Retratismo (2)

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(Continuação) No caso do tom de pele escuro contra um fundo claro é imperativo medir a exposição no rosto, assim obtendo um tempo de exposição mais longo e uma abertura ampla. Se isto não for feito, deixando a determinação da exposição ao critério da medição matricial ou ponderada ao centro, o rosto surgirá demasiado escuro, com feições indistinguíveis, enquanto o fundo terá um tom de cinzento. Isto acontecerá porque o fotómetro vai medir a área maior, que é a do plano de fundo, e determinar a exposição em sua função. Tal como no caso inverso, a medição da exposição no rosto assegurará a descrição correcta das feições e o fundo surgirá bem exposto.

Fotografar um rosto de pele clara contra um fundo claro e um rosto de pele escura contra um fundo escuro pode produzir resultados muito díspares. Aqui os problemas de exposição não são tão prementes, mas a fotografia pode ser desinteressante pela escassez de contraste. No caso do rosto e fundo claros, a fotografia pode resultar se o que for pretendido for um efeito high-key, mas no caso oposto a fotografia será virtualmente indiscernível. Terá de haver sempre uma luz incidente, mesmo que ténue, para que a fotografia resulte nestas condições, luz que iluminará pelo menos as feições do retratado.

Tudo isto é comum à fotografia a cores e ao preto-e-branco, mas esta última traz consigo uma série de considerações que importa levar em conta. A cor implica exigências de harmonia que o preto-e-branco não conhece. As cores, quando não ordenadas harmoniosamente, produzem uma sensação visual desagradável. Além da conjugação de tons harmoniosos, deve também atender-se à proporção das cores que figuram no enquadramento. Algumas lições importantes sobre esta matéria podem ser vistas em Michael Freeman, O Olhar do Fotógrafo, Ed. Dinalivro, pp. 114 a 125.

Deve notar-se que o fundo joga um papel fundamental, não apenas nas considerações técnicas, mas no próprio conteúdo da imagem. Há rostos que são reconhecíveis pela sua notoriedade, pelo que o retrato pode não necessitar de qualquer informação suplementar, mas por vezes é importante associar a pessoa a um determinado contexto. Podemos, de facto, pretender que a pessoa retratada surja ligada, por exemplo, a uma determinada profissão ou a um certo lugar; nestes casos interessa que o fundo contenha informação que forneça indícios quanto à pessoa fotografada ou a insira num determinado ambiente. Contudo, é também importante que o fundo apenas providencie a informação necessária e suficiente. Informação a mais no plano de fundo torna-se demasiado intrusiva e desvia a atenção do que se pretende mostrar, que é o rosto do retratado.

O que se deve fazer para evitar esta intrusão dos objectos presentes no plano de fundo é usar a focagem selectiva. Isto consegue-se aproximando a lente do rosto da pessoa retratada ou usando uma teleobjectiva curta (entre 85 e 135 mm). É importante ter em conta que a profundidade de campo é tanto maior quanto menor for a distância focal. É por esta razão que não se aconselha usar grande-angulares para retratos: estas lentes privilegiam grandes profundidades de campo, pelo que o plano de fundo surgirá sempre demasiado nítido (a menos que se fotografe muito perto do retratado, o que induzirá as distorções características das grande-angulares). A teleobjectiva tem a vantagem de se poder usar a alguma distância, mas a sua profundidade de campo diminuta pode diluir completamente o fundo – o que é útil quando se quer isolar a pessoa retratada, mas faz perder informação que pode ser importante. É por este motivo que considero interessante fotografar com uma lente normal: esta mostra a pessoa retratada com nitidez, mas também o plano de fundo, que surgirá suficientemente esbatido para evitar que os objectos compitam com o rosto pela atenção do espectador.

Uma questão interessante é a da orientação da imagem. Deve o retrato ser feito sempre na vertical? Este é um cânone que levou a que a disposição horizontal seja conhecida por «paisagem» e a vertical por «retrato», mas não há nada neste mundo que proíba retratos na orientação horizontal. Pelo contrário: se a intenção for incluir a pessoa retratada num determinado ambiente, a orientação horizontal pode funcionar melhor.

Convém não esquecer que, fora das situações em que o retrato é estudado – o que implica, por regra, uma pose que pouco terá de natural –, este tipo de fotografia pode ser uma maneira espectacular de interagir com outras pessoas. Não sou muito dado a retratos, e muito menos quando eles são espontâneos, mas sei reconhecer uma oportunidade quando ela surge. Na Sexta-feira tive uma daquelas experiências que me costumam reavivar o gosto pela fotografia: encontrei uma rapariga, uma cabo-verdiana lindíssima; o pior que me podia acontecer, se lhe pedisse para fotografá-la, era ela não aceitar, pelo que resolvi deixar as tibiezas de lado e interpelei-a. A rapariga aceitou, com uma expressão tímida, mas divertida e graciosa, de uma coqueteria natural – muito girly – que espero ter conseguido capturar na fotografia que fiz.

O princípio, em casos como estes, é exactamente o que referi acima: o pior que pode acontecer é a pessoa não aceitar. O que não é nada de traumático: é um direito que as pessoas têm. No caso de a pessoa consentir, porém, a experiência pode ser extremamente recompensadora. No meu caso, vim a descobrir que a rapariga era modelo – o que deveria ter suspeitado pela facilidade com que encontrou a pose! Por isso, qual facebook qual carapuça: se querem conhecer gente interessante, vão mas é para a rua fazer retratos!

M. V. M.

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