Por que é tão fácil zurzir as Leica

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Se há no mundo da fotografia uma marca à qual ninguém fica indiferente, essa marca é a Leica. O que as pessoas dizem, quando a Leica apresenta uma câmara nova, é sempre o mesmo: uns exultam, outros vituperam. Estes últimos apresentam sempre os mesmos argumentos: que são para ignorantes ricos, que o preço não se justifica. Haverá algo de verdade nestas críticas?

Os que gostam de Leicas têm um grande argumento a seu favor. Se olharmos para uma lista de gente que usou Leicas, verificaremos que estão nela os fotógrafos mais importantes de sempre. De Cartier-Bresson a Sebastião Salgado, estão lá todos. Podemos sempre rebater este argumento dizendo que eles usavam Leicas da série M, da M3 à M6, que eram as melhores antes do advento das SLR, e que provavelmente esses deuses da fotografia prefeririam uma máquina com melhores características de visualização e focagem e menos limitada quanto às lentes que se podiam usar (nas Leica M não se podem usar teleobjectivas de mais de 135 mm), mas não restam dúvidas que a Leica construiu uma excelente reputação por as suas câmaras terem sido usadas por gente tão ilustre.

A qualidade das Leica é também indiscutível. As lentes são as melhores que existem e os corpos são feitos para durar uma vida. Além disto, tem um papel de pioneira da indústria fotográfica. Foi uma empresa que revolucionou a fotografia e a forma de fotografar. Com a Ur-Leica e a Leica 1 vieram a transportabilidade das máquinas fotográficas e os ampliadores, mas também um novo estilo de fotojornalismo que antes, devido às dimensões das máquinas, era simplesmente impossível. Discutir uma Leica M é, por tudo isto, muito mais do que discutir uma câmara e o seu preço. Este pode parecer exagerado, mas incorpora os padrões de qualidade mais elevados da indústria fotográfica e um acervo de prestígio inacessível a qualquer outra marca.

A Leica, em particular a série M, não é isenta de críticas. O visor de telémetro é, convenhamos, tudo menos racional. Ao contrário dos visores reflex, os das Leica M não permitem visualizar a profundidade de campo e tem de se confiar nas marcas do telémetro para ter a certeza sobre a focagem. Além disto, estes visores não acomodam lentes de distância focal maior que 135 mm e o campo de visão, ao ser delimitado por linhas, torna o enquadramento numa proeza só ao alcance dos muito experientes. É um dispositivo que, para ser minimamente prático e eficaz, exigiu um desenvolvimento tecnológico de tal ordem (pense-se na correcção automática da paralaxe) que o tornou caríssimo. Além disto, a transição da Leica para o domínio digital foi tudo menos bem conseguido: a Leica M8 é uma câmara que, em termos de qualidade de imagem, é batida por modelos de outras marcas que custam menos de metade do preço. Nem mesmo a qualidade das lentes pôde ajudar a sua causa.

A resposta da Leica a estes problemas foi a pior possível: para responder às críticas – aliás justificadas – dos que ficaram descontentes com os elevados níveis de ruído do sensor Kodak das M8, trocaram este sensor por um CMOS que trouxe as Leica para o mesmo terreno das Canon e Nikon profissionais, incorporando o vídeo (quem é que vai fazer vídeo com uma Leica M?), o live view e a possibilidade de montar um visor electrónico. Um pouco como quando a Porsche se lembrou de montar uma caixa automática no 911: continuou a ser um carro difícil de controlar por causa do motor em posição traseira e da distância entre eixos demasiado curta, mas a condução tornou-se mais cómoda… Escusado será dizer que a comparação entre as Leica M digitais e as Canon e Nikon full frame é muito desfavorável às primeiras, pelo que as Leica adquiriram a reputação de câmaras para gente com mais dinheiro que bom senso mas que gosta de se dar ares de só comprar o melhor – sendo que, para elas, «melhor» é sinónimo de «mais caro». Não contente com estes golpes autoinfligidos no seu prestígio, a Leica ainda se deu ao luxo de expor-se ao ridículo com séries especiais como as Hermès ou a edição Correspondent, uma câmara artificialmente desgastada de maneira a ver-se o amarelo do latão (conseguem conceber alguma coisa mais asinina?) que saiu da imaginação de um azeiteiro chamado Lenny Kravitz.

https://i0.wp.com/en.leica-camera.com/var/leica/storage/images/pim/products/photography/m-system/m-cameras-analogue/leica-mp-typ-baseline/leica-mp,-silver-chrome-finish-order-no.-10301/800192-14-eng-MA/LEICA-MP,-silver-chrome-finish-Order-no.-10301_teaser-307x205.png

Há, contudo, algo de bom a dizer sobre as Leica M: a M7 e a MP de película ainda são produzidas. Curiosamente, em lugar de promover estas máquinas, que são as verdadeiras descendentes da Leica M3, a Leica resolveu fazer uma câmara digital que só fotografa a preto-e-branco: a Leica M Monochrom. Esta semana entendeu melhorá-la, substituindo o sensor CCD de 18 MP por um sensor CMOS de 24 MP. Esta câmara custa 7500 dólares (só o corpo). O que é muito dinheiro. Penso que uma pessoa sensata que goste de preto-e-branco fará muito melhor em comprar uma MP ou M7. Com o dinheiro correspondente à diferença de preço poderá comprar muitas centenas de rolos Tri-X.

Mesmo com a incursão desastrosa no digital, penso que muitas das críticas às Leica M são injustas. Algumas poderão até ser formuladas por mero despeito, por quem gostava de ter um Leica mas não pode. Eu? Se me dessem uma MP, não recusava. Comprá-la seria apenas um daqueles sonhos acordados sobre o que faria se me saísse o Euromilhões, mas tenho a certeza de que ficaria contente se tivesse uma – desde que atinasse com o visor de telémetro.

M. V. M.

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