As melhores fotografias de sempre (15)

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Helmut Newton, Auto-retrato com Mulher e Modelo, 1981

A evolução do meu interesse pela fotografia faz-me muitas vezes engolir certas afirmações que fiz antes e sentir-me embaraçado por coisas que deixei escrito. Uma delas foi a minha apreciação da fotografia de moda: sempre que as palavras «fotografia» e «moda» surgiam juntas, eu fundia-as numa só: futilidade.

Depois descobri Dovima With Elephants. Esta fotografia esplêndida de Richard Avedon fez-me ver que a fotografia de moda pode sê-lo sem o ser – ou, se assim se preferir, ser uma fotografia que vai além da moda, não sendo a simples apresentação de uma criação de qualquer costureiro. E, o que é crucial, pode ter um valor de criação artística insuspeitado.

Outra consequência da descoberta de Dovima With Elephants foi ver com outros olhos a obra fotográfica de Helmut Newton, aliás Helmut Neustädter (1920-2004). Newton tomou o que Avedon havia começado e levou a fotografia de moda a um nível de sofisticação artística tão elevado que se torna mais visível a intenção criadora do fotógrafo do que a do costureiro. Newton não se limitou a fotografar criações de moda: entendia esta última como um mundo autónomo e complexo do qual as roupas são apenas o produto final. Para além destas existia um mundo feito de mulheres belíssimas que tinham uma vida para além da sua profissão de modelos. Há, em algumas fotografias de Helmut Newton, um lado profundamente humano que alguns insistem em não ver, mas está indiscutivelmente presente: quando ele nos apresentou mulheres nuas e hiper-produzidas, estava também a fornecer o seu ponto de vista crítico acerca da descaracterização dos modelos enquanto mulheres, da sua transformação em objectos de desejo. Newton deu ao nu e ao erotismo um papel que nunca tinham conhecido na fotografia de moda, mas não o fez gratuitamente.

Helmut Newton foi um inovador e é ainda a grande referência da fotografia de moda. Além de que fazia fotografias geniais como esta aqui. Julgando por esta fotografia apenas, podemos concluir que Helmut Newton fazia fotografia de moda com plena consciência da natureza ilusória de ambas – a fotografia e a moda. De facto, esta fotografia é demonstrativa da vacuidade do mundo da moda. Enquadrados pelo espelho estão uma modelo nua, que figura também em primeiro plano na imagem, e o próprio Helmut Newton. A atmosfera desta fotografia parece sugerir a existência de dois mundos diferentes: o que se vê no espelho, em que Helmut Newton participa mas apenas como testemunha, e o que extravasa dele.

No pequeno mundo que se vê no espelho tudo é ideal: nada, a não ser a presença de Helmut Newton no enquadramento, parece interferir com a beleza e o erotismo. O fundo é imaculadamente branco, criando a impressão de que tudo ali é perfeito e impecavelmente organizado, mas é uma percepção falsa. E Newton está lá com a sua Rolleiflex para o provar. Beleza e sensualidade? Sim, mas apenas por uma construção em que Helmut Newton participou. Uma ilusão criada pela fotografia. A modelo é quase irreal, com o seu corpo-arquétipo e a sua pose forçada. A mulher real não é aquela, mas a que aparece em primeiro plano, ligeiramente desfocada (o que pode ser interpretado como uma alegoria da imperfeição do mundo real que se situa fora do espelho).

Porque o mundo fora do estúdio está longe de ser perfeito. O que se vê às margens do espelho é a realidade: uma mulher sem glamour nenhum, que parece ter sido quem organizou a cena visível no espelho, como se a sua presença significasse que somos seres imperfeitos que perseguem em vão uma perfeição que não existe; o vislumbre do exterior do estúdio, confuso e desorganizado, funciona como a antítese do ambiente perfeito que o espelho pretende mostrar (mas não consegue, porque está lá Helmut Newton a mostrar que tudo não passa de uma fantasia, de uma ilusão); as pernas que se vêem do lado esquerdo do espelho simbolizam, provavelmente, a aspiração de aceder àquela aparência de beleza, sensualidade e perfeição, como se a dona do corpo a que pertencem esperasse pela sua vez – o que pode ser uma alegoria da transitoriedade da ilusão que o espelho representa: a mulher no espelho brevemente terá de dar o seu lugar a outra.

Acima de tudo, esta fotografia é um auto-retrato de Helmut Newton, mas um auto-retrato em que nem sequer vemos o seu rosto, como se não fosse importante ou tivesse um papel secundário na cena. Este é o mundo de Helmut Newton, um mundo feito de ilusões – a da fotografia e a da moda – do qual é mais figurante do que actor.

Sendo fotógrafo de moda, Newton sabia que esta não é mais que uma fantasia. Esta fotografia é genial porque nela está um juízo crítico do mundo a que Helmut Newton se dedicou: a ilusão de perfeição e harmonia, a transitoriedade e o contraste de toda esta fantasia com uma realidade banal e triste, mas que existe – ao contrário da fatuidade do mundo dos modelos e das criações, que não passa de uma fantasia artificialmente criada por seres tão imperfeitos quanto perfeita é a sua criação. Um deles é o próprio Helmut Newton, um criador de ilusões.

M. V. M.

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