Quarenta e um anos de liberdade

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Por Alfredo Cunha

O dia de hoje deixou-me triste pelos que teriam gostado de festejar o 25 de Abril mas não puderam por causa da chuva. Aliás, não é só o tempo invernal que me deixa triste no quadragésimo primeiro aniversário da revolução (que verdadeiramente não o foi: foi um golpe de estado motivado por questões de promoção nas patentes militares – a verdade é para se dizer). Mais triste ainda é pensar nos muitos que hoje dizem que a vida era melhor antes do 25 de Abril. Isto deixa-me triste porque essas pessoas estão dispostas a trocar a liberdade por outra coisa que só elas na sua cabeça percebem o que é. Ou melhor (pior): são pessoas que não sabem o que é a liberdade. O que é triste. É como se tivessem sido escravos toda a vida e, na hora da libertação, não soubessem o que fazer com a vida por se sentirem desamparadas sem ninguém a dizer-lhes o que fazer. Isto é profundamente triste. É deprimente.

Um sujeito que eu conheço formulou uma explicação interessante para este fenómeno do saudosismo salazarista. Aquelas pessoas dizem essas monstruosidades porque eram jovens no tempo do Salazar; do que elas têm saudades não é do regime, mas da sua juventude. Há decerto muito de verdade nesta tese, mas fica por explicar por que tantas pessoas que não chegaram verdadeiramente a viver sob a ditadura partilham esta nostalgia do Estado Novo. Talvez a explicação para isto esteja na própria premissa de não terem vivido debaixo de uma ditadura, mas uma questão perturbante permanece: estas pessoas desprezam a liberdade e trocá-la-iam de bom grado pelo conforto de um regime autoritário.

É preciso ter paciência com estas pessoas. Afinal de contas, uma das melhores coisas que o 25 de Abril trouxe foi a liberdade de as pessoas poderem dizer o que lhes vai na mente – mesmo que sejam monstruosidades e mesmo que não percebam o paradoxo de poderem criticar a liberdade por viverem em liberdade.

Seja como for, houve um preço demasiado alto a pagar pela liberdade: a ascensão ao poder de uma classe política impreparada, medíocre, desprovida de sentido do dever e profundamente venal. Será isto, porém, suficiente para que abjuremos a democracia? A resposta é um firme não. Agora temos uma protecção social universal e solidária que dantes era apenas para funcionários públicos (o resto que vivesse da caridade); temos um sistema de saúde universal e tendencialmente gratuito, o mesmo se podendo dizer do sistema de ensino. Portugal progrediu, apesar de tudo, em todos os índices de qualidade de vida: vivemos hoje muito melhor do que há quarenta e um anos.

E temos liberdade. Claro que nem todos sentem esta liberdade. Alguns têm alma de escravo, pelo que só se sentem bem debaixo do conforto de um amo; mas temo-la. Só por isto teria valido a pena tudo o que aconteceu depois do 25 de Abril. Mas no dia de ontem, véspera do Dia da Liberdade, tivemos mais um motivo de tristeza com uma tentativa lamentável de condicionar a liberdade com aquele projecto ignominioso de sujeitar a cobertura noticiosa das campanhas eleitorais a um visto prévio. Este projecto foi subscrito por um partido que clama ser um dos fundadores do regime democrático, o que, mais do que tristeza, me encheu de vergonha.

A reacção a este projecto censório reforçou a minha crença na liberdade e na democracia. A oposição que de imediato se levantou, fazendo com que os três partidos proponentes retirassem o projecto, foi uma demonstração de que os valores democráticos e libertários estão hoje bem consolidados e resistem às tentações autocráticas. Ainda bem.

M. V. M.

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