Duas inovações inúteis

A conspiração para roubar todo o prazer de fotografar e tornar as pessoas que fotografam em idiotas preguiçosos está imparável. A implementação de automatismos, que começou na era analógica, trouxe para a fotografia o hábito de fotografar sem ter de se pensar, mas o digital levou a acefalia fotográfica a um ponto em que tudo o que é necessário fazer é premir o botão do obturador. O resto pode ser feito no computador (ou smartphone, ou tablet, ou seja lá o que for). Dois exemplos recentes desta marcha irrefreável para descaracterizar a fotografia por completo são-nos trazidos pela Lytro – uma sociedade que, aparentemente, começou com um crowdfunding – e pela Panasonic, que anda nisto da fotografia há pouco mais de dez anos (as suas raízes estão no vídeo) mas já pensa que pode escrever o futuro da fotografia.

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Começando pela Lytro, há um par de anos esta companhia apresentou aquilo a que chamou field camera: uma câmara com a qual se dispara primeiro e depois, no computador, se escolhe o ponto de nitidez na focagem. (Bokeh instantâneo e sem esforço: eis o sonho dos ignorantes.) Isto não se confunde com uma outra inovação, introduzida pela Olympus há cerca de quatro anos, que permite a selecção do ponto de focagem tocando no ecrã: neste último caso a focagem é determinada antes do disparo. O que faz toda a diferença. Uma aproveita a tecnologia touch screen, a outra remete a escolha da focagem para um momento posterior ao disparo.

Desculpem se me escapou alguma coisa, mas qual é o interesse disto? Uma das coisas mais aliciantes de ter uma câmara evoluída é poder fazer a chamada focagem selectiva: eu escolho o objecto que pretendo manter em foco – se a lente, a distância em relação ao motivo e a abertura me permitirem jogar com a profundidade de campo – antes de disparar. Escolher o ponto de focagem no computador, depois de tirada a fotografia, pode ser divertido (pelo menos durante um minuto ou dois, depois disso o tédio instala-se…), mas não passa de uma brincadeira. O verdadeiro interesse está em dominar a técnica fotográfica e ter conhecimento suficiente para fazer a focagem selectiva.

Quanto à Panasonic, esta marca trouxe uma daquelas pseudo-inovações cujo interesse não consigo entender: filma-se uma cena em 4K, obtendo-se um clip de vídeo filmado a 30 fotogramas por segundo com uma qualidade de 8 MP, depois escolhem-se os stills que se pretende a partir do clip. Fazer stills a partir de vídeos pode ser interessante, mas isto é dificultado pelos artefactos que necessariamente surgem, como o arrastamento dos objectos e outros que decorrem da fraca resolução da imagem. Esta tecnologia, a que a Panasonic chama 4K Photo, evita estes problemas e permite a extracção de imagens com uma qualidade mais que aceitável.

4Kmode

A Panasonic entende que esta é a forma de nunca perder o momento, mas eu penso de outra maneira. Não sei se se pode chamar a isto fotografar, porque a fotografia pressupõe os meios e conhecimentos necessários para capturar aquele instante. Esta tecnologia lembra-me a pesca de arrasto: o arrastão apanha tudo o que anda na água e depois alguém escolhe os peixes que hão-de ir para a lota. Por muito interessante e inovador que isto seja, levanta-me algumas dúvidas: onde está o prazer de capturar o momento com uma câmara fotográfica? Onde está o desafio de fotografar?

Eu não diria que estes são mais dois pregos no caixão da fotografia, já que não me parece que vão ter muito sucesso. No caso da Lytro, que já teve de rever o conceito original da sua câmara, parece-me que esta tecnologia se destina a um grupo muito restrito de pessoas. O caso da Panasonic é diferente: embora a ideia não seja inteiramente nova – a Nikon já fez uma câmara de vídeo com esta funcionalidade e, depois disso, implementou uma tecnologia que permite obter vários disparos simultâneos e escolher o melhor nas câmaras da série 1 –, a Panasonic pretende com isto obter a convergência entre a fotografia e o vídeo. Esta coisa da convergência era uma ideia antiga no domínio do entretenimento doméstico – muitos lembrar-se-ão decerto da tentativa de substituir o stereo pelo som multicanal, com os formatos DVD-A e SACD, que tentava fazer a convergência entre a alta fidelidade e o cinema em casa –, mas a verdade é que falhou porque as pessoas perceberam muito depressa que ou se tem alta fidelidade ou um bom som surround, sendo os dois incompatíveis. Mais tarde ou mais cedo a Panasonic perceberá que o mesmo se passa na fotografia: ou se têm boas fotografias ou bom vídeo. Ambos podem coexistir na mesma câmara, mas separados.

O único efeito que este tipo de inovações produz em mim é o de me manter arreigado à fotografia analógica, que é impermeável a estas modernices inúteis.

M. V. M.

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