Tradição (3)

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Eu não espero que uma pessoa que não tem conhecimentos elementares de fotografia e usa o telemóvel para fotografar compreenda o que tenho vindo a escrever. O que seria legítimo esperar seria que essas pessoas respeitassem quem segue os ensinamentos tradicionais, o que não parece possível. Também não espero que as pessoas que seguem à risca as regras tradicionais consigam evoluir na sua expressão fotográfica: esta fidelidade pode tornar-se castradora ao impedir qualquer evolução, levando o fotógrafo a nunca se libertar de formalismos que, em última análise, não conduzem a mais que a estagnação.

Esta é uma daquelas discussões em que nenhum dos lados tem razão. Não se pode decretar o fim das tradições, porque elas constituem o acervo em que se funda a aprendizagem da fotografia, mas também não é avisado seguir as regras ao pé da letra.

Um argumento que poderia militar em favor dos críticos é o de que a evolução sucessiva das artes só pôde acontecer quando os conhecimentos vigentes a dado momento foram superados. Simplesmente, os críticos não discutem arte: discutem outra coisa. A discussão está centrada no equipamento ou nos aspectos formais da fotografia. Nada acrescentam de novo quanto à mensagem fotográfica, que de resto ignoram. Já li críticas da natureza das que tenho vindo a discutir escritas por gente que tem uma apreciação extremamente deficiente da fotografia e se deixa apaixonar por clichés fotográficos insuportáveis. Esta é uma discussão que não reside nos aspectos essenciais, mas em questões acessórias.

De resto, se analisarmos bem a obra dos artistas revolucionários, verificamos que as suas obras iniciais se conformavam com os cânones vigentes à sua época. As primeiras obras de Beethoven dificilmente se distinguiam das de Haydn e Mozart; Picasso e Kandinsky começaram por ser pintores naturalistas; o próprio Edward Weston era um retratista muito formal antes de partir para a exploração de formas puras que lhe conferiu a importância que veio a assumir na história da fotografia.

Acresce a isto que em todas as artes há regras. Nenhuma arte é tão livre que dispense algumas regras. A música nunca se libertará das escalas e dos tons e a literatura nunca se livrará da gramática. Isto acontece porque a arte precisa de ser inteligível; precisa de se exprimir fora da mente do artista se este quiser que as suas obras sejam compreendidas por alguém para além dele mesmo. As regras servem esta inteligibilidade. Não podemos usar palavras desconexas para escrever um livro nem prescindir desse primo direito da matemática que é o solfejo para compor uma peça musical.

De novo muitos dos críticos da tradição fotográfica ignoram – ou fingem ignorar – estes factos. Isto deve-se a não os compreenderem de todo, porque não interpretam a fotografia como arte e não são suficientemente inteligentes para entender que as regras servem propósitos bem definidos. Nunca conseguirão entender, por exemplo, que é preciso entender as regras antes de se partir para uma linguagem que permita prescindir delas. Criar e inovar não é ignorar as regras: é contorná-las, desafiá-las e pô-las em questão a cada momento. Ora, isto implica conhecer e compreender as regras.

Nenhuma regra está acima desta transgressão criadora. Todas elas podem ser subvertidas. Tomemos um exemplo: a linha do horizonte. Esta, segundo a tradição, deve situar-se a 1/3 ou 2/3 do enquadramento e deve estar direita. Contudo, tem mesmo de ser assim? E se me apetecer fazer um horizonte a meio, ou no fundo do enquadramento? E se eu quiser que surja descaído?

Estas transgressões são válidas se obedecerem a duas condições. A primeira é a que se tenha consciência de que se está a transgredir. Desconhecer a regra implica que se desconheça também a transgressão; é, deste modo, fruto da ignorância. A outra condição é que sirva um propósito expressivo. Caso contrário não passará de uma fotografia mal executada e será vista por todos como tal.

Ou seja: as críticas às tradições fotográficas só são de atender se forem feitas com fundamento e conhecimento. Se isto não estiver presente, tais críticas não passarão de meras justificações para a ignorância. Ou de despeito, o que é muito pior.

M. V. M.

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