Reflexões binárias

M1266758B

Ter fotografado com uma câmara digital depois de dez meses sem a usar foi uma fonte inesgotável de reflexões sobre o assunto, também ele inesgotável, das diferenças entre a fotografia analógica e a digital. Vou tentar pôr alguma ordem nas minhas ideias sobre o assunto:

1. O analógico e o digital não são antagónicos. Ambos são formas de fotografar. Embora em domínios diferentes, o resultado é sempre uma fotografia. Os que desrespeitam a fotografia analógica por ser uma coisa do passado e os que defendem o analógico como se estivessem no topo de uma muralha a repelir tropas invasoras deviam pensar nisto: quer a exposição seja registada numa película ou num sensor, o que fica é uma fotografia. O valor dela há-de aferir-se por aquilo que ela transmite, não pelo meio como foi feita.

Dito isto há factores que induzem alguma moderação nesta equiparação. Os dois meios não são semelhantes e implicam metodologias e abordagens diferentes. Fotografar com película é só para quem tem muita paciência e fotografa pouco, limitando as escolhas dos motivos e pensando a composição, o tema e a exposição com muito cuidado; o digital serve melhor quem faz muitas fotografias e pretende obter resultados imediatos. São atitudes completamente diferentes. Não acredito que exista alguém que fotografe indiferentemente com ambos os meios: além dos que optam exclusivamente pelo analógico ou pelo digital, haverá os que, usando ambos, fotografam predominantemente com um deles. Haverá o digitalista que gosta de desenferrujar a sua máquina de película de vez em quando e o analoguista que fotografa esporadicamente com uma câmara digital, mas não quem as use indiscriminadamente.

2. Há uma triste realidade com que tenho de aprender a viver: o formato 135 não é nenhum pináculo de qualidade. Há algumas semanas, um artigo de Ctein publicado no The Online Photographer gerou um pequeno motim entre os comentaristas porque o autor equiparava os resultados da película 135 aos que se podem obter hoje com um smartphone como o iPhone 6, afirmando que a verdadeira qualidade da fotografia analógica só se obtém usando o médio formato. Há decerto muito de exagero nesta afirmação – a comparação foi feita com base numa point and shoot de película –, mas também muito de verdade. O 135 era um formato quase universal, que foi adoptado por ter uma qualidade aceitável a um custo relativamente reduzido, mas a verdadeira qualidade da película só está ao alcance do fotógrafo a partir do médio formato. É por referência a este que as comparações qualitativas entre analógico e digital devem ser feitas. O que significa que estaremos a comparar um máximo de doze exposições com uma capacidade de armazenamento que apenas é limitada pela capacidade do cartão de memória. Se compararmos o 135 com uma câmara digital full frame, esta última é objectivamente melhor na maioria dos aspectos; comparando o médio formato em ambos os domínios as diferenças são de outra ordem: o digital implica câmaras caríssimas e volumosas para um acréscimo de qualidade em relação ao full frame que, sendo indiscutível, só é verdadeiramente vantajoso para profissionais altamente empenhados e exigentes, ao passo que hoje é possível comprar uma câmara analógica de médio formato por €500. Assim, a comparação mais equitativa será entre o rolo de médio formato e o sensor full frame.

Comparando o 135 com o médio formato dos rolos 120, alguns poderão entender que o primeiro tem vantagens no domínio da expressão fotográfica: as altas luzes são mais intensas, as sombras mais profundas e os negros mais retintos, o que autoriza uma linguagem estética mais contemporânea. Contudo, o problema do grão é mais acentuado, as ampliações terão forçosamente de ser em tamanhos pequenos e a imagem terá sempre uma gama dinâmica limitada. As vantagens que referi podem também ser vistas como desvantagens: o pormenor nas sombras e altas luzes é ocultado, o que será extremamente negativo para quem pretende uma descrição tonal rigorosa. Estes terão benefícios em usar uma máquina de película de médio formato ou uma digital full frame.

3. A minha melhor escolha, dado o meu equipamento, é fotografar a cores com a câmara digital e a preto-e-branco com a analógica. Eu não encontrei (ainda) um rolo 135 a cores que me desse resultados consistentes: o Portra 160 é bom, mas é um rolo calibrado para a luz solar; o equilíbrio das cores é completamente alterado sempre que há sombras, caso em que a imagem adquire matizes ciano e magenta que destroem qualquer veracidade; o Ektar 100 é o oposto: excelente para interiores pouco iluminados, aberrante sob luz natural. Há o Ferrania Solaris, que me deu imenso prazer usar, mas este é um rolo que me levanta a dúvida se os dois exemplares que expus não estariam expirados. Talvez em breve tenhamos notícias da Ferrania e possa usar rolos novos, assim aferindo a sua verdadeira qualidade. Tal como as coisas são hoje, porém, o digital é mais adequado para cores e o analógico para o preto-e-branco. Na minha experiência, pelo menos. Outros poderão chegar a conclusões diferentes.

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s