Made in Japan

Datsun 120Y, um dos automéveis mais feios de sempre
Datsun 120Y, um dos automóveis mais feios de sempre

O meu envolvimento na fotografia trouxe-me algo absolutamente inesperado: a apreciação de produtos japoneses. Desde criança que tive – confesso-o sem quaisquer problemas – uma espécie de preconceito contra bens de consumo Made in Japan. Isto começou por causa dos automóveis: os carros japoneses dos anos 70 eram uma espécie de Oldsmobiles e Cadillacs em escala reduzida. Detestava o excesso de ornamentos e os tiques estilísticos dos Toyota e Datsun daquela época. As únicas excepções eram o Datsun 240Z, o Toyota 2000GT e o Mazda 1800, este último desenhado por Giorgio Giugiaro nos ateliers da Bertone. O resto era tudo imitações feias e exageradas de automóveis americanos. O stand de uma marca japonesa era um verdadeiro freak show.

A minha apreciação não mudou muito com a passagem dos anos. É certo que os fabricantes japoneses começaram, nos anos 80, a construir automóveis concebidos para agradar ao mercado europeu, mas eram imitações de modelos da Mercedes e Audi. Hoje em dia os japoneses continuam a fazer automóveis para agradar aos mercados ocidentais, mas são raros os que são conseguidos do ponto de vista estético. Há pior: os Hyundai e KIA são ainda mais grotescos, parecendo fazer o que a Toyota e a Honda faziam há três ou quatro décadas. Os automóveis orientais são, a meu ver, demonstrações de mau gosto, com designs medíocres e uma absoluta falta de criatividade e originalidade.

O mesmo se diga com a alta fidelidade, outro dos meus hobbies. Eu seria incapaz de ter um aparelho japonês no meu sistema. Alguns poderão soar bem, mas o seu excesso de botões e funções inúteis está no pólo oposto dos gostos europeus, que privilegiam a simplicidade e a qualidade sonora sem compromissos. O único componente japonês que tive foi um deck de cassetes Yamaha KX-383, mas era de um design bastante original e de uma qualidade absolutamente excepcional para o preço. Claro que hoje ninguém usa decks de cassetes, mas lá que aquele aparelho gravava cassetes com qualidade, gravava.

Eis, entretanto, que adopto um hobby para o qual 90% do equipamento é de origem japonesa. Apesar de haver algumas imitações de Leicas e das Rolleiflex na história do material fotográfico japonês, as companhias japonesas estiveram sempre na vanguarda da indústria fotográfica. Mesmo se os americanos inventaram a Kodak Brownie e os europeus o formato 135, assim revolucionando a fotografia, os japoneses foram sempre inovadores. Pensemos, por exemplo, na minha OM: esta máquina não se limitou a revolucionar a maneira como as SLR eram construídas: ela permitiu levar o fotojornalismo a lugares nunca antes atingidos, dado o seu compromisso óptimo entre qualidade e transportabilidade. E as câmaras e lentes japonesas estão sempre nos primeiros lugares no que respeita a qualidade. Muito do vidro empregue pela Zeiss é feito no Japão e algumas lentes da Nikon estão entre as melhores de sempre.

Yashica_Electro_35

DSLRs à parte, a verdade é que aquilo que referi quanto ao design dos automóveis japoneses não se aplica à indústria fotográfica. As câmaras japonesas eram extremamente bonitas, talvez porque nunca tiveram necessidade de concorrer com produtos ocidentais. A Yashica Electro 35 é muito mais bonita do que a Contax G1, por muito Vorsprung durch Technik que esta aparente ser. O que não significa que a Yashica seja melhor: significa apenas que os japoneses sabem fazer máquinas bonitas. O que ainda hoje é verdadeiro: a Nikon Df, a Olympus E-P1 e a Fuji X-Pro1 são máquinas extremamente bonitas, mesmo pelos padrões europeus mais exigentes.

Eu dificilmente adquiriria um carro japonês, mesmo que fosse muito bom. Os Lexus causam-me vómitos e os Honda são grotescos. São produtos sem alma porque o automóvel não tem raízes no Japão. Os japoneses são incapazes de compreender a forma como os ocidentais apreciam automóveis e não entendem a substância deste gosto; para eles, os automóveis são meros produtos para vender.

Com as máquinas fotográficas não se passa nada disto. Muitas câmaras japonesas são verdadeiras proezas tecnológicas fabricadas com gosto e esmero. Isto, com as excepções que já referi, não é tão visível com as câmaras actuais, mas é inteiramente verdadeiro quanto às fabricadas na época de ouro da indústria. Não sinto a aversão por máquinas fotográficas japonesas que tenho em relação aos seus automóveis porque não tenho razão para tal. Há um mundo de diferenças entre a minha Olympus OM-2 e um Toyota Celica seu contemporâneo.

M. V. M.

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2 thoughts on “Made in Japan”

  1. Confesso que já senti o mesmo em relação aos produtos Japoneses… mas depois de ver um pouco sobre estes senhores, percebi que estão anos luz na percepção de “alguns” questões (entendimento). Existe perfeccionismo, metodologias, regra, respeito e uma grande admiração pelo mundo ocidental… daí o tal sentimento que nós temos pelos japoneses – muitos melhores que os coreanos e que os chineses, mas que no entanto ainda veem beber água na nossa fonte.

    Como grande entusiasta por tudo o que tem motor, confesso que sou daqueles que apesar de acreditar na fiabilidade de um Toyota, já mais iria comprar um automóvel sem identidade, pois um exemplo é um modelo que já conta com 11 gerações (Corolla) sem qualquer identidade entre elas… isto é, nem o pai nem a mãe se mantiveram, só existindo tendências de linhas de automóveis europeus/americanos.

    No entanto os japoneses são muito bons noutras áreas,… e mesmo admitindo que existe tendências europeias neste produtos, acredito que o produto japonês é 1000 vezes superior ao “original” – no campo das motas, não existe actualmente ninguém capaz de tanta perfeição (conjunto dinâmico entre física e bom senso).

    Fotograficamente falando, penso que “maquina fotografia” tem de ser made in JAPAN – pois até admitindo que exista melhor, são sempre produtos nicho, os quais a grande maioria nem perde tempo em sonhar.

    Para melhor entendimento aconselho a leitura do livro . A História de Soichiro Honda

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