Pau

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Quem tiver estado atento aos noticiários da última semana poderá, eventualmente, pensar que os nossos adolescentes são doentios e perversos. Um puto de dezassete anos matou, aparentemente – eu ainda sou dos que respeitam o princípio da presunção de inocência –, um outro de catorze; um grupo de miúdos obrigou um rapazito a manter-se imóvel enquanto alguém o filmava a ser espancado por uma catraia; por fim, um outro a quem não bastava o suplício de se chamar Leandro foi libertado depois de ter passado um ano em prisão preventiva por ter sido incriminado, por duas crianças de, respectivamente, seis e dez anos, de ter abusado delas sexualmente. Os mais velhos de nós poderão depreender daqui que esta é uma geração perdida e o futuro do planeta (ou pelo menos do país) está seriamente comprometido.

Quanto a mim, porém, mantenho uma atitude mais liberal. Eu presenciei cenas daquilo a que se chama bullying durante a minha infância, crimes hediondos perpetrados por putos sempre os houve e, no caso do Leandro, a perversão foi da família das crianças queixosas, que descobriram na denúncia que deu lugar à prisão preventiva um expediente para retirar os filhos do internamento tutelar. Quanto a todas as perversões que são agora apontadas aos adolescentes, como a de quase dependerem do smartphone, apenas direi que, se a minha geração já conhecesse o iPhone, faria exactamente o mesmo.

O que escrevi na última frase pode aplicar-se à psicose social que são as selfies. As selfies não são um sinal de degenerescência moral: sempre houve narcisismo, o que nem sempre houve foi os meios que há agora. A minha geração teria feito milhões de selfies se no tempo da sua juventude houvesse smartphones e redes sociais. Isto aplica-se a todas as gerações precedentes. A minha principal objecção às selfies tem que ver com os seus efeitos sobre o fenómeno fotográfico e é mais ou menos conhecida: considero-as uma enorme bola de lama atirada à cara da fotografia. Como se esta não estivesse já suficientemente conspurcada, as selfies acrescentam uma nova dimensão ao vilipêndio e ao rebaixamento da fotografia, mas há quem ainda ache pouco e adicione um requinte de aporcalhamento: é o caso de seja quem for que inventou o selfie stick.

Antes de prosseguir, deixem-me dizer, a título perfunctório, que esse inventor merecia ser empalado no maior e mais grosso selfie stick existente no mercado. O que me levou a escrever o texto de hoje não foi, porém, o propósito de vituperar as selfies; foi o de relatar a descoberta interessantíssima que fiz hoje, ao fim da manhã, quando fui fazer o meu treino no Fluvial (os meus treinos já não o que eram: fiz apenas 1250 metros…). Ao chegar à marginal, cruzei-me com uma multidão de adolescentes, todos eles com um ar mais ou menos normal, que deviam estar numa visita escolar. Passei por um grupo de três miúdos que seguia à frente de duas raparigas; o rapaz do grupo mais numeroso levantou a voz, para se fazer ouvir por uma das raparigas que seguiam à sua frente, e exclamou: «Guida, preciso do pau!» Foi quando a Guida retirou um objecto metálico da mochila – normalmente «pau» associa-se a madeira – que descobri que o pau era um selfie stick. LOL! É genial. «Pau» é a tradução literal de stick, pelo que doravante chamarei àquilo «o pau».

Para que serve o pau? Como sabem, um dos problemas das selfies é o de se ver o braço que segura o telemóvel. O pau resolve o problema (embora a estupidez inerente às selfies, que é o grande problema, permaneça por resolver), mas cria outros: creio que a sua previsível proliferação vai tornar o pau um incómodo público. Com tanta gente a fazer selfies em todo o lado, o uso do pau em lugares densamente povoados pode tornar-se ainda mais incómodo e irritante do que as selfies já são. Qual de nós nunca teve de se desviar para não colidir com um pateta que decide parar no meio do caminho para tirar uma selfie? Agora imaginem o que pode acontecer com o potencial contundente/perfurante dos paus.

Notem que, ao longo deste texto, tenho evitado a todo o custo introduzir trocadilhos dolorosos tendo o pau por objecto. Creio que, depois desta minha explicação, ninguém pensará que uma rapariga que pede a um rapaz que lhe dê o pau está a fazer algo mais do que pedir-lhe que lhe passe o selfie stick. Nada, pois, de pensamentos maliciosos ou de juízos morais apressados. O mesmo se esse diálogo se desenrolar entre dois rapazes. Um pau é, neste caso, um acessório para fazer selfies. Honi soit qui mal y pense.

M. V. M.

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2 thoughts on “Pau”

  1. MVM já há museus que proibiram os selfie sticks. No teu artigo penso q falta a cereja em cima do bolo… que é essa geringonça obrigar a usar a pior das duas câmaras do telefone, às vezes pouco melhor do q uma webcam dos anos 90!

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