O fim dos tempos

Por William Klein
Por William Klein

Por vezes pergunto-me se ainda vale a pena fotografar. Parece que já tudo foi visto e todas as fotografias foram feitas; tudo o que se faz hoje parece redundante, não acrescentando nada ao que já existe. Olho para as minhas próprias fotografias e não consigo ver nada de novo nelas. Tudo o que já fiz foi feito, e bem melhor, por outros.

Note-se que não me estou a referir a fotografias de família, de passeios ou outras semelhantes (que, de resto, não faço). Estas estão sempre a renovar-se. Também não falo das fotografias dos acontecimentos que normalmente são cobertos pelos fotojornalistas, porque o mundo está em permanente evolução e a cada hora acontecem coisas novas. Aludo aqui à fotografia feita com propósitos meramente artísticos, que não pretende documentar nada a não ser a maneira como o seu autor deposita o seu mundo interior nos objectos que vê e, consequentemente, na imagem que recolhe deles. É em relação a estas fotografias que me surgem dúvidas.

As minhas hesitações nascem do conhecimento que vou adquirindo da história da fotografia. Há fotógrafos que deixam a impressão de que não é possível fazer melhor ou trazer algo de novo à fotografia depois do que fizeram. Não estou a pensar nos fotógrafos que normalmente nos vêm à mente quando se citam os grandes nomes da fotografia, mas noutros que por vezes nos escapam e nos esquecemos de citar entre os maiores. São eles que me fazem sentir que todas as minhas fotografias são irrelevantes porque alguém já fez bem melhor antes de mim – muito tempo antes.

Por Paul Strand
Por Paul Strand

Um destes fotógrafos foi Paul Strand. Em 1915 – há um século, portanto –, Strand já fazia fotografias que tiveram uma influência tão vasta que mais parece que há um pouco de Paul Strand em todas as fotografias que vieram a ser feitas sobre os mesmos temas. Essa influência manteve-se até hoje. Que um fotógrafo consiga influenciar o que hoje se faz através de fotografias com um século de existência apenas pode querer dizer que nunca ninguém conseguiu fazer melhor ou diferente. A sua capacidade de estabelecer padrões visuais e estéticos nunca parará de me surpreender. Muitas das fotografias de Paul Strand são eternas, intemporais e resolutamente modernas – mesmo quando versam objectos entretanto caídos em desuso, como uma máquina de escrever.

Outro caso é o de William Klein. As suas fotografias produzem-me uma sensação idêntica, mas transposta para o domínio da fotografia de rua: valerá a pena fazer este tipo de fotografia depois de William Klein? Parece-me que tudo o que se fez depois dele é redundante, nada acrescentando ao mundo da fotografia. Foi um mestre tão profundamente influente que reescreveu, sozinho, a maneira de fotografar nas ruas. William Klein deixa-me a sensação de ser impossível fazer seja o que for sem correr o risco de ser repetitivo. Os seus feitos são de tal maneira portentosos que qualquer pessoa que hoje se atreva a tentar a fotografia de rua pode bem ser vista como um imitador, um insecto, um poço de pretensão que teve o descaramento de tentar medir-se com ele.

Por William Klein
Por William Klein

Não sei que mais hei-de fazer. O tipo de linguagem que gosto de empregar quando fotografo já foi, mesmo que eu não tenha essa consciência, mais que explorado por outros muito antes de mim. Fazer diferente – e muito menos melhor – é uma impossibilidade absoluta.

Tentar descobrir novas formas de expressão é uma perda de tempo. Tudo o que eu ou outro possa tentar já foi feito muito antes por alguém. Não sou decerto o único a ter esta percepção: muitos tentaram trilhar novos caminhos, mas foram demasiado longe e os seus esforços foram inconsequentes, frívolos ou vãos. Muitas destas fotografias experimentais redundam em absurdos que só o seu autor pode entender. Não deixam de ser formas de expressão válidas, mas não têm qualquer impacto na história da fotografia. No Entre Imagens, excelente documentário que passou há tempos na RTP2, vi fotógrafos produzindo imagens de pontos negros sob fundo branco ou a fazer obsessivamente auto-retratos. Isto é o niilismo fotográfico, a confissão de uma incapacidade em fazer algo de verdadeiramente novo, diferente e relevante. Para fazer isto, mais vale estar quieto.

Deste modo, parece estar tudo inventado. Qualquer tentativa de inovar a fotografia é inútil e risível. Atingimos, pois, o fim dos tempos na fotografia. Só nos resta o apocalipse. Vivemos presentemente na Sodoma e Gomorra das selfies e das fotografias do prato que vamos comer ao almoço, mostrados a todos como se a sociedade nos tivesse transformado em seres perturbados que retiram prazer de se exibir diante das multidões. E eu não sei que fazer diante de tudo isto, a não ser aproveitar o prazer que a fotografia me dá – independentemente desta consciência de que nunca serei capaz de fazer algo de novo.

M. V. M.

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