Elas parecem partir do pressuposto de que a fotografia de rua é uma actividade furtiva ou proibida, em que o fotógrafo faz tudo para passar despercebido – assim como se tivesse a consciência pesada por estar a fotografar contra a vontade das pessoas, ou estivesse a fazer algo proibido, precisando assim de ser o mais inconspícuo possível.  Aquelas pessoas estão completamente enganadas quanto a Henri Cartier-Bresson, quanto à fotografia de rua e quanto às capacidades dos aparelhinhos que preconizam.

Henri Cartier-Bresson foi o fruto de uma época em que a fotografia era ainda uma novidade relativa. Fotografou num tempo em que a fotografia não estava massificada e eram poucos os que iam para a rua fotografar. O que ele fazia não tinha nada de errado ou perverso, pelo que não precisava de se esconder para fotografar cenas do dia-a-dia das pessoas. Tinha, porém, um escrúpulo: não gostava de deixar as pessoas desconfortáveis com a sua proximidade. Isto explica, nas suas próprias palavras, a sua preferência por lentes de 50mm, as quais, ao contrário das tão mitificadas 35mm, obrigavam a alguma distância em relação às pessoas.

Ora, com um telemóvel ou uma GoPro, que têm lentes grande-angulares fixas, o Cartier-Bresson ressuscitado (e previamente submetido a uma lobotomia frontal…) teria de se aproximar das pessoas, deixando-as desconfortáveis ou convidando-as a poses que seriam o oposto da espontaneidade pretendida. Acresce a isto o facto de Cartier-Bresson ter sentido necessidade de câmaras de acção rápida, o que fez com que as Leica fossem uma escolha natural. Os aparelhos propostos pelos comentaristas são tudo menos rápidos. Nos telemóveis, além de se ter de seleccionar previamente a função câmara (o que pode demorar), o disparo sofre de um atraso considerável, o sistema de focagem automática é lento e errático e o ecrã tem problemas de arrastamento. Portanto, o oposto daquilo que se pretende na fotografia de rua tal como HC-B a fazia. O resultado de tentar fotografar rapidamente com os aparelhos modernaços consiste em fotografias sem nitidez, porque o sistema de detecção de contraste não funcionou quando previsto, e com o objecto mal enquadrado porque houve um tempo considerável entre o momento em que se premiu o botão do disparo e o registo da fotografia. Estes aparelhos servem para fotografar motivos estáticos – ou, no caso da GoPro, para filmar, porque foi para o vídeo de acção que foi concebida.

JAPAN. Tokyo. A farewell service for the late actor Danjuro held on November 13th 1965 at the Aoyama Funeral Hall (according to Shinto rites). 1965.

Há mais. As pessoas que pensam (e exprimem) patetices dessa natureza não fazem ideia de quem foi Henri Cartier-Bresson, nem do seu papel e relevância para a fotografia. Conhecem Derrière la Gare de St. Lazare e deduzem que sua obra se cinge à fotografia de rua, o que é, para dizer o mínimo, redutor. A obra de Cartier-Bresson é muito mais vasta do que a fotografia de rua: ele foi um repórter e um retratista, actividades que não se prestam ao uso de um smartphone ou de uma GoPro. Por muito que custe aos arautos da modernidade e do progresso, estes tipos de fotografia exigem equipamento convencional de um bom padrão de qualidade.

Além disto, aquelas pessoas têm uma noção completamente errada do que é essa coisa do momento decisivo. Este não se encontra fotografando tudo o que mexe, a torto e a direito e sem preparação, à espera que uma em mil imagens seja aceitável. Capturar o momento decisivo obriga a uma ponderação do valor fotográfico de uma determinada cena e aproveitar o instante fugidio em que todos os elementos visíveis no espaço delimitado pelo visor se conjugam para criar uma composição significativa.

Francamente, eu não consigo imaginar um homem alto, distinto e elegante como Henri Cartier-Bresson a segurar um iPhone na ponta dos dedos (com os mindinhos muito esticadinhos) e a espetar o aparelhinho bem junto à cara dos transeuntes; outros, depois de terem construído uma imagem completamente falsa de HC-B – é de bom tom dizer-se que foi o maior fotógrafo de sempre, mesmo quando não se conhece a obra de outros fotógrafos –, poderão imaginá-lo. Esta parvoíce resulta, quer de um conhecimento superficial e completamente errado de Cartier-Bresson, quer de uma concepção da fotografia de rua que não faz qualquer sentido e, sobretudo, de uma idolatria insensata por gadgets que leva alguns a imaginar que certos aparelhos são mais capazes do que realmente são. Seja como for, não passa de uma patetice. Nem percebo muito bem por que me preocupei com isto, ou por que este texto saiu tão extenso. Talvez não aprecie o proselitismo que se desenvolveu com o iPhone ou, possivelmente, sou avesso a blasfémias, mesmo quando se consubstanciam em disparates. HC-B pode ter sido destronado nas minhas preferências por W. Eugene Smith, mas isto não quer dizer que fique contente quando dizem parvoíces acerca dele.

M. V. M.

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