Retratismo (1)

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Uma das razões por que geralmente não faço retratos, para além de uma timidez que me deixa pouco à vontade para para pedir às pessoas que posem para mim, é ser esta uma arte extremamente difícil. Pelo menos quando se quer fazê-los bem. Mesmo quando se fazem retratos espontâneos é necessário ter alguns cuidados.

Não me refiro aqui ao elemento pessoal que os retratos devem ter. O fotógrafo tem de ter perspicácia e intuição suficientes para captar os aspectos da personalidade da pessoa retratada. Claro que isto é fácil quando se fotografa pessoas, digamos, fora do comum, como fazia Diane Arbus: nestes casos a singularidade do retratado torna a tarefa mais simples. Contudo, quando se pretende retratar pessoas comuns, ou de alguma notoriedade, tudo é mais difícil: quanto às primeiras, torna-se necessário conhecê-las para que possamos saber o que queremos mostrar delas e saber extrair delas as emoções que se quer exprimir no retrato; no caso das segundas é necessário entender as razões da sua projecção pública e traduzi-las pela fotografia. Já me referi a isto diversas vezes, especialmente quando escrevi sobre Yousuf Karsh, Jane Bown e Sir Cecil Beaton, pelo que me escuso a desenvolver este assunto. O objecto do texto de hoje é a técnica. Os problemas técnicos do retrato são três: a iluminação, a exposição e o plano de fundo.

Como os fracassos ensinam mais lições que os sucessos, posso dizer que aprendi algumas coisas da arte retratística. Os arremedos de retratos que fiz correram mal, salvo algumas excepções, mas pelo menos pude retirar lições importantes dos meus fracassos.

A primeira dessas lições é que não há regras absolutas. Por exemplo, o tempo consagrou o hábito de retratar com teleobjectivas de 85mm ou 135mm, às quais se convencionou chamar lentes de retrato, mas este uso não é de modo nenhum vinculativo. É possível fazer retratos excelentes com lentes de 50mm, mas eu não desceria muito na gama de distâncias focais: as grande-angulares produzem distorções que podem ser prejudiciais ao retrato.

Outra lição importante é a de nunca fazer retratos a contraluz. Neste caso o que obteremos será uma silhueta em que é impossível discernir as feições da pessoa retratada. O que nos leva ao primeiro dos problemas técnicos que o retrato coloca – a iluminação. A luz não tem necessariamente de incidir sobre o rosto, iluminando-o por completo: tal exigiria o tipo de luz existente num estúdio ou, pelo menos, o uso de um flash para preencher as sombras. É, contudo, perfeitamente possível retratar sob luz solar, desde que se tenha o cuidado de fotografar a favor da luz. É possível jogar com a luz «disponível» para obter efeitos extremamente interessantes: pode-se, por exemplo, optar por que uma parte do rosto fique correctamente iluminada e o resto obscurecido – desde que se tenha o cuidado de deixar as feições bem evidenciadas, de maneira a que o rosto seja reconhecível.

Outro ensinamento: não se deve fazer retratos à sombra. A sombra reduz o contraste, obriga a tempos de exposição demasiado lentos e altera o equilíbrio das cores. Se as condições o permitirem, deve trazer-se a pessoa retratada para uma área onde incida alguma luz (ou, em alternativa, usar o flash). Os resultados de fazer retratos à sombra são por regra desastrosos.

Outro problema dos retratos é a exposição. É muito simples: no retrato, a exposição tem de ser medida no rosto da pessoa retratada. Tal como existe uma regra genérica de expor para a porção da imagem onde queremos reter o pormenor, no caso do retrato devemos medir a exposição na parte do rosto que queremos evidenciar.

Apesar de tudo parecer simples quando enunciado desta maneira, a exposição levanta diversas dificuldades na fotografia de retrato, em particular quando fotografamos uma pessoa com tom de pele claro contra um fundo escuro ou o inverso. Este é o terceiro dos problemas enunciados: o plano de fundo. Em ambos os casos exemplificados, o que se deve fazer é medir a exposição no rosto da pessoa, através da medição pontual ou aproximando a câmara. Não se deve ter preocupações em fazê-lo, porque o fundo ficará sempre bem exposto. No caso do rosto claro contra fundo escuro, o fotómetro pedirá um tempo de exposição curto e uma abertura estreita, pelo que o fundo se manterá escuro. Se se optasse por uma medição ponderada ao centro, o mais natural seria que o fotómetro medisse a luz no plano de fundo, o que teria por efeito que o rosto surgisse estourado e o fundo mais claro do que se pretendia. Medir a exposição no rosto terá o benefício de dar-lhe mais destaque. (Continua)

M. V. M.

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