“Rat”

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Fotografar pessoas nas ruas pode ter a consequência de pensarmos nelas apenas como meros figurantes num enquadramento. Com efeito, duvido que muitos dos que se autointitulam fotógrafos de rua se preocupem com cogitações sobre essas pessoas. O mais provável é que, para os primeiros, essas pessoas não existam fora da fotografia. Feita esta, não pensamos duas vezes em quem nela figura. Não queremos saber se são felizes ou infelizes, solteiras ou casadas, ricas ou pobres. Nem sequer nos passa pela cabeça que as usamos e, por consequência, poupamo-nos a pensar como elas se sentiriam se soubessem que foram fotografadas. Tudo o que nos interessou foi incluí-las no enquadramento. Podemos até estabelecer uma empatia com essas pessoas, como é aliás de bom tom fazer quando pedimos o seu consentimento para fotografar, mas mesmo esta forma de relacionamento é superficial e breve: termina imediatamente após premir o botão do obturador. Depois disso não voltamos a pensar nessas pessoas. (O inverso também é verdadeiro: as pessoas também não voltam a pensar no fotógrafo.)

Por outras palavras: essas pessoas não nos interessam. Isto, porém, aplica-se apenas a algumas modalidades de fotografia de rua. Não a todas. Alguns géneros de fotografia implicam algum conhecimento das pessoas fotografadas, mas são poucos os que vão ao ponto de estabelecer uma relação significativa com as pessoas. E menos ainda os que, por via dessa relação, são capazes de perdurar na memória das pessoas fotografadas.

Isto vem a propósito de Mary Ellen Mark e da fotografia acima, Rat and Mike With a Gun, de sua autoria. Esta fotografia faz parte de um ensaio com o título Streets of the Lost, feito em 1983 para a revista Life, que tinha por tema a vida de adolescentes marginais nas ruas de Seattle. Os jovens que figuram neste ensaio de Mary Ellen Mark viveram na rua durante uma parte da adolescência. As raparigas ali incluídas prostituíam-se, os rapazes consumiam drogas, pediam e vasculhavam contentores de lixo. Vidas duras, portanto, às quais é muito fácil virar as costas fingindo que não é nada connosco.

Pois bem: Mary Ellen Mark estabeleceu uma relação com esses jovens de Seattle. Fê-lo, conta a história, através de uma rapariga que influenciava muitos deles, por via de quem acabou por se relacionar com todos eles (ou, pelo menos, os que figuraram no ensaio fotográfico e, mais tarde, no documentário a que deu origem, realizado por Martin Bell, marido de Mary Ellen, com o título Streetwise). E estabeleceu com eles uma relação profunda e duradoura. Para Mary Ellen Mark, aqueles miúdos não eram meros figurantes no enquadramento.

Um desses jovens era Rich, conhecido por “Rat”, que é o rapaz que figura à esquerda na fotografia que encima este texto. Rich fugira de casa dos pais em Sacramento, California, e vivia nas ruas de Seattle pedindo e vendendo marijuana. Hoje Rich tem quarenta e oito anos, é motorista numa empresa de reboques, casou e tem filhos e netos. Teve mais sorte – ou fez mais por ela – do que outros dos seus companheiros: dois deles foram assassinados quando ainda eram adolescentes. Para Rich, bem como para os demais que figuraram em Streets of the Lost e em Streetwise, Mary Ellen Mark e Martin Bell eram como uma família. Conta-se que Rich chorou quando soube da morte de Mary Ellen Mark e lamentou não ter podido apresentar-lhe a sua família. «She was not only a great photographer but an awesome influence on anyone’s life. She took all of us in like family. She never judged who we were or what we did. Anyone she touched, you can bet their life was changed in some way».

Mais que uma excelente fotógrafa, Mary Ellen Mark foi um exemplo de vida. É a existência de pessoas como ela que faz com que a vida no nosso mundo se torne suportável.

M. V. M.

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