Tradição (2)

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A classificação das lentes como de paisagem, normais e de retrato é um mero indício que é útil para que o principiante compreenda o uso de cada lente. As pessoas são livres de usar as lentes como muito bem entenderem e ninguém as censura se não o fizerem; e nunca passou pela cabeça de ninguém pretender o contrário. Penso, também, que as pessoas que fazem retratos com lentes de 85 mm e paisagens com grande-angulares não usam estas objectivas por se sentirem obrigadas pelas convenções, mas por aquelas serem as que melhores resultados lhes asseguram.

As críticas aos métodos tradicionais não são novas. Vêm na mesma senda dos que condenam o recurso à regra dos terços e à orientação das fotografias e das mesmas pessoas que dizem que a melhor câmara é a que trazemos no bolso (i. e. o telemóvel). De novo, ninguém pretende impor que a única maneira de apresentar paisagens é na horizontal (e os retratos na vertical), nem o facto de um objecto figurar no centro da imagem implica que esta seja uma fotografia mal feita. Isto é o resultado de uma maneira de pensar ainda mais dogmática e preconceituosa, que é adoptada pelos que pretendem fazer tábua rasa dos ensinamentos do passado e impor uma maneira de fotografar que não se ancora em nada, a não ser no facto de agora se poder fotografar com aparelhos aos quais as regras e conceitos tradicionais não se aplicam. O problema é que eles entendem que quem não aderir a isto está ultrapassado e a sua sabedoria de nada vale, tendo sido engolida pelas ondas da constante mudança.

Ora, partir do postulado de que nada do passado é válido e só o presente e o futuro contam é tão obtuso como viver amarrado ao passado. As posições extremas nunca são razoáveis. As regras e classificações a que venho a aludir não são comandos imperativos: não se dá o caso de uma fotografia ser má só porque, sendo uma paisagem, não se usou uma grande-angular, nem por o objecto figurar no centro da imagem. O fotógrafo avisado não pensa desta maneira. As regras são meros guias que são úteis para quem principia; correspondem a boas práticas que o tempo consagrou e fundam-se em razões válidas. Contudo, como todas as regras da fotografia, não têm forçosamente de ser seguidas e não o devem ser quando se transformam em obstáculos à expressão do autor da fotografia. Se eu quiser fazer o retrato de uma pessoa num determinado ambiente, não devo isolá-la recorrendo a uma teleobjectiva; se eu quiser fotografar um plano longínquo de uma paisagem de maneira a que este ocupe a quase totalidade do enquadramento, não posso usar uma grande-angular. Mas também não é com uma teleobjectiva que vou dar largura e profundidade a uma paisagem, nem é com uma grande-angular que devo retratar o rosto de uma pessoa isolando-o do plano de fundo.

No meu caso, o uso de distâncias focais clássicas – 28 mm, 50 mm e 135 mm – serviu para provar que a classificação tradicional das lentes é bem fundada. De facto, elas adequam-se ao uso que classicamente lhes é destinado. Contudo, isto nunca me impediu de usá-las de maneira diferente do que é convencionado. Por exemplo, uma das convenções que eu sistematicamente rejeito é a de que a fotografia de rua deve ser feita com uma lente de 35 mm. Faço-a maioritariamente com a 50 mm porque não gosto de me aproximar demasiado das pessoas nem quero que o enquadramento fique povoado por objectos que não me interessa incluir. O que não significa que não tenha feito muitas fotografias «de rua» com a grande-angular. Assim como faço retratos e paisagens com a 50 mm, que é a lente que de longe mais frequentemente uso.

Esta aversão pela sabedoria tradicional desenvolveu-se graças à fotografia digital e atingiu o seu paroxismo com o crescente uso de telemóveis, cuja lente é em regra uma grande-angular, e o recurso a um vício que é inerente a estes últimos: o recorte da imagem ou «zoom interno». Isto nunca dá os mesmos resultados que o uso de lentes convencionais numa câmara fotográfica, por mais megapixéis que o sensor do telemóvel tenha. Se a qualidade da imagem já é no geral fraca, as coisas só pioram quando se recorta a imagem para transformar uma porção do enquadramento numa fotografia autónoma. Contudo, não se pode dizer estas coisas aos que glorificam os amanhãs que cantam que a iPhonografia nos promete: para estes, usar máquinas fotográficas é um acto de pretensiosismo e sinal de uma mente estreita e antiquada. Tudo o que respeita ao passado da fotografia deve ser destruído, tal como o Estado Islâmico se propõe fazer com as ruínas de Palmira.

Tal como todo o fanatismo, esta posição acirrada contra os ensinamentos tradicionais nasce da incompreensão e da ignorância. As tradições a que tenho vindo a aludir nunca tiveram outra pretensão que não fosse ensinar boas práticas aos neófitos. Estes, concluída a sua aprendizagem, serão livres de escolher uma linguagem fotográfica liberta daquelas convenções, mas até que isso seja possível é necessário seguir ensinamentos sólidos e de confiança. O que pode suscitar mais confiança do que práticas consagradas ao longo de décadas? (Continua)

M. V. M.

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