A excepção (onde se fala de técnica, do S. João e de uma cena de porrada que, infelizmente, não chegou a sê-lo)

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Tenho andado afastado da fotografia técnica (chamemos-lhe assim) há mais de dois anos. Os arrastamentos, pannings e outros tipos de fotografia em que a vertente técnica prevalece deixaram de me interessar. Já não me dizem nada. Conheço pessoas que se dedicam apaixonadamente à astrofotografia e fazem aquelas imagens em que as estrelas surgem com rastos (nem quero imaginar quantas horas de exposição são necessárias para fazer isto!), mas são fotografias que, embora excelentes do ponto de vista da execução, não me dizem nada sobre a vida. E eu quero fotografar a vida. Deste modo, tenho por regra não fazer fotografias demasiado técnicas.

Todas as regras, porém, comportam excepções. No meu caso, e no que se refere às fotografias técnicas, essas excepções acontecem sempre na mesma altura do ano – o S. João. É mais forte do que eu. As diversões que se instalam na cidade são algo a que não consigo resistir. No fundo, não estou a ser incoerente: a vida deve ser também diversão. Ou melhor: deve haver uma componente de diversão na vida de cada um. Seja como for, não consigo resistir aos carrocéis, aviões, rodas gigantes, carrinhos de choque e a toda a parafernália de diversão: é um festival de luz e cor que gosto de fotografar.

À minha maneira. À minha maneira complicada, totalmente destituída de sentido prático e, por vezes, de bom senso. Este ano a minha primeira incursão fotográfica pelas diversões de S. João aconteceu ontem, na Rotunda da Boavista (que na verdade se chama Praça Mouzinho de Albuquerque, facto que mesmo a muitos portuenses passa despercebido). As traquitanas fotográficas de que me muni compreendiam a Olympus OM-2n, a lente grande-angular, o tripé e o cabo disparador Prontor, uma relíquia que R. S. D. gentilmente me deu. O método consistiu em: a) encontrar uma boa perspectiva; b) armar o tripé; c) montar a câmara no tripé; d) ajustar a abertura; e) colocar o cabo disparador; f) esperar que a diversão em questão entrasse em movimento; g) disparar; h) avançar o rolo; i) retirar o cabo disparador; j) soltar a máquina do tripé e metê-la no saco; k) recolher o tripé e encontrar outro motivo. Não podia ser mais simples.

Os mais astutos já terão ligado as pontas e percebido que fui fazer exposições longas. Sim, fotografei diversões no modo bulb. Evidentemente, fotografar objectos em movimento no modo bulb implica arrastamento, que de resto era o que pretendia. Portanto, fotografias eminentemente técnicas – mas com a diferença de serem em película a preto-e-branco. Podia ser a cores, mas ainda no ano passado gastei a quase totalidade de um Kodak Portra 160 no S. João, com resultados que não me deixaram de todo satisfeito porque o Portra é um rolo equilibrado para a luz diurna. O preto-e-branco pode ser muito mais original – pelo menos se tiver acertado com a exposição.

Hélas, o problema de não se poder fazer chimping com uma máquina analógica é a completa incerteza dos resultados. Só quando vir as digitalizações é que posso saber se correu bem. O segredo das exposições longas está na escolha da abertura. Usei aberturas muito estreitas – entre f/5.6 e f/11, mas mesmo assim não estou tranquilo: o Ilford FP4 é um rolo que, apesar de muito bom para fotografia nocturna, tem uma certa predisposição para as altas luzes. Acresce que, quando se usa película em exposições longas, há um fenómeno chamado reciprocity failure pelo qual a exposição deixa de obedecer à lei da reciprocidade. Dependendo da quantidade de luz existente, poderíamos ter valores como f/5.6 → 3 segundos, f/8 → 6 segundos e f/11 → 12 segundos, mas o mais provável é que os valores de tempo requeridos dupliquem – ou que pura e simplesmente os resultados variem de forma imprevisível.

Deste modo, fazer exposições longas com película é mais ou menos um exercício de adivinhação. O único factor previsível, nas fotografias que fiz, era a composição, por ser aquele que pude controlar através do visor. O resto é uma questão de ter esperança que tudo tenha corrido bem. Mesmo com experiência, fazer este tipo de fotografia com película contém sempre uma parte muito elevada de intuição e de acaso – mas, quando tudo corre bem, vale a pena.

Na expedição de ontem à noite tive a oportunidade de presenciar um episódio que podia ser incluído num filme de David Lynch – ou num episódio de Os Simpsons. Um homem vestido de palhaço vendia balões e oferecia piropos às raparigas. Uma destas, miúda dos seus treze anos de pronúncia acirrada e feitio genioso de gente de bairro, não apreciou um piropo e manifestou-o de uma maneira visceral: voltou-se para o palhaço com ar de desafio, apesar de este último ter quase o dobro da sua altura. «Não gosto de palhaços», atirou a rapariga. Infelizmente, uma das suas amigas acalmou-a e impediu o que poderia ter sido uma cena de pancadaria hilariante. Imaginam uma miúda de bairro a andar à porrada com um palhaço? Dava tudo para ter visto – e logo quando tinha uma máquina fotográfica à mão…

M. V. M.

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3 thoughts on “A excepção (onde se fala de técnica, do S. João e de uma cena de porrada que, infelizmente, não chegou a sê-lo)”

  1. Boas, por acaso nunca experimentei longas exposições com a minha máquina analógica. Tenho que experimentar! Essa do palhaço e não teres uma máquina pronta a disparar … devemos ter sempre uma máquina à mão, muito mais quando existe muito movimento. Não gostas de fotografia de rua ? Já agora, não tens nenhuma conta no Twitter ? Abraço e continuação de boa fotos!!

      1. “… e logo quando tinha uma máquina fotográfica à mão…” mas onde é que eu vi o “não” nesta frase. lol

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